Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 (2010)

Ritmo monótono parece não querer coincidir com o clima de urgência imposto pela série.


A saga Harry Potter enfim vai chegando ao seu final. Quase uma década depois do surgimento do bruxinho ainda garoto, encontramos agora uma produção que faz questão de focalizar as barbas do já adulto bruxo. Harry Potter cresceu, e acompanhando-o, a série também. Mas só agora. Foram preciso seis filmes para que enfim a série amadurecesse e se tornasse algo muito mais adulto e consequentemente verdadeiro.
Porém devo admitir que já seja tarde. Seis filmes foram tempo suficiente para desenvolver a inocência, diversão, relacionamento e intrigas dos personagens centrais. O clima agora é de urgência, afinal o temeroso senhor das trevas, Lord Voldemort, está à solta e á procura do “Eleito”, Sr. Potter.

O diretor David Yates parece ter escolhido, depois do equívoco por parte das ultimas produções, descontar todo hormônio do crescimento em “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1”. Porém ele se esqueceu de duas coisas altamente ligadas e importantes: Os não-fãs literários da obra e o ritmo de um verdadeiro “gran finale”.

Neste penúltimo filme, as forças do Mal, lideradas pelo vilão Lord Voldemort (Ralph Fiennes) estão mais perigosas do que nunca. Fora agora dos muros de Hogwarts e sem a proteção de Dumbledore, Harry (Daniel Radcliffe), Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) estão praticamente sozinhos na missão de encontrar e destruir as Horcruxes. Paralelamente a isto, o Ministério da Magia esta agora sob posse do pessoal de Voldemort, abrindo assim uma era ferrenha de terror e perseguição.

Logo quando divulgado que o ultimo capítulo da saga ‘Harry Potter’ seria dividido em duas partes, a sensação com certeza foi de um plano meramente comercial. Seria muita ingenuidade negar isto, porém ao término de ‘Harry Potter 7.1’ percebemos que existia sim outro propósito, que como já relatado acima, compensaria toda infantilidade exacerbada das ultimas fitas (sobre tudo no fraco “Enigma do Príncipe”) e acrescentaria dados importantíssimos a linha narrativa central. Porém essa ultima hipótese só é válida para aqueles que já leram as obras de J.K. Rowling. O diretor David Yates praticamente desiste de tentar abranger o público visual e abraça somente os fãs da saga de Hogwarts. E podem ter certeza que não serão poucas as vezes onde teremos a impressão de que tudo passado em tela foi feito somente para quem já leu o livro.
O resultado disso é uma quebra absurda no ritmo de ‘HP7’, deixando-o com vinte ótimos minutos e com quase duas horas de uma cansativa e monótona trama.

“Antes tarde do que nunca” diria o outro, então ainda bem que David Yates percebera o rumo com que a série caminhava, perdendo fôlego a cada baile ou briguinha entre os três amigos, decidindo agora mostrar que Harry Potter cresceu e está preparado para enfrentar seu terrível rival. Foi necessário sacrificar um ano com esse filme que possui claramente desejos comerciais, compensação pelos seus próprios erros e uma preparação para seu segundo ato. Preparação esta que só poderá obter uma opinião totalmente formada depois do término da segunda parte (com data prevista para a metade de julho do próximo ano).

Mas ‘HP7’ não é um filme ruim. Por mais que não esteja a altura do nome que carrega, a produção é tecnicamente impecável, sobre tudo em sua fotografia, onde o português Eduardo Serra acerta literalmente o tom, ao escolher um ambiente absolutamente sombrio, pegajoso e perturbador. Com grandes locações realizadas na Inglaterra, David Yates junto com Serra, consegue aperfeiçoar toda a escuridão com que Harry, Hermione e Ron deverão submeter-se. Alexandre Desplat mostra o que tem de melhor e elabora uma trilha sonora fantástica, igualmente com seu outro trabalho do ano, “O Escritor Fantasma”. Muito bem editado e com filmagens bem realizadas por Yates, a apuração técnica parece continuar firme sua caminhada em busca da perfeição.

Se em sua metade o filme se torna deveras cansativo, percebemos o total domínio da personagem de Hermione sobre seus dois parceiros. Emma Watson é a dona do filme e consegue a todo o momento solucionar, raciocinar e principalmente agir diante de diversas situações, muito graças à atuação da jovem francesa. Daniel Radcliffe que começa muito bem – preste atenção na cena em que vários personagens assumem a forma de Harry, o ator realiza várias adaptações gestuais e de olhar para encorpar todos seus amigos – porém acaba se tornando algo nada especial. Assim como Rupert Grint, mais modesto em relação aos outros filmes.

O ritmo de “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1” acaba apresentando um resultado negativo. Com um trailer e seus minutos iniciais dando impressão de um filme mais ágil e enfim, chegando às vias de fato, apenas observamos uma disposição plana para o grande final. Porém o clima de urgência imposto pela série parece não concordar com uma simples e monótona preparação.
A saga sobrevive por mais um ano e agora não resta dúvidas do que entregar em sua segunda parte. Uma produção que justifique uma década de adoração, não somente para os fãs e que, enfim, faça jus a marca ‘Harry Potter’. Mesmo com todas essas negativas, este é o filme mais completo da saga.

Nota: 7,0

por Filipe Ferraz

4 comentários Adicione o seu

  1. danielmelo disse:

    Ótima crítica. Achei arriscada a idéia de dividir em 2 mas gostei do resultado final. Só espero que a parte 2 seja pra quebrar tudo com muito mais ação. Só discordo da atuação do Rony, achei ele o melhor depois da Emma Watson, os dois roubaram o filme do Radcliffe.

    1. Filipe Ferraz disse:

      Não acho que ele esteja mal, apenas modesto. Isso comparado com as próprias atuações dele nos filmes anteriores.

  2. Achei MUITO melhor que os outros. Filme muito mais denso e definido. Excelente mesmo.

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