2010, Cinema, Críticas

Karatê Kid (2010)

"The Karate Kid" de Harald Zwart

Ilustrado por tomadas orientais fantásticas e contendo boa dose de diversão e dramaticidade, “Karatê Kid” surpreende em inúmeros fatores.

Volte e meia eu bato sempre na mesma tecla, a tal da extinta originalidade. Pois bem, temos então adiante um reboot de uma das franquias mais inerentes a infância de inúmeros – agora já adultos – jovens. Afinal já se faz 26 anos desde o lançamento de “Karatê Kid – A Hora da Verdade”. E por mais que seja tão presente na memória de inúmeras pessoas, é praticamente desconhecido ou se não, muito distante desta nova geração. Então por mais que seja difícil aceitar, mas nem tanto entender, sim, a franquia precisava de uma releitura. E vejam só que curioso e inusitado, “Karatê Kid” é superior que a obra de 1984.

Percebemos a entrega de todos envolvidos no projeto, afinal qualquer desvio poderia arranhar a história de Karatê Kid e principalmente de seus inúmeros fãs que curtiam a cada semana na sessão da tarde. A história pode já ter sido utilizada em diversos filmes, porém quando bem contada não atrapalha em nada. Isso não o torna clichê ou piegas, no sentido negativo da palavra. Afinal, um clichê bem usado tem muito mais méritos do que uma obra absurdamente original, mas nem tão bem executada.

Agora vou fazer um exercício que servirá para um melhor entendimento do filme. Vou me colocar nas peles de um garoto de dez anos, que não conhece Daniel Larusso e muito menos Sr. Miyagi. Talvez o impacto que o novo filme causará sobre esta faixa etária, seja maior do que sua fita original. Ok, agora que esquecemos a versão de 84 – e suas fracas continuações – vamos entender como a ‘novidade’ “Karatê Kid” atingirá em cheio o apresso do público infanto-juvenil, fundamentalmente por usar ferramentas bem significativas para tal fato.

A primeira é sem dúvida a escolha do garoto Jaden Smith de 12 anos, filho do astro Will Smith. Se Jaden não tem o mesmo talento que seu coroa possui, tem um carisma no mínimo parecido. Jaden consegue impressionar nem tanto pelo seu talento, mas sim pela incrível entrega por seu personagem. O garoto consegue passar tamanha emoção que só quem realmente entendeu todos os preceitos de seu personagem conseguiria, e jogando a seu favor ele tem a idade propícia para a aprovação de seu público alvo. Sua promissora atuação deve ter deixado Will Smith bem orgulhoso.
Pode até passar despercebido, mas o longa utiliza características sutis, mas de fácil identificação. Em determinada cena, a mãe de Dre o leva para o colégio. E agora eu lhe pergunto, que mãe já não lhe fez passar vergonha dizendo bordões como “Eu te amo”, “Se cuida filho”, “Qualquer coisa liga para a mamãe”….

Outro mecanismo muito bem executado pela produção de “Karatê Kid” foi sua eficiente trilha sonora pop – lembre-se, estou na cabeça de um garoto de dez anos –. Então o longa utiliza desde Lady Gaga até Justin Bieber, febres momentâneas que circulam mundo afora. E por mais que pareça insuportável – e na verdade é – conseguimos entender o porquê de tais escolhas. Em momento algum a produção esconde que está jogando para seus fãs que estão por vir, então seja pela voz afeminada de Justin Bieber ou pelas trancinhas de Jaden Smith, “Karatê Kid” conquista por completo seu principal alvo.

Mas então o que faz com que a película ultrapasse fronteiras e agrade ao grande e barbado público em geral? Vamos ver…

Se funciona como uma releitura da obra de 84, pode também ser encarado como uma homenagem a Mestre Miyagi e companhia. O filme tem em seu título Karatê, mas fala sobre Kung Fu. Um singelo “Kung Fu Kid” daria a impressão de alguma sátira. Sendo assim, o diretor Harald Zwart decide pegar um nome fortíssimo e assim, trazer os holofotes para seu projeto. É de suma importância que devemos falar sobre Zwart, o diretor dos fracos “O Agente Teen” e “A Pantera Cor-de-rosa 2” realiza de longe seu melhor trabalho. Ele consegue deixar muito mais crível os problemas de Dre, personagem central do filme. O garoto deslocado da sociedade, se encaixa muito mais com um americano se mudando para a China e tendo graves problemas quanto a difícil aprendizagem da língua e com a completa diferença de cultura, conjecturando assim uma grande e muito mais sincera, repulsa por parte de Dre (Jaden Smith).

Resumidamente temos na trama, Dre Parker (Jaden Smith), um garoto de 12 anos que poderia ser o mais popular de Detroit, mas a carreira de sua mãe, Sherry Parker (Taraji P. Henson) acaba os levando para a China. Imediatamente, Dre se apaixona pela sua colega de classe Mei Yin (a simpática Wenwen Han), mas as diferenças culturais tornam essa amizade impossível. Pior ainda, os sentimentos de Dre fazem com que o brigão da sala e prodígio do kung fu Cheng (Zhenwei Wang) torne-se seu inimigo.
Sem amigos numa nova cidade, Dre não tem a quem recorrer exceto o zelador do seu prédio Mr. Han (Jackie Chan), que é secretamente um mestre do kung fu. À medida que Han ensina Dre que o kung fu é muito mais que socos e habilidade, mas sim maturidade e calma, Dre percebe que encarar os brigões da turma será a aventura de uma vida.

O roteiro é elaborado por Christopher Murphey, obviamente com base no trabalho de Robert Mark Kamen, roteirista do primeiro filme. Temos sequências muito parecidas com o longa original, assim como passagens bem semelhantes.

Além do maior entendimento por parte da difícil introdução a um mundo desconhecido, temos também um nível muito mais alto de dramaticidade que sua versão original. As duas horas de filme são a contagem ideal para um ótimo aprofundamento das duas figuras centrais: Jaden Smith e Jackie Chan. E aos poucos vamos percebendo quão importante é a figura de Jackie Chan, tanto dentro da trama, como também na parte da produção do longa. Afinal nada melhor que um divertido chinês que tenha total domínio sobre artes marciais. Servindo como um verdadeiro tutor de Dre, ele nos proporciona as melhores frases (“Quando você luta contra a raiva que os cega, é melhor você sair do caminho” ou também “A vida pode nos derrubar, mas podemos escolher se levantamos ou não”). Além  do chocante e emocionante choque com seu passado (uma cena orquestrada maravilhosamente). Chan aqui é menos divertido que o normal, precisando encarar um personagem sério e que pediria uma atuação difícil de ser conduzida. E ele não faz feio.

Temos aqui também um filme muito bom tecnicamente. Se a escolha das músicas pode deixar alguns com o pé atrás, já vou logo avisando que a trilha incidental é maravilhosa. E não poderia ser diferente, afinal ela é composta por nada mais nada menos que James Horner, que tem em seu recheado currículo trabalhos como “Titanic”, “Avatar”, “Duro de Matar” e “Tróia”, além de muitos outros. Horner sabe utilizar bem toda mitológica faixa chinesa dando toques maravilhosos em sua projeção, que no começo pode parecer despercebida, porém possui uma crescente espetacular.

Mas o que merece um destaque a parte são as tomadas exuberantes feitas na China. Harald Zwart usa e abusa da maravilhosa paisagem do país oriental. Praticamente todos os grandes pólos turísticos então presentes em locações fantásticas, que deixam qualquer um com vontade de pegar o primeiro vôo para Pequim e provar com os próprios olhos tamanha beleza. Apoiando-se neste ótimo cenário, a fotografia é crua – acertadamente – deixando que as próprias locações ditem o ritmo. Quem é fascinado pela cultura oriental irá ficar boquiaberto com verdadeiros cartões postais estampados na tela do cinema.

Então muito mais do que uma singela homenagem ao clássico de outrora, “Karatê Kid” é um filme com personalidade, que está focado em atingir seu público alvo. Ele surpreende em conseguir agradar não só as crianças, mas também todos que se identificaram e compraram a ideia do garoto deslocado da sociedade lutando – literalmente – por sua aceitação tanto espiritual, quanto externa. Uma verdadeira caminhada pelo seu, e porque não, pelo nosso autoconhecimento.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

7 comentários em “Karatê Kid (2010)”

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