127 Horas (2010)

A entrega total de James Franco ao personagem é o arco condutor da nova produção de Danny Boyle


O alpinista Aron Ralston, de 28 anos, saiu para escalar na região de canyons de Utah, no dia 23 de abril de 2003 e passou por um teste de sobrevivência que conta em seu livro “Between a Rock and a Hard Place”. Coube ao diretor Danny Boyle (Quem quer ser um Milionário) traduzir essa intensa história de superação para a tela.

Filmes de sobrevivência costumam construir – mais do que qualquer outro gênero – uma relação sólida e verossímil protagonista-espectador. Assim, a dor, o pânico, os dramas, os sacrifícios, tudo que acontece com um, reflete com alta intensidade emocional no outro. Um dos méritos de 127 horas é justamente esse. James Franco faz o seu Aron Ralston com uma naturalidade impressionante. O ator, ao controlar a câmera portátil ou ao esboçar risos e berros insaciáveis de adrenalina, é responsável por passar todo o prazer de seu personagem em se expor ao risco. É possível notar que Ralston gosta daquilo, ele curte a adrenalina de um modo intenso. Uma cena interessante que reflete esse comportamento é aquela em que depois de preso na fenda em que passará os próximos dias, Aaron acerta o seu relógio. Ele muda de cronômetros para horas, plano que simboliza com eficiência sua despreocupação e desvalorização com o tempo. Algo que ele vai sentir na pele, durante o segundo e terceiro ato da projeção.

A montagem de John Harris é outro êxito do projeto. Com uso incessante do Split-screen, principalmente nos créditos iniciais, somos apresentados a referências análogas dos conceitos de competição e individualidade. O espírito aventureiro e descomedido do protagonista é bem ilustrado. Porém, é provável que perguntas como “o porque de  tanta motivação” surjam ao fim da sessão. Tais tipos de pergunta deveriam ser respondidos pelo roteiro, que deixa de lado a explicação do que constitui o protagonista e parte para o psicologismo sensorial exacerbado. Se algumas das cenas de alucinação dessem lugar a lembranças mais claras da relação familiar de Ralston, a identificação surtiria muito mais efeito. A redundância de Danny Boyle e Simon Beaufoy também está presente na exploração do conceito de necessidade, principalmente no que diz respeito à água. A partir do primeiro momento em que notamos que o personagem principal deixa a torneira de sua casa pingando, já é possível entender que esta faltará mais tarde. Mas, o diretor insiste em enfatizar isso toda hora. Seja quando a câmera mergulha com Aron em um rio, seja nos primeiríssimos planos dentro da garrafa. Esse segundo ponto, aliás, é uma ideia bem interessante, que, ao ser usada em excesso, acaba por subestimar a capacidade de assimilação do espectador. Assim como os sucessivos e constantes merchandisings ao longo da projeção.

O clímax é outro dos pontos positivos do filme. As inserções sonoras imprevistas e os cortes bem demarcados expressam bem a dor de Aron ao cortar seu braço. Boyle, felizmente, não se rende à escatologia barata com closes sangrentos. Algo que ele não pensa duas vezes em usar na cena da ingestão de urina. A trilha do filme, constituída principalmente de canções, é bem aplicada. Alguns momentos mais silenciosos, no entanto, não fariam mal. É importante deixar o espectador digerir a situação em (uma expressão que não gosto tanto) “tempo real”.

Em seu resultado final, 127 horas consegue emocionar e surpreender. Danny Boyle nos entrega um filme que, longe do desenvolvimento exemplar de Quem quer ser um Milionário, é eficaz e coerente. Mas, ao perceber que a única coisa que Aron Ralston tirou disso tudo foi: “avisar aonde escalaria”, a frustração é iminente.  Não foram apresentados no filme motivos que transmitissem tamanha força desse amor pelas montanhas.

Nota: 7,5

por Gabriel Meyohas

2 comentários Adicione o seu

  1. Achei o filme excelente. Tá certo, a direção do Boyle incomodou um pouco, mas a força da história já é suficiente para ver o filme, sem falar na maravilhosa atuação do James Franco e no excelente trabalho de edição. Eu adorei.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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