2011, Cinema, Críticas

Rango (2011)

Criativo, espirituoso e bem desenvolvido, Rango é uma aventura marcante e repleta de memoráveis citações


No ano de 2002, quando Shrek recebeu o primeiro Oscar de Melhor Animação, a Academia provavelmente levou em grande consideração – além da sua interessantíssima história e evoluções técnicas – as paródias e citações que trazia. Esse era, sem dúvidas, o grande trunfo do filme que brincou com a cultura pop e zombou do puritanismo, marcando a história do cinema. Obviamente, suas inúmeras continuações caça-níqueis mancharam um pouco esse brilhantismo. Porém, ao terminar de assistir Rango, percebi que o grande misto de qualidades que deu a estatueta a Shrek, se repetiu de forma igualmente louvável no filme de Gore Verbinski. Rango é uma aventura deliciosa que além de nos apresentar personagens marcantes, piadas criativas, citações bem utilizadas (principalmente com respeito à fotografia e à trilha) e trama bem desenvolvida, ainda cria reflexões a respeito da busca pela identidade, da desigualdade e do desperdício.

Com uma publicidade tímida, o faroeste de animais dirigido por Verbinski consegue encantar com um desenvolvimento primoroso de personagens. Apesar do número excessivo, todos são devidamente explorados e cativam o público. Desde o camaleão shakespeariano e destemido que dá título ao filme, até o galo com a flecha atravessada na cabeça, cada um deles apresenta uma personalidade cheia de possibilidades. O resultado são piadas que não caem no lugar-comum e um humor simples que encanta crianças e adultos. Até mesmo o personagem Jake Cascavel, interpretado por Bill Nighy, que surge apenas no terceiro ato da película, consegue fazer com que entendamos suas características e código de conduta. Além de tudo, Rango traz certeiras homenagens aos clássicos ao citar cenas icônicas da filmografia de Sergio Leone, do Apocalipse Now de Copolla e até mesmo do universo espacial de George Lucas, entre inúmeras outras. A fluência natural com que essas citações se dão é ainda mais admirável. Nenhuma delas quebra o ritmo do filme, todas são inseridas de modo sutil e fundamental no desenrolar da trama. É ótimo observar também, a qualidade técnica atingida. Repare no detalhamento das escamas, dos pelos, e no seu contato com o vento e a água. As cores mortas, as roupas puídas e as cicatrizes dos ‘poeirenses’ são extremamente bem sucedidos no trabalho de passar o desgaste emocional e a miséria da cidade. A água, por sua vez, é o mote central do filme. Através dela, questões como a desigualdade, o progresso avassalador das cidades e a discrepância entre as camadas subalternas e o poder, são discutidas. O personagem do prefeito, interpretado em inglês pelo veterano Ned Beaty, funciona como um núcleo de tudo isso, e acaba sendo um dos personagens mais interessantes das animações atuais.

Referências fotográficas claras aos “Fords” e “Leones” estão nos primeiríssimos planos faciais e em cenas como a que Rango caminha por um cemitério. A trilha do experiente Hans Zimmer (que cria um belíssimo e contagiante tema principal) apresenta menções à Ennio Morricone, Richard Wagner e à versão de Misirlou utilizada no Pulp Fiction de Tarantino. Além disso, a batalha aérea no segundo ato da película é magnífica e com certeza já figura como uma das cenas mais extasiantes do ano. O roteiro de John Logan, além de manter o nível satisfatório de outros de seus filmes – como Sweeney Todd ou A Máquina do Tempo – brinca com as propriedades narrativas (conflito, chamada à batalha) em seus diálogos. Repare na busca de Rango por aquilo que dará sentido à sua história. Isso, somado a participação especial do “Espírito do Oeste” no terceiro ato e às menções a ação humana, dão ao filme a seriedade necessária para trazer além de suas piadas, uma análise do comportamento social moderno.

Rango é uma produção cheia de méritos que mesmo surgindo despretensiosa, surpreende com desenvolvimento criativo, revisão e montagem perfeitas e homenagens inseridas com fluidez natural. Além de um ótimo programa que poderá ser usufruído por pais e filhos, a nova produção de Verbinski cria reflexões e critica a utilização descomedida dos recursos naturais.

Nota: 9,0

por Gabriel Meyohas

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