O Discurso do Rei (2010)

Descendo a monarquia britânica de seu pedestal inatingível, o filme de Tom Hooper dialoga sobre a avaliação à qual os seres-humanos estão sempre sujeitos


A busca pelo autocontrole, a exigência, o julgamento e a dedicação, acompanham o Príncipe Albert (Colin Firth) durante a sua jornada de ascensão ao trono da Inglaterra em “O Discurso do Rei”, novo filme do britânico Tom Hooper (dono de uma filmografia em suma televisiva). Tratando das relações de superioridade e cobrança entre os seres-humanos, a obra expõe a dimensão que um pequeno problema de dicção, como a gagueira, assume quando afeta a voz que representa uma nação. Um empecilho que para um ser-humano comum já é prejudicial à sua expressão, para um rei se torna um atestado de vulnerabilidade política.

Albert vive uma vida de cobranças e deferência contestada. Filho do rei George V (Michael Gambon) e irmão mais novo de Edward VIII (Guy Pearce), o príncipe carrega por toda a sua vida uma disfunção vocal que o impede de adquirir o respeito de sua nação e de sua família.  Depois de passar pelos fonoaudiólogos mais famosos de Londres, o protagonista beira a desistência. Em uma última tentativa, sua esposa (Helena Bonham Carter) procura Dr. Lionel Logue (Geofrey Rush), um especialista famoso por sua ortodoxia e métodos não convencionais. Com a morte de seu pai, e a abdicação do seu irmão, Albert é coroado rei da Inglaterra o que o obriga a guiar a sua nação às vésperas de uma época de esperanças abaladas: a Segunda Guerra Mundial.

O filme, com roteiro de David Seidler, se desenvolve de maneira certa e sem cenas despropositais. Repare que até mesmo sequências que poderiam engrandecer os olhos do espectador, como a da coroação em Westminster, são cortadas. Em contrapartida, a essência e importância narrativa da cena (cruciais) são todas exploradas no ensaio que a precede.  Ponto positivo para o roteirista, que procura se ater aquilo que realmente contribui de forma significativa para o desenvolvimento da trama.

Colin Firth interpreta de forma magnífica toda a contida necessidade de reconhecimento do seu personagem. É incrível observar a capacidade de envolvimento do ator com o problema do protagonista. Firth, através de feições desaminadas, contenção induzida e irritabilidade constante, consegue com que o público entenda a desesperança e orgulho ferido do príncipe. Geofrey Rush, por sua vez ao representar um personagem totalmente oposto ao protagonista, passa com elegância a amistosa e experiente alma de Dr. Logue. Helena Bonham Carter, no papel da rainha Elizabeth I, entrega altruísmo à sua personagem, sem para isso perder toda a fleuma inerente ao tipo que representa. Outros pontos de destaque no elenco são as participações especiais de renomadas estrelas britânicas como Derek Jacobi, o adulador Arcebispo Cosmo Lang; Michael Gambon , que faz do rei George V uma presença forte na película; Claire Bloom como a Rainha Mary; e o character actor Timothy Spall que nos apresenta uma versão fiel do astucioso Winston Churchill.

Mergulhada na difusão de cores característica do impressionismo, a direção de arte se estabelece. A névoa sempre presente e os tons mortos da paisagem londrina dão ao filme todo o ar de insalubridade do século de transformações no qual ele se passa e fazem lembrar – aqui não sei se propositalmente – as pinturas do britânico William Turner. A fotografia de Danny Cohen, brinca com a simetria nos seus enquadramentos. Se em alguns momentos essa última é milimétricamente construída, em outros é inexistente. As cenas de diálogo de Logue com Bertie (nome pelo qual o especialista passa a chamar o seu paciente), com cortes rápidos que ajudam na fluência e dinâmica, possuem enquadramentos não convencionais.  Os dois personagens se apresentam nos extremos cantos da tela, com espaços exorbitantes aos seus lados. A provável intenção desse artifício estético, que vai parando até ser substituído por closes no fim da projeção, é representar o desconforto inicial do rei consigo mesmo e na sua relação com o fonoaudiólogo. Lidando com o pré-conceito desses dois personagens díspares, a sequência que também possui enquadramentos totalmente simétricos atesta que não há diferença entre aqueles dois homens. Eles estão dispostos da mesma maneira, respiram o mesmo ar. Não existe relação de superioridade entre eles, pelo menos não dentro do consultório. Algo que Logue defende desde o primeiro momento, ao decidir chamar o seu paciente de Bertie, apelido que o rei recebe carinhosamente da sua família. A química entre Rush e Firth se dá desde o primeiro encontro e flui de forma soberba pela narrativa.

O constante uso do plano contra-picado, principalmente na cena do pronunciamento de Albert ao assumir a coroa, enfatiza sua insegurança e receio com relação ao julgamento que recebe dos olhos do parlamento (e dos seus antepassados nos quadros, com destaque para a Rainha Vitória de cara virada) ao não conseguir pronunciar uma sentença inteira sem titubear.  As sucessivas consultas com Dr. Logue, de cunho quase psicoterapêuticas, exercem um trabalho triplo ao fazerem com que o protagonista, o mentor e o espectador entendam as origens e motivos do problema de Albert. A brilhante sequência em que o rei assiste acidentalmente com sua família a um discurso de Adolf Hitler ilustra com delicadeza o intuito moral da trama. Afinal, do que adianta belíssimos discursos se possuem caráter e prática hediondos?

Pequenos detalhes do roteiro, também ajudam a definir a submissão de Albert, a ser vencida no terceiro ato. O hábito de fumar nos momentos de desconforto, que é desaprovado por Logue (repare que depois da primeira vez que é chamado a atenção, o personagem só fuma novamente no momento em que discute e rompe a amizade com o confidente); o fato de Albert ser canhoto e de ter sido obrigado a vida inteira pelo pai a agir e desenvolver habilidades destras (analogia simples ao problema de voz); e a história do Pinguim que Albert conta para as filhas no primeiro ato da fita. Agindo como uma metáfora de sua própria vida, a pequena fábula expõe o medo de Albert de perder o carinho daqueles que ama em troca do descrédito da população que governa.

Alexandre Desplat, que a cada ano vem marcando presença no Oscar, compõe uma trilha sonora simplista e com base no piano. A trilha casa perfeitamente com a película em todos os seus momentos, sejam estes de caráter cômico ou dramático.

Por último, é necessário destacar o clímax da película que demonstra toda a autoridade do diretor em administrar uma sequência, que embalada pelas notas de Beethoven figurantes de forte expressão facial e valor fotográfico grandioso, sintetiza todo o sentimento de um país assolado pelo medo da iminente guerra.  Hooper consegue resolver de forma fabulosa e definitiva o missbehavior de seu protagonista.

Alavancando doze indicações ao Oscar, O Discurso do Rei é um filme que coloca em voga o atestado de capacidade das pessoas. A exposição constante de todos os seres humanos à avaliação dos outros. Se num momento vemos Bertie sendo julgado pelo povo que governa, em outro vemos Lionel sendo criticado pela trupe de teatro em que pretende encenar. Provando que independentemente da posição social, todos somos sempre testados.  O filme cumpre a sua premissa e vai além. Ao tratar de um problema que, a princípio, pode parecer simples, analisa socialmente a capacidade de autoestima e controle dos indivíduos.

Nota: 9,0

por Gabriel Meyohas

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