O Escritor Fantasma (2010)

Em meio a sua conturbada vida pessoal, Roman Polanski nos entrega mais uma obra de quem sabe trabalhar com cinema. Dosando muito bem mistério e tensão, “O Escritor Fantasma” já é um dos melhores filmes de 2010.

“Cineasta Roman Polanski é preso na Suíça acusado de pedofilia”; “Ex-modelo: fui drogada, algemada e estuprada por Polanski”; “Polanski faz primeira aparição após fim de prisão domiciliar” .

Ultimamente o nome de Roman Polanski dificilmente foi ligado ao cinema, o diretor responsável pela criação de clássicos como “O Bebe de Rosemary” e “O Inquilino” estava a tempos afastados das câmeras em função de acusações de pedofilia, quando em 1977 teria tido relações sexuais com uma garota de 13 anos.  Em meio a esta confusão foi que Polanski decidiu trazer o romance de Robert Harris, intitulado de “The Ghost”, para os cinemas.

Em “O Escritor Fantasma”, somos apresentados á um escritor fantasma britânico, interpretado por Ewan McGregor e que propositalmente não é revelado seu nome. Para quem não sabe, escritor fantasma é uma pessoa que escreve para outra sem receber os créditos pelo trabalho, tática muito utilizada por políticos. Sendo assim o nosso personagem principal aceita completar as memórias do ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnam). A princípio ele chega a negar, porém logo percebe que esta pode ser uma ótima oportunidade em sua vida, mesmo sabendo que o projeto parece condenado desde o início, já que seu antecessor no projeto, o assessor de longa data de Lang, foi encontrado morto.

Polanski acerta em cheio ao deixar bem claro para todo o público que o personagem de McGregor sabe muito bem de sua função: ser anônimo e fazer única e exclusivamente seu trabalho. O jovem desde o começo é apresentado como uma pessoa sagaz e que logo entende que este não é mais um trabalho comum: Além de ter um tempo apertadíssimo, a morte de seu antecessor não foi muito bem explicada, deixando sérias dúvidas quanto à legalidade de seu novo trabalho.
Então de forma muita lenta e cadenciada, Polanski vai nos introduzindo pouco a pouco a esta atmosfera política, tangenciada por traições e diversos níveis emocionais. A situação do escritor fantasma vai se complicando cada vez mais, à medida que seu chefe, o ex-primeiro-ministro, vem sendo acusado de chefiar seqüestros para a CIA.

Até os últimos momentos de “O Escritor Fantasma” vamos garimpando mais características do personagem de Ewan McGregor. Este é o grande acerto da produção, balancear como poucos filmes a apresentação do personagem principal. Isso tudo só é possível graças á ótima participação de Ewan McGregor que consegue ser correto e transpor muito bem seu personagem.

Deve dizer que a fotografia aqui só não é melhor que “O Livro de Eli”, mas mesmo assim apresenta um trabalho excelente de Pawel Edelman que foi o encarregado de fotografias como “O Pianista”, “Oliver Twist” e “Ray”. Aqui Edelman procura utilizar uma fotografia extremamente cinzenta e explorando muito bem as tomadas de Berlim/Alemanha na qual foram gravadas boas partes do filme e acerta em cheio nas locações na praia, filmadas na Dinamarca. Uma fotografia apagada, muito distante, acompanhando o isolamento e a monotonia do personagem de Ewan McGregor.

Outro ponto que deve ser destacado é a ótima trilha sonora produzida por Alexandre Desplat (“O Curioso Caso de Benjamin Button”) que sempre intercala os sons agudos e mais graves dando todo o tom de mistério e tensão proporcionado pela direção de Roman Polanski. A trilha sonora se encaixa de tal forma que serve para elevar a um patamar mais alto o excelente roteiro elaborado por Roman Polanski e pelo próprio autor do livro, Robert Harris. O roteiro vai seguindo calmamente e aos poucos soltando pistas e revelações desta mirabolante trama política.

Oito anos depois do filme que lhe rendeu o Oscar (“O Pianista”), Roman Polanski volta a nos entregar mais um ótimo filme com um teor político muito denso e sabendo dosar muito bem tensão e mistérios, isso além de ser primoroso tecnicamente. Isso faz de “O Escritor Fantasma” um dos melhores filmes deste ano e sério candidato ao próximo Oscar.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

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