Comer, Rezar, Amar (2010)

O aparente fortalecimento da personagem de Julia Roberts contrasta com o enfraquecimento em sua narrativa


Livro de grande sucesso internacional, “Eat, Pray, Love: One Woman’s Search for Everything Across Italy, India and Indonésia”, história verídica – contestada por muitos –, vivenciada e escrita por Elizabeth Gilbert, ganha sua versão para cinema, protagonizada por Julia Roberts. A polêmica criada por trás da veracidade na forma em que ocorre a história de Elizabeth, mesmo que seja irrelevante, até pode ser entendida. Isso porque “Comer, Rezar, Amar” apresenta uma estrutura bem didática de como se superar problemas, principalmente amorosos.

Os três verbos que ilustram o título podem muito bem funcionar como uma espécie de capítulos para tal superação. O “Comer” assume a função de uma ação prazerosa, já que depois de um grande baque, no caso a separação da protagonista, se entregar a pequenas feições que possam entreter e divertir são o melhor caminho em amenizar a cicatriz amorosa. Mesmo que claramente a palavra ‘comer’ atue como um objeto concreto (afinal Elizabeth se delicia com a culinária italiana) serve muito mais para exprimir a simbologia em um estado alegre. O “Rezar”, se passando na Índia, seria a grande virada, o momento reflexivo e determinante para sua reconstrução psicológica. E finalizando, o “Amar” é a prova final, sendo que foi ele o peso que desequilibrou a balança sentimental, deve ser o mesmo a equilibrá-la. Percebam o quão bem amarrado é a construção da estrutura de “Comer, Rezar, Amar”, mas enquanto observamos um aparente fortalecimento na persona de Elizabeth, acompanhamos uma queda prejudicial e descomunal em sua narrativa.

Liz Gilbert (Julia Roberts) tinha tudo o que uma mulher moderna deve sonhar em ter: “um marido, uma casa, uma carreira bem-sucedida”. Ainda assim, como muitas outras pessoas, ela está perdida, confusa e em busca do que ela realmente deseja na vida. Recentemente divorciada e num momento decisivo, Gilbert sai da zona de conforto, arriscando tudo para mudar sua vida, embarcando em uma jornada ao redor do mundo que se transforma em uma busca por autoconhecimento. Em suas viagens, ela descobre o verdadeiro prazer da gastronomia na Itália; o poder da oração na Índia e a paz interior e equilíbrio de um verdadeiro amor em Bali.

A primeira e melhor parte, acompanhada pelas incríveis tomadas na Itália, consegue o êxito almejado por transpor a intensidade necessária para que a simbologia do “Comer” seja entendida. Rodando a câmera pelos monumentos históricos, macarronadas e o bom vinho italiano, o diretor Ryan Murphy (criador da série “Glee”) apresenta uma forma eficaz em demonstrar a síntese de tal viagem pela Itália. Algo que não podemos dizer dos dois terços finais de “Comer, Rezar, Amar”, onde as verdadeiras matrizes (a reflexão e a prova final) acabam se perdendo em meio a uma cansativa e arrastada narrativa. Se no primeiro ato funciona a direção turística de Ryan Murphy, em sua metade final, situadas na Índia e Indonésia, a intensidade e a forma são equivocadas. “Rezar” e “Comer” deveriam conter passagens mais densas e fortes, já que são os verdadeiros divisores de águas na transformação de Elizabeth. O resultado seria um filme mais pesado, antítese dos moldes de Hollywood.

O problema então, ao se aconchegar a estes moldes, é que a mensagem por trás de “Comer, Rezar, Amar” acaba se tornando distorcida. O fortalecimento da personagem de Julia Roberts, construído de forma cuidadosa e bem emparelhada, em função de um ato final hollywoodiano, quase põe tudo perder, dando a impressão que toda esta metamorfose de Elizabeth fora em vão.

Julia Roberts, com chances remotas de uma indicação ao Oscar, é o centro absoluto da película, inclusive graças à fotografia do excelente Robert Richardson (“Ilha do Medo” e “Bastardos Inglórios”) que constrói uma áurea por volta da atriz. Totalmente à vontade, Julia Roberts apresenta uma interpretação correta, mas dentro do esperado e sem grandes novidades. James Franco (“Milk – A Voz da Igualdade”), Viola Davis (“Dúvida”), Richard Jenkins (“Querido John”), Billy Crudup (“Quase Famosos”) e Javier Bardem (“Onde os Fracos Não Tem Vez”) que interpreta um gaúcho (?) seguem a mesma entoada de Roberts.

Tendo muito que dizer, mas escolhendo a maneira errada de contar, “Comer, Rezar, Amar” acaba escorregando em suas próprias arestas construídas, entregando uma produção cansativa, até certo ponto previsível e com sua eficiente mensagem, infantilmente distorcida.

Nota: 6,0

por Filipe Ferraz

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