2010, Cinema, Críticas

Tropa de Elite 2 (2010)

Assumindo a função de um vocativo nacional, “Tropa de Elite 2” estava entalado nas gargantas de todos brasileiros.


Detalhar “Tropa de Elite” pode ser um exercício complicado. Sem entrar no quesito da pirataria com que sofrera, o longa de 2007 exerceu uma função talvez primordial para o cinema brasileiro. A figura do Capitão Nascimento que surgia como um herói (por sua imponência e não por sua forma de agir) nada mais era que um interlocutor do público fissurado que assistia na poltrona do cinema e – na maior parte – em seu aparelho de DVD com sua cópia pirata.
Analisado como uma peça cinematográfica o primeiro capítulo conseguia desenvolver dois adjetivos, a principio contraditórios, mas que farão um maior sentido à diante. Imaturidade e coragem.

Corajoso em mostrar sob a ótica do batalhão do BOPE as missões que, os praticamente soldados eram submetidos e ao abrir as portas demonstrando o quão desumano é a guerra entre os homens fardados de preto e os traficantes cariocas. Imaturo como cinema, ao não esquecer resquícios ‘novelísticos’ como o foco acentuado nos rostos dos personagens e a direção fantasiosa de José Padilha, transformando, talvez até sem intenção, Tropa de Elite em uma fábula com frases a todo o momento repetidas pelo povo. Tentando ser mais claro, o “Pede pra sair” dentro trama jamais é colocado de uma forma cômica, porém quando escutamos um cidadão dizendo, logo associamos como algo divertido. O fato destas frases se tornarem talvez mais famosas que o filme, de maneira alguma afeta negativamente o resultado final, mas dão amostras que “Tropa de Elite” atingiu o público muito mais como uma figura fantasiosa de uma realidade assustadora, do que uma ácida e feroz crítica a sociedade (obviamente esta crítica existe, porém em função das escolhas imaturas por parte da produção, acabou ficando em segundo plano).

O inimigo agora é outro. Muito mais do que outro inimigo temos outro estilo de filmagem imposto pelo diretor José Padilha. A coragem do primeiro longa foi elevada de forma estratosférica e a imaturidade foi diluída em uma produção irretocável tecnicamente. Conseguindo uma evolução inimaginável, “Tropa de Elite 2” supera seu prólogo e pode ser classificado como a obra nacional mais importante dos últimos anos.

Nascimento (Wagner Moura) dez anos mais velho cresce na carreira. Depois de se tornar comandante geral do BOPE, em uma missão frustrada na penitenciária de Bangu I, Nascimento acaba sendo afastado do comando do batalhão especial. Tentando ainda permanecer neste mundo, o ex-capitão agora se torna Sub-Secretário de Inteligência e com suas novas funções ele consegue fazer o BOPE crescer, transformando-o em uma letal arma de guerra, dizimando o tráfico de drogas das favelas cariocas.
Com o término do tráfico, um vácuo é criado em meio às favelas, sendo que os policias corruptos que dependiam do lucro se sentem ameaçados e encurralados pelo ciclo com que o Rio de Janeiro ia tomando. Porém em uma verdadeira jogada “empreiteira”, os policias montam um esquema de benefícios a população carente, criando um “Estado” agindo de forma muito mais “segura” e extremamente favorável aos políticos por trás dos PM cariocas. O inimigo de Nascimento mudou e agora tentando combater policiais e políticos corruptos, o ex-capitão terá que auxiliar a dificuldade com o relacionamento com seu filho e este perigoso equilíbrio entre milícia, população e governantes.

A profundidade com que esta “ficção” (como mostra o filme em seus primeiros minutos, “Esta obra é uma ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”) se adentra no cenário político nacional é de incrível ousadia. Enquanto o primeiro longa cutucava o povo brasileiro com sua visão sobre o tráfico de drogas, agora em seu segundo capítulo é praticamente um verdadeiro tapa na cara de todos espectadores sentados na poltrona do cinema. Afinal estamos em um ano eleitoral e o grande arrojo de “Tropa de Elite 2” são as falcatruas existentes no sistema que comanda este país.

Muito mais do que um “simples” discurso contra as regras em vigência no Brasil, a produção apresenta um apuro técnico muito superior á outras obras brasileiras utilizando o molde hollywoodiano para se estabelecer equilibrado em boa parte de sua projeção.

O diretor José Padilha (“Ônibus 174”) deixa de lado todos aqueles resquícios ‘novelísticos’ retratados acima; o foco nos rostos, a câmera por horas desfocada, aqui, são ligeiramente utilizado, fazendo com que sua direção se torne muito mais palpável e explore de forma eficiente sua criatividade em elaborar grandes tomadas: A sequencia inicial dentro da penitenciária Bangu I é excelente graças à incrível edição de Daniel Rezende e a fotografia propositalmente escura, muito bem escalada por Lula Carvalho. Não só nesta cena na penitenciaria como também no súbito surgimento de um helicóptero entre o morro e uma quadra esportiva, se resume o trabalho de edição em Tropa de Elite. Sonoro e visualmente, Padilha e Daniel Rezende jamais deixam que o ritmo desejado por eles sucumba, entregando uma intensa experiência.
Porém é no clima imposto por José Padilha que se encontra o maior defeito do longa. Em sua metade o filme aposta demais na investigação por parte do público e nas tramas dos policiais corruptos, deixando este ritmo alucinante encostado de lado, desorientando-se das restantes cenas inflamáveis.

Saindo das mãos do próprio José Padilha, o roteiro de “Tropa de Elite 2” consegue aliar incríveis referencias totalmente verossímeis que estavam engasgadas na garganta de qualquer brasileiro desesperado com o cenário frustrante encontrado no topo engravatado de nossa pirâmide brasileira. Padilha eleva o nível ‘espiritual’ do filme, ao dividi-lo em grandes pelotões encabeçados pela importância – negativa – com que o jornalismo, milícia e política exercem no sistema.

Menos caricato e muito mais humano, Wagner Moura nos entrega uma atuação brilhante, depositando todo seu talento nos trejeitos de seu personagem totalmente perdido entre as dificuldades no relacionamento com seu filho e com a maléfica estrutura do sistema nacional. Cada vez mais corcovado, com olheiras cada vez mais videntes, Moura evolui com a mesma proporção com que o filme. Completando o elenco ainda vale o destaque para as grandes participações de Irandhir Santos, André Ramiro, Sandro Rocha, André Mattos, Tainá Müller e Milhem Cortaz.

Todos sabem que José Padilha tinha em suas mãos duas escolhas; a primeira, lançar o filme dentro da data prevista (ainda no primeiro semestre) e ter a possibilidade de concorrer ao Oscar deste ano (“Lula – O Filho do Brasil” foi o escolhido como nosso representante), ou, uma semana depois das eleições ‘soltar’ sua pequena mensagem causando grande reflexão a todos os eleitores que realmente se preocupam com o futuro do país. A ideologia de Padilha foi mantida ao invés de uma ambição por parte de uma estatueta.

Compactando tudo: Roteiro, Wagner Moura, Edição, Direção, Fotografia e, principalmente, uma desesperada exclamação nacional na busca de uma sociedade minimamente justa, “Tropa de Elite 2” pode ser considerada a obra mais importante do Brasil nos últimos anos.
Talvez você deva estar se perguntando a quem o povo esta exclamando. A polícia? Ao Governo Estadual? Federal? BOPE? Não. Ao próprio povo, que precisa revistar seus conceitos, estufar o peito e dizer: “A responsabilidade é minha. O comando é meu!!”

Nota: 8,0

por Filipe Ferraz

Outra crítica de “Tropa de Elite 2”, clique aqui.

2 comentários em “Tropa de Elite 2 (2010)”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s