Rio (2011)

Saldanha expõe a beleza e divulga a cultura carioca, numa declaração de amor divertida e carinhosa à sua terra natal


Em momento nenhum da projeção de Rio nova animação do carioca Carlos Saldanha – aparecem flamingos, como apontaram alguns críticos. Os pássaros que certamente geraram essa confusão de assimilação são na verdade pássaros Colhereiros.  A pesquisa do diretor e de sua equipe foi cuidadosa em trazer à tela apenas espécies que habitam o solo nacional, mais precisamente as que habitam a Mata Atlântica. Essa pesquisa permanece assim ao longo do filme, apresentando a essência da capital fluminense com uma visão saudosista e romantizada (e isso não poderia ser diferente, afinal é um filme para crianças).  Rio é uma animação divertidíssima com todos os seus elementos narrativos tradicionais bem amarrados, momentos marcantes e cenários perfeitamente construídos.

A ararinha-azul Blu (Jesse Eisenberg) é um dos últimos da sua espécie e quando pequeno é sequestrado por traficantes, indo parar sem querer no estado de Minnesota. Lá, ele vive durante quinze anos com sua bondosa dona, Linda (Leslie Mann). No entanto o ornitólogo Túlio (Rodrigo Santoro) propõe a Linda que Blu viaje até o Rio de Janeiro para procriar com a ararinha Jade (Anne Hathaway) e assim disseminar a espécie. Na viagem para o Rio, no entanto, Blu se mete em uma enrascada atrás da outra quando é novamente vítima dos contrabandistas de aves. A princípio, a trama do filme não apresenta grandes inovações ao que se vê por aí. É um enredo simples e despretensioso que visa, antes de tudo, divertir. Diferente da profundidade ‘pixariana’ ou do desleixo criativo das últimas animações da Dreamworks, Rio contém um enredo que, apesar de soar trivial, apresenta um leque enorme de tramas paralelas, momentos inusitados e  humor afinado.

O modo como o filme se desenvolve, aliás, lembra muito o jeito Disney de fazer filmes. Inclusive, Saldanha arrisca e acerta ao trazer números musicais para a película. Durante a projeção temos os famosos “Tema de abertura” (que se repete no final) , o “Tema do Vilão”, o “Tema dos Coadjuvantes” e a cena musical de romance, no melhor estilo Kiss the Girl ou A Whole New World. Aliás, algo a se considerar no filme é sua inspirada trilha sonora. O diretor reuniu um grupo de cantores e músicos que possuem um sucesso considerável lá fora, como o aclamado pianista Sergio Mendes, o instrumentalista Carlinhos Brown e a cantora Bebel Gilberto (essa, sumida faz tempo dos palcos brasileiros). A mistura que ainda conta com composições de Will.i.am e interpretações dos ótimos dubladores (algo que também merece aplausos na versão brasileira, onde Guilherme Briggs dá um show como o vilão Nigel) é ainda completa com a trilha incidental de John Powell, que é a cereja do bolo numa playlist muito bem escolhida que vai desde “Samba de Orly” (Chico Buarque e Toquinho) até “Mas que nada” (Jorge Ben Jor).

Muito se comentou dos clichês a respeito da visão que os estrangeiros tem do Rio de Janeiro e se eles seriam usados no filme. E permito-me dizer que isso não acontece. Samba, futebol e carnaval, apesar de muitas pessoas exigirem um “algo mais”, é a essência do Rio de Janeiro. E não é pra menos, afinal, essas três coisas são os pilares que representam a identidade do povo carioca. Diferente dos filmes apontados no interessantíssimo documentário “Olhar Estrangeiro” de Lúcia Murat, Saldanha não colocou hora nenhuma pessoas peladas na praia sambando o tempo inteiro com tucanos nos ombros e entoando cantos de candomblé.  Ele não está mentindo quando coloca as ruas fechadas para o carnaval, o desfile na marquês de Sapucaí ou a importância que uma partida de futebol entre Brasil e Argentina (numa das cenas mais divertidas do filme) tem para os brasileiros. Inclusive, foi além, apresentando as mazelas, e mostrando para o seu público-alvo principal as discrepâncias sociais da cidade. Em um dos planos do filme esse contraponto é ilustrado de maneira soberba. Quando o menino Fernando contempla a favela em que vive e o Rio de Janeiro iluminado e belo lá de baixo, os dois cenários dividem o plano, o que, apesar de belíssimo do ponto de vista estético, apresenta a quebra entre a formação das duas camadas sociais: a cidade e o aglomerado .

O que não dizer também da belíssima fotografia que, com tons quentes, coloridos e harmoniosos, dá a verdadeira sensação de estarmos pisando na areia das praias cariocas ou então dentro da mata quente e úmida. A versão 3D deve aprimorar essa imersão. O visual do filme é algo realmente belíssimo. Seus personagens apresentam uma fluidez natural que encanta e cativa. Principalmente os divertidos saguis que formam uma espécie de máfia indígena. E sim, existem, de fato, saguis andando pelas ruas do Rio de Janeiro.

Todo o cuidado dos diretores de animação em fazer com que cada pena dos personagens se movessem na direção certa do vento, em dar-lhes toda a humanidade necessária e acima de tudo a malemolência do carioca, é louvável. Repare  que, inclusive, suas feições lembram, ainda que de longe, seus dubladores (procure por Rodrigo Santoro). Todo esse brilhantismo visual chega ao ápice na panorâmica inesquecível em que o casal de ararinhas sobrevoa a cidade e circundam o Cristo Redentor. É uma sequência contemplativa e inesquecível, tanto para a animação como um todo, tanto para o povo brasileiro e carioca.

Rio é uma animação com sacadas ótimas, narrativa bem construída e recriação visual arrebatadora. Acima de tudo, é uma homenagem de um brasileiro a um lugar maravilhoso do qual, pelo que aparece, sente imensa saudade.  E isso é ilustrado na última frase do filme onde o personagem Luís grita com todos os seus pulmões a assinatura de Carlos Saldanha: EU AMO O RIO! De fato o diretor ama sua terra natal e mostrou todo esse seu amor nesta divertida e extasiante produção. É inevitável que na saída do cinema alguns espectadores arrisquem uns passinhos de samba.

Nota: 9,0

por Gabriel Meyohas

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