O Vencedor (2010)

Grandes atuações e ênfase dramática são os pontos fortes de ‘O Vencedor’


Filmes que retratam ícones, geralmente se apegam a uma fórmula já estabelecida e muito conhecida do grande público. Quando o assunto é esporte, também não temos muitas novidades em sua narrativa, preponderantemente, enfatizando o sucesso, crise, e posteriormente, a redenção desta figura. O peculiar, é notar que apesar de quase sempre apresentarem essas constantes, filmes do gênero, vira e meche acabam tendo êxito, isso, por trazerem o espectador para dentro do filme, que vibra, se irrita, se emociona e claro, vence. “O Vencedor” consegue em vários momentos deixar todo esse passado de lado, conseguindo de certa forma, inovar em sua narrativa, mas também, sem deixar esse lado ‘torcedor’ de fora.

Dicky Ecklund (Christian Bale) é uma lenda do boxe que desperdiçou o seu talento e a sua grande chance. Agora, o seu meio-irmão Micky Ward (Mark Wahlberg) tentará se tornar uma nova esperança de campeão e superar as conquistas de Dicky. Treinado pela família e sem obter sucesso em suas lutas, Micky terá que escolher entre seus familiares e a vontade de ser um verdadeiro campeão. Inspirado em uma emocionante história real onde a maior luta de nossas vidas é a conquista dos nossos próprios sonhos.

‘O Vencedor’ é um filme sobre família, muito mais do que o sucesso do boxeador Micky Ward, os roteiristas Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson se preocupam excessivamente em demonstrar todas as dificuldades que Micky, teoricamente, encontrará se deixar de lado seus familiares. O trio explora também de maneira eficaz, ao contrastar a carreira de seu irmão mais velho, Dicky, que parece ser a figura estática do futuro de seu irmão: Um sucesso sem direção. Dicky, hoje, se vê perdido nas drogas, não conseguindo nem mesmo estabelecer um grau de confiança para as pessoas ao seu redor.
Utilizando uma linha estrutural sem muitas novidades (uma pena), focando-se exclusivamente no personagem de Wahlberg, e depois sim, abrangendo seu irmão, sua mãe e sua nova namorada (Adams), o diretor David O. Russel (“Três Reis”) estabelece a todo o momento uma incrível responsabilidade em enfatizar a dramaticidade de seu longa, tentativa que seria frustrada, não fosse as incríveis atuações de seu elenco.

Produtor e protagonista, Mark Wahlberg, conseguindo uma indicação ao Globo de Ouro deste ano, acaba ofuscado perto de seus parceiros, porém vale ressaltar, que em nenhum momento sua participação se torna comprometedora, o que convenhamos, já é uma grande vitória. Amy Adams (“Dúvida”) recebe um papel pequeno perto de seu talento e desenvoltura, surpreendendo mesmo assim, em alguns momentos isolados conseguindo fazer valer sua indicação aos principais prêmios. Porém é inevitável não mencionar o incrível trabalho que a dupla Christian Bale (“Batman Begins”) e Melissa Leo (“Rio Congelado”) dispõem. Inclusive em uma tomada onde a dupla canta a canção ‘I Started Joke’, conseguimos rapidamente encarar e ao mesmo tempo aceitar todas as vulnerabilidades que estes dois fortes personagens oferecem. Melissa Leo, interpretando a mãe-empresária de seus filhos, age como uma pessoa que, mesmo sabendo instintivamente que seu trabalho não está dando resultados satisfatórios, custa poder aceitar tal constatação. O que não difere muito do personagem de Christian Bale, onde, o ex-boxeador e agora viciado, parece não possuir limites entre o bom senso e profissionalismo, que basicamente, sua figura empreendedora exigiria.
Tendo uma transformação física notável (aliás, esse não é o primeiro trabalho em que nos impressionamos com a incrível variação entre o porte físico de Bale, em “O Operário” Bale perdeu assustadores 28 quilos), o ator britânico, desde as primeiras imagens já surpreendia e causava espantos. Sabendo encarar o lado ‘cômico’, o que na verdade, é seu lado relaxado, Bale entristece de forma poderosa a figura que ainda estava presente nas mentes de Lowell, cidade onde eles moram. O herói de Lowell, agora, chega próximo de ser a vergonha da cidade. O que não deixa de ser uma incrível analogia sobre este mundo incógnito, encaixando-se perfeitamente com a temática que o diretor David O. Russel decide emplacar em seu trabalho.

Deixando a desejar em um roteiro que se preocupa demais com as entrelinhas da família de Ward, esquecendo um pouco um ritmo mais eficiente, “O Vencedor” consegue surpreender por, ainda assim, tirar atuações fantásticas de seu elenco, aprofundando-se de maneira escatológica na figura familiar, e também, exigindo uma total entrega emotiva do telespectador, fundamentalmente graças à dependência entre o drama e as grandes atuações.

Nota: 7,5

por Filipe Ferraz

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