2010, Cinema, Críticas

Cópia Fiel (2010)

Um filme que, muito mais do que assistido, merece ser interpretado


Em certa passagem, o personagem vivido por William Shimell relata que o valor ideal de uma obra depende muito do olhar com que determinada pessoa lhe oferece. Então, em tese, qual seria a diferença entre um quadro original e uma cópia fielmente retratada, onde quando colocadas lado a lado dificilmente conseguirão ser distinguidas? Sendo assim, a única diferença entre o original e sua cópia é o modo com que estes são encarados.
Muito mais do que aplainar sua trama, “Cópia Fiel” entrega um conselho para que ela (a obra) seja apreciada da melhor forma possível.

O diretor Abbas Kiarostami, o mais cultuado do Irã, pela primeira vez dirige um filme fora de sua terra natal. Assinando também o roteiro, Abbas balanceia friamente o aspecto técnico de Copie Conforme com sua visão sobre os relacionamentos e principalmente, a influencia com que a passagem do tempo causa.

O escritor James Miller (William Shimell) está na Itália para a divulgação de seu mais novo livro, Copie Conforme (Cópia Fiel). Depois do término de sua coletiva de imprensa, James aceita o convite de Elle (Juliette Binoche), francesa dona de uma galeria artística, para passear e conhecer a cidade de Toscana. Passando por barzinhos, restaurantes e monumentos históricos, os dois, depois de um engano por parte de uma garçonete que os confundem com um casal, decidem começar a “interpretar” marido e esposa com 15 anos de relacionamento, dando início á um jogo de autoconhecimento e análise de seus pontos de vista sobre a vida.

A primeira característica que salta aos olhos é que o filme possui quase duas horas e sua narrativa também. Ou seja, desde a saída da coletiva de imprensa até o desfecho final, o tempo deste percurso – palavra de grande destaque a todo o momento – caminha juntamente com a cronometragem da película. Então uma simples caminhada – com grandes sequências diretas, sem edição – de duas horas dentro a fora da pequena cidade de Toscana revela-se como uma análise extremamente densa e subjetiva sobre personagens ilustrados pelo “casal” principal.
Impossível também não notar uma grande semelhança, fundamentalmente em sua estrutura, com um dos mais importantes romances das últimas décadas, “Antes do Amanhecer”, valendo a ressalva que Cópia Fiel abrange muito mais a dramaticidade do que o romance existente no filme estrelado por Ethan Hawke e Julie Delpy.

A caminhada “sem destino” consegue atingir de forma intensa o público, principalmente por sua proximidade com a realidade e a forma com que a relação entre os protagonistas é construída. Em quase nenhum momento o relacionamento entre Elle e James é tratado de forma “romântica”, apresentando-se como uma espécie de consulta ao ar livre com um psicólogo, com a difícil e saborosa tarefa em tentar estabelecer quem é o psicólogo, Elle ou James.
Duelo psicológico que só é capaz graças às incríveis atuações de Juliette Binoche e William Shimell. Vencedora do Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por “O Paciente Inglês” (1996) e atual vencedora do Festival de Cannes, Binoche consegue hipnotizar o público olhando diretamente em seus olhos, com sua incrível variação entre alegria e o desespero de suas dificuldades e dúvidas. Simpática e expressando com clareza a completa desestabilidade de sua personagem, Binoche consegue entender a função armazenada nas entrelinhas de Cópia Fiel.

Captadas as grandes simbologias, como no momento em que Elle acompanhada de James dirige seu carro, Abbas faz questão de focalizar por trás do espelho, os rostos dos personagens, em um relato sobre a espécie humana, à única que se esqueceu do grande propósito e sentido da vida: Diversão e prazer. Instantaneamente passando a desviar nosso olhar para o emparelhamento entre ciprestes que beiram a estrada, onde supostamente a dupla deveria observar o embelezamento de tal paisagem. Questionando assim o porquê de ninguém parar e simplesmente observar os arbustos, muito mais belos e singelos que muitas obras cultuadas. Uma incrível metáfora ao esclarecer que tudo depende do ponto vista e de nossa percepção diante de diversas situações.

Esta é só uma das várias interpretações possíveis para o filme. Dificilmente “Cópia Fiel” conseguirá ser explicada e concretizada como uma equação matemática. Sendo esta a prova física do êxito alcançado por parte de Abbas Kiarostami, deixando claro que uma obra de arte deve ser interpretada, apreciada e encarada de forma ímpar e particular.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

texto originalmente publicado em 31 de Outubro de 2010

Um comentário em “Cópia Fiel (2010)”

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