2010, Cinema, Críticas

Namorados Para Sempre (2010)

Fortes atuações afundadas em fracos personagens.


Apesar de parecer controverso, Namorados Para Sempre é um filme peculiar. Ele consegue entregar durante seus 100 minutos de duração performances de Ryan Gosling e Michelle Williams grandiosas, ao mesmo tempo em que escancara uma fraqueza incalculável em sua narrativa, fazendo assim que estes personagens contrastem diretamente com tais atuações. Novamente sinto que estou me contradizendo, ou seria o diretor do longa, Derek Cianfrance, que parece perdido em meio a seu melancólico namoro azul?
Em momento algum devemos esperar da produção um romance meloso, ou inspirador, como parece relatar sua imbecil tradução nacional e o fato de chegar aos cinemas no fim de semana dos dias dos namorados, uma das coisas mais inexplicáveis que ‘nossas’ distribuidoras nos proporcionam. Obviamente, isso não é culpa da produção original, mas é sempre bom deixar em alerta: Não vá assistir esse filme com seu par, fica a dica…. Falando propriamente do filme, seu grande pecado é abusar excessivamente do maniqueísmos de seu diretor, além de um roteiro que não consegue se estabelecer entre suas duas linhas narrativas.

Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams) são um jovem casal de classe média baixa, – Dean atualmente trabalha como pintor e Cindy trabalha como enfermeira em uma clínica médica. Os dois possuem uma filha, a garotinha Frankie (Faith Wladyka). Apesar de suas idades relativamente baixas, o casal se vê devastado pela vida, graças a suas experiências juntos e com a difícil missão em sustentar durante esses anos o casamento. Detalhe que são pouco mais que seis anos em que ambos estão unidos, já que esta é a idade de sua filha.
Traçando uma linha paralela, observamos o começo deste relacionamento, do abandono de Dean ao ensino médio e sua saída de casa. Ele não pensava em casar, até ver a bela Cindy, que também vem de uma família muito ausente, onde seus pais demonstram um vida extremamente infeliz e rodeada por brigas e discussões. Mostrando desde cedo não ter nenhuma ambição profissional, Dean gosta mesmo é logo às 8 horas da manhã tomar uma cerveja, sem achar que isso prejudique seu trabalho, tais atitudes acabam causando um embate com sua esposa, que acredita, ou pelo menos acreditava, que seu marido possuía um potencial bem maior em sua vida.

O roteiro escrito pelo trio Cami Delavigne, Joey Curtis e pelo próprio Derek Cianfrance, que possuem pouquíssimos e irrelevantes trabalhos em suas carreiras, decide abrir duas linhas paralelas em sua trama, que seriam: A vida conturbada que o casamento de Dean e Cindy vem passando; e o início deste relacionamento, mostrando o encantamento mútuo entre ambos. Analisando previamente, podemos classificar tal escolha como uma ótima opção, entretanto, ao não conseguir entrelaçar estas transições entre o ‘paraíso’ e ‘inferno’ deste casamento, Namorados Para Sempre acaba se perdendo em meio a essa boa alternativa que tinha traçado. Não sabendo envolver completamente o espectador com seus personagens e muito menos com sua história, o diretor Derek Cianfrance insiste em uma direção irritantemente focalizada no rosto de seus personagens, atitude que acaba por sintetizar absolutamente nada. Este artifício não fora utilizado como uma linguagem, apenas usado como uma simples escolha em posicionar sua câmera, o que convenhamos acaba por se tornar uma grande decepção.

Dentre as várias escolhas que os personagens Dean e Cindy aderem, poucas são as vezes em que nos satisfazemos. Obviamente, Blue Valentine ao escolher um drama denso deveria ao menos, entregar personagens ‘densamente’ conturbados, o que de fato, não ocorre. Principalmente a personagem Cindy que, tudo bem, acertadamente é retratada como uma pessoa inconstante, já que ao mesmo tempo em que demonstra uma completa insatisfação com a felicidade de seu marido e sua filha, o que convenhamos, é no mínimo estranho: Como poderia uma mãe ficar ‘brava’ quando pai e filha se divertem? Mas enfim, como também a enxergamos como uma garota até então fechada, mas que do nada começa a cantar na rua…
São nessas escolhas minimalistas, como deixar Dean sem largar o cigarro por um segundo, o que me desculpem, parece uma escolha primária em estereotipar um personagem como ‘um cara sem objetivo na vida’, que o longa vai aos poucos se degradando.

E se Namorados para Sempre é rodeado por erros, não podemos dizer o mesmo de sua dupla de protagonistas, que praticamente fazem milagres e entregam atuações de altíssimo nível. O excelente Ryan Gosling, mais uma vez apresenta uma performance louvável, onde, mesmo tendo em vista os inúmeros problemas que seu personagem lhe oferece, o canadense famoso por estrelar filmes como Diário de Uma Paixão e Half Nelson (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar) poderia certamente aparecer entre os indicados do último Oscar, mas acabou ficando de fora. Quem não ficou de fora foi Michelle Williams, que recebeu sua segunda indicação a premiação, tendo sido anteriormente lembrada por O Segredo de Brokeback Mountain e vale lembrar, que a viúva de Heath Ledger possui grandes chances de dar suas caras novamente no tapete vermelho da academia, já que ela irá viver Marilyn Monroe em My Week With Marilyn… Dona de um carisma notável, mas que aqui ela tem uma difícil missão em esconde-lo, Michelle sabe muito bem externar os sentimentos de sua personagem, apesar de visivelmente as atitudes de Cindy não surtirem coerência alguma.

Sofrendo com uma narrativa ineficaz que acaba por caracterizar seus personagens a principio fortes, como figuras estáticas e imóveis, Namorados Para Sempre se confunde ao tentar realizar um drama denso e reflexivo, ao entregar uma produção chata e sem momentos minimamente marcantes. Observando essa sua inconstância, é com grata surpresa que observamos os sempre excelentes Ryan Gosling e Michelle Williams se sobressaírem, fazendo com que até mesmo tais equívocos se apaguem em função de trabalhos perfeccionistas e exemplares, afinal, extrair uma boa atuação de um personagem nitidamente fraco é uma tarefa para poucos.

Nota: 4,0

por Filipe Ferraz

Um comentário em “Namorados Para Sempre (2010)”

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