Bravura Indômita (2010)

Escolhas a princípio irrelevantes acabam amenizando todo o grande impacto da nova produção dos irmãos Coen


O mais novo filme dos irmãos Coen é também uns de seus maiores sucessos comerciais. Líder de bilheteria e nomeado a dez estatuetas no Oscar, Bravura Indômita é uma releitura do filme de mesmo nome, do ano de 1969. Filme esse, que rendeu o Oscar de Melhor Ator para John Wayne. Recentemente, os irmãos Coen declararam jamais terem assistido esta versão original, se baseando único e exclusivamente no romance ‘True Grit’ de 1968, escrito por Charles Portis.
Claramente tentando reerguer um gênero que anda esquecido, os diretores Ethan Coen e Joel Coen conseguem estruturar um ‘Velho Oeste’ altamente crível, inalando fundamentos que ajudaram a imortalizar John Wayne, Clint Eastwood e companhia: Uma trilha sonora marcante, um clima leve e um ritmo todo específico para os filmes ‘westerns’. Imaginem o impacto que Bravura Indômita conseguiria alcançar, ao relembrar e colocar em evidencia este gênero esquecido. Em partes, a dupla Coen consegue atingir tal objetivo, entretanto, alguma escolhas, que a princípio possam ser dadas como irrelevantes, acabam prejudicando boa parte de sua força.

Quando o pai da jovem de quatorze anos Mattie Ross (Hailee Steinfeld) é baleado a sangue frio pelo covarde Tom Chaney (Josh Brolin), ela segue determinada a trazê-lo á justiça. Com a ajuda do bêbado delegado Rooster Cogburn (Jeff Bridges), ela parte – apesar das objeções dele – para caçar Chaney. O sangue derramado de seu pai faz com que ela tenha que perseguir o criminoso em território indígena e encontrá-lo antes que um patrulheiro texano, chamado LeBoeuf (Matt Damon), capture-o e o leve de volta ao Texas pelo assassinato de outro homem.

Por mais que os pontos negativos terão aqui uma ênfase maior, vale ressaltar, que tal escolha é com o intuito de mostrar, ou melhor, tentar explicar o tesouro que os irmãos Coen poderiam formular, não fosse alguns erros.
Primeiramente, e surpreendentemente, encontramos Jeff Bridges como o principal ponto falho de Bravura Indômita. Vindo ainda na sombra da atuação que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator, Bridges parece não ter trocado seu personagem de Bad Blake em Coração Louco, lembrando a todo o momento os trejeitos do cantor country. Grunhidos, a voz rouca, um andar cambaleante, todos os artifícios que fizeram Bridges ganhar o reconhecimento da Academia são aqui repetidos de maneira, infelizmente, caricatural.
Porém, Bridges não deve ter a culpa toda jogada apenas em suas costas, o roteiro dos próprios irmãos Coen, estabelece primordialmente que, por mais que o gênero de tal película seja o faroeste, a dramaticidade de seus personagens será a grande válvula de Bravura Indômita. É neste ponto que a dupla vai mal, ao não conseguir entrelaçar de maneira bem elencada o convívio entre o trio principal, mais especificamente, os personagens de Steinfeld e Bridges, isso, muito está ligado aos fracos diálogos que acabam reduzindo o ritmo do filme, e proporcionalmente, o interesse do espectador. Percebemos encontrar alguns resquícios de grandes arpejos dramáticos como no relacionamento quase de pai-filha que Steinfeld estabelece com Bridges, ou também, no relacionamento irmã-irmão com Matt Damon, porém, esses pequenos trejeitos acabam não conseguindo concretizar o poder dramático que Bravura Indômita necessitava, já que afinal, os irmãos Coen decidem harmonizar um ritmo datado ao seu filme, o que, como já relatado anteriormente, seria uma escolha acertada ou no máximo, de resultados poucos influentes no resultado final. Infelizmente, o que acabou acontecendo foi que essa estrutura dramática, acaba tendo poucos momentos realmente impactantes e emocionantes, sendo destes ‘poucos’ momentos, a fantástica seqüência final da película.
Então, além de ajudar a caricaturar o personagem de Bridges; elaborar diálogos pouco inspirados, os irmãos Coen ainda insistem em deixar sua marca, ao acrescentar leves pitadas de humor negro e cenas cômicas, o que também, soam artificiais e praticamente, com o único intuito de receber o ‘Selo Coen’.

Mas seria cruel, deixar de lado os pontos positivos de Bravura Indômita, que não são poucos e ajudam para que, estes equívocos, não ameacem completamente sua notável qualidade. A dupla Jess Gonchor e Nancy Haigh realizam uma direção de arte sublime, estilizando este Velho Oeste com extrema dedicação e perfeccionismo. O mesmo acontece com a magistral fotografia de Roger Deakins, explorando ao máximo o clima ‘árido’ em seus painéis e por horas, circulando seus personagens principais com uma áurea esbranquiçada.
Carter Burwell (Onde Vivem os Monstros) nos entrega uma trilha fantástica, que alinha-se perfeitamente (não fosse os problemas já relatados) com a dramaticidade do longa. Pianos e corais são acompanhados por grandes partituras entusiasmantes (todo o momento em que Hailee Stenfield ‘triunfa’ e consegue atravessar o rio, só tem seu efeito, graças à incrível trilha) ajudam a Burwell elaborar um trabalho primoroso.

Completando o elenco, encontramos a real protagonista, Hailee Steinfield, até então, completamente desconhecida, que consegue apresentar uma atuação fantástica. Em um trabalho minimalista, onde, detalhes, como um leve sorriso ou um ligeiro desvio de olhar, engrandecem a atuação da garota de apenas quatorze anos. A sutileza e alegria com que Hailee relata quando foi caçar guaxinim com seu pai, dando claras amostras do quão saudável era o relacionamento com seu pai, contrastando então de maneira totalmente orgânica com a figura potente que a garota apresenta, parecendo não se intimidar facilmente.
Josh Brolin (Milk – A Voz da Igualdade) fica pouco tempo em tela, sendo praticamente desperdiçado. Matt Damon (Invictus), como sempre, mantém sua incrível regularidade em sempre entregar atuações altamente eficazes, sendo ele, um dos maiores êxitos do longa.

Em seu término, Bravura Indômita deixa claro que sua técnica refinada, engrandecida pela revelação Hailee Stenfield, esbarram em erros de sua dupla de diretores. Lembrando-se de outra produção da dupla (Onde os Fracos Não têm Vez), faltou então, um espírito de caçada tão presente e amedrontador como o do vencedor do Oscar de quatro anos atrás, ou então, prendendo-se ao gênero, fosse comparável ao irregular, porém eficiente nesse quesito, Butch Cassidy. Ethan e Joel Coen tentam reerguer o espírito Faroeste. Daremos essa missão como válida, já que, somente em escutar novamente a palavra ‘western’, já é um alívio para adoradores do gênero.

Nota: 7,0

por Filipe Ferraz

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