Meia Noite em Paris (2011)

Uma Paris absolutamente deslumbrante


Palco de intermináveis artistas, dos mais tímidos até os mais conturbados e extrovertidos, Paris é praticamente considerada, não só um berço cultural, mas também uma válvula de desenvolvimento destas obras. Não à toa, a capital francesa é a cidade com o maior número de museus espalhados por todos os locais, não bastasse à quantidade, a diversidade entre esses centros deixaria qualquer um deslumbrado. Será que em um simples passeio pelas ruas parisienses, o consagrado cineasta Woody Allen abriu sua mente e começou então a refletir sobre qual o real significado destes artistas inerentes a história da cidade? Alguma coisa, lá no fundo, despertou uma ânsia em explorar os deliciosos contos da verdadeira década de ouro de Paris, que agora, apenas sobrevive na memória destes inúmeros museus.

Mudaram os tempos, a cultura não é mais a mesma, o encantamento hoje, se resume a pérolas, móveis caríssimos e uma vida estabelecida no padrão ‘certo de ser’, aquela mesma onde uma aventura é deixada de lado caso uma oportunidade financeira irrecusável esteja muito próxima, onde nem mesmo um maravilhoso cenário consegue inspirar, apaixonar ou ao menos ser visto da maneira com que deve ser encarado. O presente, ah o presente, esse que pouco nos interessa, pouco nos encanta; nascemos na época errada, onde tudo tem seu devido valor… Valor esse financeiro, nada mais.
E no passado? Aquelas figuras lendárias como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald que enxergaram luz nestes maravilhosos ambientes… Não pode ser uma mera coincidência, alguma magia deve estar escondida em algum beco, bar ou vinhedo de Paris. Estas figuras do passado que preencheram a história da cidade morreram há muito tempo, porém entre o soar da meia noite, esta história simplesmente não pode ser deixada de lado.

Gil (Owen Wilson) é um roteirista de cinema que encontra na bela Paris uma motivação para conseguir terminar um livro que está escrevendo. Ele está noivo da bela e requintada Inez (Rachel McAdams), que não demonstra nenhuma vontade de estar nesta viagem, preocupando-se apenas com sua futura casaem Malibu. Nãobastasse isso, Inez não consegue entender a incrível fixação de seu futuro marido pela capital francesa, que tenta convencê-la a todo o momento que depois do casamento, lá deveria ser sua nova moradia. O escritor ainda começa a se sentir incomodado com a aparição do intelectual e antigo amigo de Inez, Paul (Michael Sheen). É então que em certa noite quando Gil se recusa a dançar com seus ‘novos amigos’ e decide caminhar pelas ruas parisienses que tudo muda… São nestas caminhadas que ele acaba conhecendo um ‘submundo’ da Cidade da Luz, praticamente ofuscado a vista dos mais céticos.

Escrito pelo próprio Woody Allen, Meia Noite em Paris logo procura estabelecer seus personagens como figuras palpáveis, utilizando moldes bem simples e por isso, eficientes. Owen Wilson que chega a impressionar tamanha sua semelhança com Woody Allen (em seu timbre de voz principalmente) logo se mostra um homem totalmente encantado com Paris e em busca de novos desafios. Mesmo sendo um roteirista de relativo sucesso, por algum motivo, Gil decide escrever um romance, detalhe, de um homem que trabalha numa loja retrô… Com essa simples introdução, Woody Allen já nos abre um leque imenso das características deste personagem. Dessa mesma forma, Allen acerta ao contrapor esse lirismo parisiense de Gil com a frieza norte americana de Inez, interpretada pela sempre elegante Rachel McAdams. Preocupando-se exclusivamente com os preparativos de seu casamento, e em certo momento do longa, dizendo que viajou a Paris apenas para ficar próximo de seu pai que está trabalhando, Inez se mostra uma pessoa completamente desinteressada com os inúmeros atrativos desta viagem, atitude essa que repentinamente muda, ao encontrar um velho colega de faculdade, o intelectual Paul, vivido espetacularmente por Michael Sheen. É assim, nesta construção ponderada e utilizando recursos dramáticos que nos faça olhar com simpatia apenas com os olhos de Owen Wilson, que Woody Allen arma o grande enredo desta sua sinfonia cinematográfica. E este enredo é…. Recuso-me completamente a dizer qualquer palavra que possa remeter a grande obra de arte surpreendente de Meia Noite em Paris. Encontramos, é verdade, pequenos erros, como quando Woody Allen tenta ‘racionalizar’ a surrealidade que acontece em tela, mas isso não chega a ser uma mancha, apenas um pingo de tinta que cai nesta maravilhosa obra.

Utilizando sempre tomadas maravilhosas, Woody Allen logo com cinco minutos de projeção já nos faz passear por Paris, assim é de extremo valor notar o cuidado do diretor ao retratar a cidade como um local que parece não pertencer a este mundo, isso muito graças a sua primeira parceria com o diretor de fotografia Darius Khondji (Seven – Os Sete Crimes Capitais) que consegue utilizar uma palheta de cores alegres e rústicas, contornando assim este belo cenário de maneira encantadora.  E se existe algo que conduz juntamente a produção, é a magistral trilha sonora com canções de Cole Porter, Enoch Light and the Light Brigade, Jospéhine Baker e Sidney Bechet, estabelecendo uma conexão tão forte, mas tão forte com o público, que apesar de, provavelmente, jamais terem escutado nenhuma destas canções, sai fascinado e familiarizado com elas.
Elenco formidável, estrelado de maneira impecável por Owen Wilson; situado artisticamente de forma intelectual por Michael Sheen; ponderado de qualquer fantasia pela frieza de Rachel McAdams; encantando qualquer ser humano com a beleza de Marion Cotillard; guiados pontualmente pela primeira dama da França Carla Bruni; e finalmente, nos rinocerontes de Adrien Brody… Todos se encaixam perfeitamente em suas devidas funções.

Quem nunca se pegou olhando determinada foto e lembrou: ‘Como era bom esse tempo’. Era mesmo? A nostalgia é de fato, um dos sentimentos mais extremados do ser humano, então quando olhamos para figuras do passado, sejam do nosso cotidiano ou não, parece quase impossível não se imaginar vivenciando estas décadas distantes. Com esta sua mais nova obra-prima, Woody Allen nos deixa a mensagem de que não importa em qual época vivemos, sempre iremos querer escapar desta nossa vida. Mas entre uma vantagem e outra, acabaríamos se fosse possível racionalizar, entendendo que a vida no presente é nossa única saída, ficar preso ao passado, por mais que a primeira vista saboroso, nos deixaria sem direção para continuar caminhando. O trabalho de uma pessoa, seja ela um artista ou não, jamais é sucumbir ao desespero, e sim, encontrar um antídoto para o vazio de sua existência.
Em uma fantasiosa aventura sob a deslumbrante Paris de Woody Allen, vamos a cada passo e descoberta de Owen Wilson entendendo mais sobre a verdadeira poesia escondida por de baixo deste solo praticamente sagrado. Como essa cidade pode ser tão mágica? De lacrimejar de tamanha beleza, o soar lírico de Meia Noite em Paris é desde já, uma das maiores obras de artes que Paris já produziu.

Nota: 10,0

por Filipe Ferraz

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s