2011, Cinema, Críticas

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011)

Um final digno


Não sou fã de Harry Potter. Acredito que acima de tudo isso deve ficar bem claro logo de início. Questões como ‘É fiel ao livro’ ou se deixa passagens importantes de fora não serão discutidas, afinal, não só para quem não leu, mas até mesmo para quem acompanhou a obra de Rowling, tais justificativas devem sempre ser relevadas. Uma adaptação não deve (e nem consegue) ser milimetricamente idêntica a sua obra original, são linguagens completamente diferentes, então o que deve ser mantido? Sua essência.
Foram quatorze anos de Harry Potter, dez deles destinados ao cinema. Foi então tempo de erros e acertos para todos os lados, afinal, nenhuma obra consegue se sustentar firmemente em oito produções, quanto muito com quatro diretores diferentes, ou seja, quatro visões distintas. Harry Potter e As Relíquias da Morte: Parte 2 praticamente condessa toda essa sua trajetória em 125 minutos de projeção, não deixando então de ser um final digno, pro bem e para o mal, a todos seus filmes antecessores

No roteiro escrito novamente por Steve Kloves (presente em sete dos oito filmes) podemos rapidamente observar uma divisão em duas narrativas; primeiro Harry Potter (Daniel Radcliffe) em busca das horcruxes restantes, e segundo, Lord Voldemort (Ralph Fiennes) descobrindo que seu adversário sabe deste seu segredo, passando a persegui-lo. Fato é que essas duas linhas pouco interagem (na verdade nem deveriam estar separadas) servindo apenas para trazer um distanciamento anormal do público em diversos momentos. O diretor David Yates não consegue então, na procura de Harry as horcurxes, manter um ritmo de urgência necessário. O cineasta até busca técnicas diferentes para manter sempre o interesse do público elevado, notem, por exemplo, como Daniel Radcliffe sempre aparece do lado direito da tela, algo que como já comprovado cientificamente serve para ‘aguçar’ a vista e direcionar o olhar para o que acontece em cena; Yates até chega a utilizar, em uma conversa de Harry, Hermione e Ron, uma câmera girando em 360º, uma técnica muito semelhante a que Nolan utiliza em um fantástico diálogo de Christian Bale, Gary Oldman e Aaron Eckhart em The Dark Knghit, porém logo percebemos as limitações de David Yates que infelizmente não consegue entregar arcos convincentes nestas passagens, tirando o ar de suspense necessário e que condissesse com a situação desesperadora dos bruxos de Hogwarts.
Eu pelo menos pensava: ‘Ora, já não ficamos duas horas e meia procurando as horcruxes? Será mesmo necessário mais uma hora de filme?’. E a resposta foi ‘Sim’, já que as horcruxes são importantíssimas para a trama, porém essa procura deveria ser dosada de forma melhor, seja pela diminuição destas cenas, ou a mais ponderável hipótese, entregando este tal ritmo adequado. Deixando claro, o que incomoda não é o fato de procurá-las, mas sim a forma com que esse ato é executado. O que serve para aliviar essa ‘insuficiência rítmica’ é sem dúvida o drama, que como pudemos observar em Harry Potter e As Relíquias da Morte: Parte 1, não foi deixado de lado.

Porém se Yates é conservador nos momentos ‘investigativos’, coloquemos assim, não podemos dizer o mesmo das cenas que as contrapõe, onde o diretor não economiza em viagens frenéticas, que finalmente chegam a lembrar uma batalha épica. Utilizando de forma assustadoramente orgânica os efeitos visuais, como na grande barreira formada em torno de Hogwarts, Harry Potter acrescenta inúmeros inimigos diferentes (gigantes, dragões…) para que as cenas de batalha se tornem convincentes e empolgantes. Eduardo Serra acerta também, ao conceber uma fotografia sempre acinzentada, também fazendo questão ao enfatizar quando Voldemort não ‘assombra’ Harry, deixando-a sempre mais amena. A direção artística mantém o nível das obras anteriores, tendo um apuro impecável ao estilizar Hogwarts como um lugar totalmente diferente do que nos acostumamos, assim como na angustiante floresta do encontro de Harry e Voldemort. Será complicado que finalmente Harry Potter não seja premiado com uma estatueta nesse quesito, indicado pelo menos, quase certeza…
Alguns leves incômodos: O clímax certamente poderia tem um impacto maior, assim como os últimos tapes da produção, onde a equipe de maquiagem/efeitos visuais poderia ter caprichado mais para trazer certa fidelidade à passagem de tempo para determinados personagens.

Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint possuem boas deixas para darem continuidade à dramaticidade que seus personagens adentraram na primeira parte, dando mais uma amostra da grande evolução do trio principal… Mas sem dúvida devemos a mais justa homenagem a Severos Snape, interpretado brilhantemente por Alan Rickman, que tendo em mãos o personagem mais complexo e ambíguo da franquia, não se resume apenas a sua fala sempre pausada, agora também a um olhar sempre seguro, mas que no fundo deixa transparecer uma grande e amarga repreensão. Sem o mesmo destaque que os quatro mencionados acima, mas que certamente não devem deixar de ser lembrados: Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Maggie Smith, John Hurt e Jim Broadbent.
Sendo assim, é com imensa surpresa que notamos uma preocupação gigantesca de Yates para que o drama dos personagens jamais seja posto de lado, isso de forma bem crua, sem apostar em mortes melodramáticas, tendo como auxiliar nesta escolha ‘pés nos chão’ Alexandre Deslat, que acerta ao mesclar a trilha sonora da produção com o tema criado por John Williams em A Pedra Filosofal e suas próprias composições em Harry Potter e As Relíquias da Morte: Parte 1.
Este certamente será o ponto que dividirá mais opiniões, já que praticamente todas as mortes são bem simples e pouco emocionantes, inclusive ‘aquela’ morte… Saber sempre se manter sereno e não tentar abrilhantar excessivamente esta triste batalha, para muitos será o grande acerto de Harry Poter 7.2, e para outros o grande pecado.

O que começou como uma série infantil em 2001, hoje, se encerra como a maior franquia de todos os tempos (em quantidade) e um estouro comercial incalculável. Por esses dias, certamente virão à tona discussões sobre qual a influencia da saga Potter para o cinema, será ela, uma nova tendência para futuras produções? Já que praticamente todas as produções de fantasia acabavam indubitavelmente comparadas à obra de Peter Jackson, o longa conseguiu sair da tão apavorante sombra de Senhor dos Anéis? Quando as Crônicas de Nárnia estreou, não foi comparado com a trilogia dos Anéis (e olha que havia motivos pelo o envolvimento de Tolkien e Lewis), foi sim comparado com Harry Potter… O recente Percy Jackson e O Ladrão de Raios foi um fracasso de crítica, e quase todas faziam uma analogia com Potter… Ou seja, mesmo antes de seu término a indústria já vem digerindo esta influencia potteriana. E talvez a pergunta mais dolorosa: Para os fãs, o que resta a fazer, já que todos estes amigos encontrados em Hogwarts se foram?

Balanceando-se então em grandes acertos, mas também erros que poderiam ser evitados, Harry Potter e As Relíquias da Morte: Parte 2 nada mais é que um retrato fiel destes dez anos de trajetória. Mesmo não sendo fã, é impossível negar a importância da saga para o cinema, se não artisticamente, mas sem dúvidas comercialmente e na incrível devoção de seus adoradores. Harry trouxe inúmeros fãs mundo afora para os cinemas, fóruns de discussão na internet, e principalmente, arrastou quem gostou dos filmes (principalmente crianças), para a livraria mais próxima com a possibilidade de também saborear este incrível mundo criado por J. K. Rowling, agora na folha de papel. Quantos não ficaram esperando sua carta de Hogwarts? Quantos não sonharam, certamente um dia, pelo menos um dia, em ter uma aula de bruxaria; aprender a jogar quadribol, criar dragões e se aventurar pelos arredores da fabulosa escola? É assim, que mexendo drasticamente com o imaginário e fanatismo de milhões de pessoas, que, queiram ou não, Harry Potter cravou sua importância dentro da sétima arte.
E como vai ser bom, quando daqui a uns anos perguntarem sobre aquele bruxinho com os óculos engraçados, poder dizer que pude presenciá-lo e ir crescendo juntamente com a série. Melhor ainda, ter participado desta mágica história.

Nota: 7,5

por Filipe Ferraz

3 comentários em “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011)”

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