2010, Cinema, Críticas

Bravura Indômita (2010)

Os Coen pisam num terreno menos excêntrico e mais tradicionalista nessa bem sucedida homenagem que traz consigo a revitalização do gênero western


Quando Clint Eastwood dirigiu e protagonizou Os Indomáveis, belíssima homenagem ao seu padrinho Sergio Leone, parecia que o gênero western se firmaria novamente nos cinemas com todo o seu brilhantismo e popularidade. Porém, a escassez dos anos seguintes fez com que os fãs do gênero trocassem as estreias da tela grande pelos clássicos nas prateleiras. Ver faroeste se tornou algo nostálgico, era reviver um gênero sem representantes atuais. Os diretores e roteiristas Joel e Ethan Coen, que em Onde os Fracos Não Têm Vez adaptaram a estrutura do gênero para a atualidade, dessa vez pisam pra valer, com seu Bravura Indômita, no terreno que consagrou John Ford.

A nova adaptação do livro de Charles Portis é fiel à estrutura que sempre constituiu o cinema “bang-bang”. Desde a vingança familiar e o caçador de recompensas com passado obscuro até as paisagens deslumbrantes e a trilha de pianos com violino. Todos são presentes. Um destaque especial, aliás, para essa última. Carter Burnwell faz um magnífico trabalho de composição sonora no filme. Recuperando todo o espírito das trilhas de faroeste, cujo maior representante é ninguém menos que Ennio Morricone, o compositor conquista seu lugar. No tema principal Wicked flee, Burnwell consolida todo o otimismo e persistência da jovem Mattie Ross em busca da honra seu pai. Isso tudo sem deixar de lado a decadência e depressão de uma cidade negligenciada pela lei.

No roteiro de Bravura, os Coen tornam menos evidente o humor ácido pelo qual são conhecidos, mas mantém os diálogos rápidos, inusitados e saborosos (vide a cena da negociação dos pôneis) que usaram com excelência em Queime Depois de Ler e Um Homem Sério. A fotografia de Roger Deakins (Dúvida, Um Sonho de Liberdade) expressa alto conhecimento de técnica e pitadas bem dosadas de ousadia. A cena de apresentação de Rooster Cogburn (Jeff Bridges) no tribunal é um exemplo. O fotógrafo utiliza o artifício da apresentação fracionada do personagem, deixando o espectador curioso sobre o tipo que virá a conhecer. Ainda com belíssimos travellings e planos gerais, bastante usados, Deakins consegue imergir totalmente o espectador na natureza selvagem retratada. As sucessivas sequências de diálogo entre Rooster e Mattie e as mudanças de clima (neve, sol) passam o desgaste e desolação dos protagonistas viajando com poucas esperanças de êxito em seu objetivo.

Jeff Bridges e Haille Steinfeld, aliás, disputam a atenção do público com interpretações cativantes e convincentes desde o primeiro momento. Mesmo representando o mesmo tipo bêbado, grosseiro e bom coração – que lhe rendeu o Oscar por Coração Louco – Bridges se sai bem, e consegue a singularidade. O alcoolismo de Cogburn é vivenciado de maneira sublime pelo ator, que em cenas com a da disputa de tiro ao alvo, arranca risos constrangidos do público.  A revelação de Haille Steinfeld é o ponto alto. A jovem atriz representa com clareza a determinação de Mattie. Às vezes totalmente determinada a encarar o mundo como adulta, outras caindo na armadilha de voltar a ser a menina que vivenciava momentos de alegria com o seu pai,  Steinfeld esboça os sentimentos da personagem através do jeito que expressa suas falas. O personagem de Matt Damon, por outro lado, talvez pudesse ser mais explorado pelo roteiro. Suas constantes aparições e sumiços o tornam inverossímil e seus propósitos não convencem. A atuação de Damon, no entanto, é coerente. Josh Brolin, por sua vez, não apresenta o porte de um vilão de western, e nem deveria. A acertada escolha dos roteiristas em torna-lo um sujeito vulnerável e inexperiente dá ainda mais credibilidade para o projeto. O papel de vilão arquetípico – com pendências antigas a acertar com o protagonista – fica nas mãos da ótima escolha Barry Pepper, que tem bons momentos na projeção com seu caricato Lucky Ned. Porém, a falta de um vilão propriamente amedrontador (nenhum dos dois cumprem esse papel) esbarra no ritmo do filme, que acaba por não transmitir toda a ameaça presente no terreno desbravado pelos protagonistas.

Mesmo tendo sido indicado para Melhor Filme do ano, Bravura Indômita dificilmente levará a estatueta dourada. Porém, sua proposta bem concebida foi um grande passo na revitalização de um gênero há muito abandonado. O novo filme dos Irmãos Coen é uma nobre homenagem que abre o caminho para novas produções que queiram retratar a velha guerra pela honra no tempo das diligências.

Nota: 8,0

por Gabriel Meyohas

2 comentários em “Bravura Indômita (2010)”

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