Bruna Surfistinha (2011)

Em uma marcante apresentação de Deborah Secco, a polêmica história de Raquel Pacheco chega rodeada por problemas


Entender a escolha de alguém que decide vender seu corpo para sustentar sua família, pode ser um exercício complicado. Só mesmo quem está dentro desse mundo pode opinar de maneira conclusiva. A ex-prostituta Raquel Pacheco, mais conhecida como Bruna Surfistinha, conta agora sua história, desde o primeiro passo para se adentrar nessa vida, até seu ato final. Entretanto, uma narrativa repleta de problemas deixa ainda assim, o tal exercício a qual me referi na primeira linha, sem sanar suas devidas dúvidas.

Baseado na autobiografia, ‘Bruna Surfistinha – O Doce Veneno do Escorpião’ Raquel (Deborah Secco) é uma menina da classe média paulistana que estuda em um colégio tradicional e um dia toma uma decisão surpreendente: vai ser garota de programa. Raquel se torna Bruna Surfistinha que ganha destaque nacional ao contar suas aventuras sexuais e afetivas em seu blog.

Um bom estrategista de guerra, geralmente deixa claro que, para entender melhor seu inimigo, o primeiro passo é entender seu passado. Posto isto em cima da mesa, assimilar sua verdadeira motivação e o que o levou a entrar em uma guerra são figuras essenciais. Sem qualquer analogia com a guerra em si (por favor…), entender a personagem de Raquel Pacheco se tornaria muito mais fácil e coerente, caso o trio de roteiristas Antônia Pellegrino, José de Carvalho e Homero Olivetto explicassem de uma melhor forma, o porquê dela começar a se prostituir. Duas cenas no café da manhã com sua família tornam-se extremamente rasas quanto a um aprofundamento bibliográfico, que possivelmente deveria existir, isso, soma-se também, à terrível situação em que Raquel vai à casa de um colega, e depois de determinada situação, vê sua vida social no colégio ser destruída. Todas estas situações são tratadas de maneira muito distante, o que não colabora para o telespectador, que em geral, queiram ou não, já chega com um ‘pré-conceito’.

O primeiro programa da agora, Bruna Surfistinha, apresenta uma estruturação espetacular, isso, graças ao diretor Marcus Baldini decidir colocar uma narração em off de Deborah Secco, o que serve para cruelmente, deixar claro que agora, aquela será a verdadeira realidade de sua personagem.
Ainda assim, o convívio de Bruna com suas colegas de profissão, torna-se algo muito estereotipado e com conflitos não muito coerentes. Chegando-se então, ao momento em que Bruna passa a trabalhar sozinha, montando finalmente o tão famoso blog, a introdução da personagem de Guta Ruiz e das drogas, são postos de maneira equivocada, servindo ainda mais, para seu decréscimo final.
Você pode se queixar de algumas cenas de sexo, mas é preciso entender, que elas são necessárias, com o princípio de como falado anteriormente, trazer o quanto mais próximo possível, a personagem de Bruna.

A direção em si do estreante Marcus Baldini apresenta um resultado satisfatório, com grandes tomadas (o primeiro programa) e também, em seu plano final. Percebemos também, uma total referencia de filmes como Trainspotting – Sem Limites e Réquiem para um Sonho no instante em que Bruna Surfistinha começa a sentir os efeitos do vício de cocaína.
Porém, um dos principais equívocos do filme, reside em sua inexplicável longa duração de mais de duas horas. Fazendo com que sua narrativa, já repleta de problemas, não consiga se sustentar, servindo apenas, para tais problemas se tornarem mais evidentes à medida com que o desinteresse do público vai aumentando.

A atriz Deborah Secco sim, merece palmas por sua total entrega em Bruna Surfistinha. Primeiramente, por aceitar corajosamente um papel como esse. A polêmica por trás da história de Bruna, somando-se a um eminente pré-conceito e a incrível entrega necessária (Secco chega a ficar completamente nua), devem ser colocadas de maneira justa, como uma das melhores atuações de sua carreira. Encarnando no começo uma garota de 18 anos, Secco decide se acanhar fisicamente, andando sempre ‘pra dentro’, onde mal conseguimos escutar o que a pobre garota fala, dando impressão de sua total fragilidade.
E conseguir chegar a uma completa sensualidade e imponência no segundo ato, agora, não mais a pobre Raquel Pacheco, e sim, a famosa e poderosa Bruna Surfistinha, não teriam seu real efeito, não fosse à apresentação marcante de Deborah Secco.

Apostando excessivamente que somente a grande atuação de Deborah Secco seja capaz de sustentar seu longa, o primeiro trabalho de Marcus Baldini se torna muito inconstante, com uma dramaticidade em muitos momentos rasa e sem conseguir dissolver seus grandes problemas, sobretudo, por sua extensa e inexplicável duração. Não chega a ser uma completa decepção, mas fica claro, que poderia apresentar um resultado mais satisfatório.

Nota: 4,0

por Filipe Ferraz

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