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Wall Street: Poder e Cobiça (1987)

Tendo como sua maior força, os detalhes, “Wall Street: Poder e Cobiça” se torna eficiente ao mostrar de modo frio e bem estruturado a árdua e tentadora escalada no mundo capitalista.

Quem nunca viu a famosa imagem de inúmeros homens engravatados discutindo loucamente e acenando no alto com papéis e pastas nas mãos? A estampagem da Bolsa de Valores pode muito bem ser conseguida em uma simples caminhada pelo coração financeiro dos Estados Unidos, a tão famosa Wall Street.
Viajando agora para um âmbito cinematográfico, um dos maiores ícones deste mercado organizado é sem dúvida Gordon Gekko, nas peles de Michael Douglas, personagem central do filme “Wall Street: Poder e Cobiça” de 1987

Bud Fox (Charlie Sheen) é um corretor de Wall Street no início de 1980 em Nova York. O rapaz possui um forte anseio de chegar ao topo e se tornar uma das pessoas mais influentes em seu país. Trilhando então seu caminho, Bud se aproxima do multimilionário e experiente Gordon Gekko (Michael Douglas), um corretor de alta potência, extremamente bem sucedido.
Então debaixo das asas de Gordon Gekko, Bud vai aprendendo toda a filosofia de seu mestre e sua grande influencia em manipular o mercado com informações privilegiadas, tendo como seu grande lema, e que melhor descreve sua personalidade a famosa frase: “A ganância é boa”. Seguindo então a cartilha do poderoso acionista, Bud se vê arrastado para um mundo obscuro dos negócios, onde uma boa vida, mulheres, carros e amigos, podem ser conseguidos facilmente com uma simples quantia em dinheiro. Uma metodologia que vai totalmente à contramão do que sua família e principalmente seu pai, Carl Fox (Martin Sheen), lhe ensinaram.

O maior êxito de “Wall Street: Poder e Cobiça” é sem dúvida o incrível cuidado em se apoiar em detalhes, a princípio irrelevantes, mas que de forma somática vão unindo-se e trazendo um tom muito mais ácido que poderíamos imaginar de uma produção que tem como base a mais famosa rua de bolsa de valores. Uma época de grandes mudanças como a década de 80 é retratada de forma muito fria e bem estruturada, principalmente ao observamos que o filme pertence a este período de intensa mudança de fluxo ideológico, onde o comportamento social foi ganhando visão ao capitalismo selvagem, estabelecendo o dinheiro, como único meio de relacionamento. Tendo noção deste cenário materialista, o diretor Oliver Stone que, um ano depois de vencer o Oscar por seu trabalho em “Platoon”, desenvolve um acervo minucioso de pequenas frações que servem de panorama para este modelo capitalista que se enraizava em solo norte-americano.

O close no terno empoeirado de Charlie Sheen e minutos depois, em seu relógio banhado a ouro, assim como quadros requisitados e uma cortina de última geração, por mais que pareça apenas um requinte a mais, serve como a alma do filme.
E se estes detalhes presentes em toda projeção devem ser exaltados em função da bela direção de Oliver Stone, também merece um tratamento a parte, o incrível roteiro elaborado pelo próprio Stone e por seu parceiro Stanley Weiser. Com ótimos diálogos e particularizando alguns fundamentos, como, declarando o ramo de ações o maior mercado ascendente daquela geração; mostrando a disparidade entre duas gerações tão próximas: a de Carl Fox e Bud Fox, que, enquanto seu filho recebera 50 mil em um ano e ainda sim continuava endividado, mostra seu pai no estilo tradicional, trabalhando a 24 anos em uma empresa rumo à falência. Enfim, são grandes os diálogos que Oliver Stone desenvolve, além de uma das frases mais famosas, que marcaram esta geração: “Greed is Good”, na tradução literal “A Ganância é boa” que não por mera coincidência, quando abreviada aparece como G.G., utilizada também para falar do milionário Gordon Gekko. “Uma vida toda pode ser mudada em poucos momentos. Este é um deles” quando Bud está prestes a encontrar G. Gekko pela primeira vez; “A mercadoria de maior informação que eu conheço é a informação.”; “Me dê novas informações, como ou onde consegue não me importa, os fins justificam os meios”. São amostras do cuidado com que são colocadas estas frases.

Mesmo que o clímax não acompanhe com a mesma desenvoltura o restante da película, “Wall Street: Poder e Cobiça” é um ótimo filme. Tendo ótimos plano-sequencias, como a “viagem” por dentro do escritório de Bud e sabendo explorar muito bem os redores da famosa Wall Street, opta em escolher uma fotografia que a todo o momento contrasta uma iluminação clara com escura, técnica muito bem executada visualmente e também metaforicamente, no sentido de demonstrar a passagem do personagem de Charlie Sheen.
Ator que para quem ainda não lembrou, tem sua vida rodeada por confusões e muito famoso por encarnar o personagem, que na verdade nada mais é que um deboche dele mesmo, Charlie Harper, da espetacular série cômica “Two and a Half Men”. Tendo uma carreira meteórica, valendo tanto para sua ascensão quanto para sua queda, Charlie Sheen, que atua ao lado de seu pai, Martin Sheen (“Os Infiltrados”), está em sintonia com o personagem, muitas vezes utilizando seu “charme” para persuadir e conseguir as informações que seu personagem necessita. Daryl Hannah (a caolha Elle Driver de “Kill Bill”) apesar de ter recebido o não tão agradável Framboesa de Ouro de pior atriz, tem uma participação mediana, nada que valesse esse rótulo.
Mas “Wall Street: Poder e Cobiça” só é este clássico dos anos 80 graças à inspiradíssima participação de Michael Douglas, que se preocupa firmemente em passar todo o espírito ganancioso e ambicioso de Gordon Gekko. Douglas escolhe pronunciar muito bem as palavras, dando a entender que não seja um mero acaso a ascensão milionária de Gekko, mas sim, fruto de muita esperteza – usada de forma ilícita. Não por menos, Michael Douglas desbancou Jack Nicholson, Robin Williams, William Hurt e Marcello Mastroianni e venceu o Oscar de Melhor Ator.

Frio e abordando de forma coesa a alienação ao capitalismo, “Wall Street: Poder e Cobiça” é um belo filme, muito graças ao apresso por parte dos detalhes, diálogos inspirados, uma direção diferenciada de Oliver Stone e a uma atuação inspirada de Michael Douglas.
“A questão é que, senhoras e senhores, ganância, por falta de melhor palavra, é bom. Ganância é certo. Ganância dá certo. Ganância esclarece, corta no meio e captura a essência do espírito evolucionário. Ganância, de todas as formas: Pela vida, pelo dinheiro, pelo amor, pelo saber. Ela tem marcado a evolução ascendente da humanidade.”

Nota: 8,0

por Filipe Ferraz

2 comentários em “Wall Street: Poder e Cobiça (1987)”

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