Reencontrando a Felicidade (2010)

A depressiva caminhada de Nicole Kidman e Aaron Eckhart


Desde pequeno, sempre ouvi que uma das maiores obrigações de um filho é enterrar seus pais. E por mais dura e fria que possa parecer esta frase, por trás dela há na verdade um sentimento de entrega mútua entre ambos. Certamente não existe dor pior do que perder um filho, por qualquer que seja o motivo, sendo ele um garoto indefeso de quatro anos ou um viciado de trinta anos que acaba de sofrer uma overdose. A dor é a mesma, dor esta que somente quem convive com ela sabe, ou melhor, tem ao menos uma chance de tentar explicar o inexplicável. Em Reencontrando a Felicidade, Nicole Kidman e Aaron Eckhart tentam a todo custo decifrar de maneira desesperada este sofrimento.

Adaptação da peça de teatro de David Lindsay-Abaire, a trama acompanha a história sobre a vida de um feliz casal, Becca Corbett (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) que entra em crise conjugal após a trágica morte de seu filho pequeno, o que dá início a uma jornada emocional em busca pela felicidade, onde eles devem encarar seus medos, seus problemas e suas angústias, para descobrir se conseguem viver uma vida normal novamente.
Basicamente é isso, não existem grandes alternâncias em sua linha narrativa principal. Um de seus grandes pontos forte é que David Lindsay-Abaire, criador da peça teatral, aqui também trabalha como roteirista do longa e isto faz uma diferença incrível. Sabendo mais do que ninguém dos minimalismos de sua história, Lindsay-Abaire elabora um roteiro espetacular, entregando aos poucos dados do que realmente ocorreu entre o casal Corbett. Com dez minutos de projeção, enxergamos um casal normal, vivendo sua vida tranquilamente, porém aos poucos, vamos identificando que algo grave aconteceu com esta família e que eles fazem de tudo para ‘esconder’ este acontecimento de si mesmo. É assim, de forma gradativa, que Reencontrando a Felicidade vai surgindo cada vez mais denso e dramático, mas nunca apostando em um melodrama excessivo. A produção acerta a não introduzir flashbacks mostrando o acidente com o filho do casal, a narrativa é linear, transcorrendo fluentemente, oito meses depois do acontecimento que mudou a vida do casal.

A direção de John Cameron Mitchell (Hedwig – Rock, Amor e Traição e Shortbus), pode a olho nu, não apresentar grandes tomadas, mas talvez seja este seu grande êxito: Não desviar a atenção para si. Utilizando sempre uma câmera livre, sem muitas preocupações estéticas, Mitchell tenta entregar frieza a situações que poderiam se tornar deveras melodramáticas, como no momento em que a personagem vivida por Nicole Kidman dialoga com Jason (Miles Teller) jovem que atropelou e tirou a vida de seu filho.
O que contribui e muito para essa incrível maturidade de Reencontrando a Felicidade é a simples, e por isso bela, fotografia de Frank G. DeMarco (Shortbus) que não busca dar aqueles brilhos escandalosos que praticamente nos obrigam a lacrimejar, pelo contrário, sua fotografia busca trazer a maior crueza possível para suas tomadas e em ambientes internos, mais precisamente na casa da família Corbett, presenciamos uma fotografia escura e sombria, esfriando drasticamente este ambiente.
A trilha de Anton Sanko (Livrando a Cara) mantendo a regularidade de toda parte técnica, consegue empregar um ritmo adequado, utilizando composições de pianos sem muitos arpejos eletrônicos que destoem de sua base.

E se a parte técnica de Reencontrando a Felicidade faz questão em não trazer o foco para si, encontramos atuaçõesmaravilhosas, que ‘contracenam’ de maneira singela com toda construção milimétrica de suas ambientações. Indicada ao Oscar por este papel, Nicole Kidman, há muito tempo longe de papéis deste porte, apresenta uma atuação digna de sua melhor fase, entregando a Becca uma solidão interna comovente com sua interminável descrença na vida, em Deus e até mesmo no que restou de sua família, ganhando vida (na verdade perdendo) em função de sua destacada atuação.  Emplacando outro grande papel depois do sucesso Batman – O Cavaleiro das Trevas, Aaron Echkart surpreende mais uma vez ao introduzir em seu personagem um aparente amadurecimento e controle desta grave situação, mas que ao mesmo tempo, precisa recorrer a vídeos caseiros que relembrem seu filho.
O desconhecido Miles Teller, mesmo em pouco tempo em cena, demonstra toda inocência e arrependimento de seu personagem, que em uma atitude sem nenhuma intenção, acabou interrompendo a vida de um pobre garoto, além de sua família, e claro, sua própria vida.  Temos ainda no elenco a experiente Dianne Wiest (Tiros na Broadway) e Sandra Oh (Sideways – Entre Umas e Outras) que mais uma vez não desapontam, mantendo um nível elevadíssimo em todo elenco.

Ao abordar um tema delicado, Reencontrando a Felicidade acerta em cheio ao tratá-lo com uma maturidade invejável, não jogando em seu público, lenços de papeis para que ele se debruce em choros copiosos, mas sim, para que ele saiba, ou ao menos projete, o quão difícil é passar situações como essas, que somente à vida pode nos pregar, e principalmente entender esta deprimente caminhada rumo à reabilitação. Você não tem uma via de mão única, você tem sim, em suas mãos, uma simples escolha: Desistir ou lutar.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

2 comentários Adicione o seu

  1. Quero muito ver, esta pode ser a chance de Nicole Kidman retornar ao topo.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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