Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2 (2011)

Épico, extasiante e sensível. A série Harry Potter termina com chave de ouro


“Esse menino será famoso, não haverá uma criança em nosso mundo que não saiba o seu nome.”
A frase dita pela professora Minerva McGonagall (Maggie Smith) em A Pedra filosofal pontuou o principal aspecto da saga de Harry Potter: seu sucesso mundial e sua legião de fãs que, através dos anos, ajudaram a transformar a saga do bruxinho num fenômeno literário e cinematográfico. A história escrita pela britânica J.K. Rowling, levada às telas por diversos diretores em oito filmes, une qualidade e popularidade. Harry Potter já se tornou, desde o seu primeiro exemplar, um marco.  Durante dez anos, testemunhamos a evolução do trio protagonista e dos demais personagens, da mesma forma que nos surpreendemos com os complexos arcos trilhados por eles. Desde Pedra até o oitavo filme que chega essa semana aos cinemas, é possível observar um amadurecimento significativo de trama, abordagens e roteiro. É em Relíquias da Morte: Parte 2, novamente dirigido por David Yates, que nos despedimos do jovem bruxo. O oitavo capítulo traz o fim da série que marcou a história de uma geração.

Relíquias da Morte: Parte 2 traz Harry buscando o resto de horcruxes remanescentes com a missão de destruí-las para derrotar de uma vez por todas seu nemesis Lorde Voldemort e o domínio tirano que exerce no mundo. Ao comparar o primeiro filme com o último, é possível observar uma mudança significativa até mesmo nas cores e ambientações. Comecemos por esse aspecto. O design de arte e seu desempenho sempre magnífico cria em Relíquias 2, (junto com a fotografia de Eduardo Serra) o clima desesperançoso da supremacia de Voldemort e seus seguidores. Logo nos primeiros segundos de filme, vemos aquela Hogwarts (outrora acolhedora e dourada) transformada num lugar inóspito, cinzento, cheio de frieza e governado sob a repreensão de seu novo e ambíguo diretor. Os alunos e professores dessa obscura versão da escola são envoltos no medo constante da morte, algo que é naturalmente possível comparar com o ambiente ditatorial dos países totalitaristas da europa durante a Segunda Guerra Mundial.

O trio de bruxinhos fecha coesamente a trajetória que iniciou no primeiro filme. O Harry (Radcliff) pequeno e curioso de antes, agora é um homem que enfrenta a morte todos os dias; o Ron (Grint) que servia de alívio cômico, se torna uma versão adulta e comprometida da lealdade que demonstrou no jogo de xadrez do primeiro ano; e a literata eloquente Hermione (Watson) se torna uma mulher perspicaz apta a resolver problemas cada vez mais importantes e a dar espaço para as proposições de seus colegas, reconhecendo a inteligência dos mesmos (a sala precisa).

E ao falar dos personagens, não poderia deixar de dar o destaque à Alan Rickman e ao Snape que criou e solidificou ao longo dos anos. O exato Snape idealizado por J.K.Rowling. Sua sublime atuação rouba a cena em todos os filmes da saga e nesse último é fortalecida pela magnífica sequência em que vemos sua história (seu ponto mais sublime), suas motivações e a verdade sobre o seu caráter. Sua fala pausada e expressão de natureza incógnita ajudam na construção de uma personalidade complexa. Outro ponto a ser ressaltado nos personagens criados pela britânica é sua riqueza de ambiguidade e fuga de maniqueísmo (a não ser o vilão Voldemort que é o próprio mal encarnado). Se por um lado Dumbledore nos foi sempre apresentado como um ser imaculado, respostas de seu passado entregues nesse desfecho nos mostram que até mesmo o sábio bruxo tinha suas ambições e momentos de profundo egoísmo. Ele era um ser humano, como qualquer um de nós.

O filme é um clímax, e como tal, pouco tempo se há para respirar. Mas existem sim os momentos de calma e contemplação. Um ponto a se destacar no roteiro de Steve Kloves é a manutenção da coerência dos filmes anteriores e sua tentativa detalhista de não deixar que nenhuma ponta fique solta, ou que nenhuma resposta fique sem esclarecimento (como a cena do espelho). Isso é algo que ele cumpre bem. Logo, pegando como exemplo cenas como a da conversa de Harry com Dumbledore na Estação King Cross ou a sequência das lembranças de Snape, é possível perceber o comprometimento dos realizadores do filme em retribuir a fidelidade dos fãs, lhes entregando um filme que é exatamente aquilo que J.K. escreveu.

A batalha esperada por todos que acompanharam a saga de Harry até aqui, está lá e de forma exuberante com todo o clima de decisão necessário. Sofremos por ver aquele belíssimo lugar (cheio de pores-do-sol, diabretes, salões e doces) destruído por uma guerra e assolado pelo sacrifício de seus habitantes. Professores e funcionários cuja maior preocupação outrora era os alunos que estavam fora de suas camas à noite. E se a cativante Maggie Smith nos emociona com a sua decidida e protetora Profa. McGonagall, o que não dizer de Julie Walters e sua Molly Weasley que no momento de maior necessidade parte na defesa de sua filha, numa das cenas mais esperadas pelos fãs e mais emocionantes do filme.

Além dos astros já citados, outro ponto interessante desse volume final, é a participação de velhos conhecidos do público (como os professores e alunos de Hogwarts apresentados em outros anos). Jim Broadbent, John Hurt, Emma Thompson, David Bradley, Miriam Margolyes, todos estão de volta em participações pequenas porém significativas. Trazer todos novamente é um aspecto importante para mostrar o comprometimento daqueles personagens que fizeram parte da vida de Harry, em estarem do seu lado no momento em que ele mais precisa.

O antes atrapalhado Neville (Matthew Lewis), mostra suas garras na defesa ao seu amigo e à escola que sempre estudou, protagonizando muitas das cenas mais gloriosas do filme. Sem falar no Voldemort interpretado pelo brilhante Ralph Fiennes que jamais beira o piegas e soa completamente imprevisível com seus ataques de loucura e excitação (Avada Kedavras são lançados aqui e acolá sem a menor restrição). Profundos acessos de medo são constantes e começamos a perceber que o inatingível vilão possui sim as suas fraquezas. Além do mais, sua incessante tentativa em reafirmar aos seus subordinados que é alguém que “não precisa de ajuda” ou “é o único que pode viver para sempre” nos mostra mais uma vez a fidelidade do filme com a obra de Rowling e a natureza de suas personagens.

O confronto final entre Harry e Voldemort é mais extenso do que aquele mostrado no livro e isso foi uma opção correta tomada pelo diretor David Yates. Todos esperaram muito tempo por esse momento decisivo, e é muito plausível que ele seja estendido e passe pela escola de Hogwarts em seus diferentes ambientes (agora destruídos).

Para concluir, o filme apresenta o epílogo de maneira sintetizada e ainda assim satisfatória. Alexandre Desplat conduz a película com uma trilha essencialmente contemplativa de melodias hora pessimistas (Lilly’s theme), hora otimistas (Statues). A decisão acertada de apresentar as composições de John Williams durante o desfecho e créditos finais mostra que David Yates entendeu perfeitamente o espírito nostálgico proposto por J.K. Rowling, quando esta escreveu o seu “dezenove anos depois”. O momento derradeiro em que, ao som da belíssima “Harry’s Wondrous World”, embarcamos pela última vez no Expresso de Hogwarts com destino a novas aventuras, traz a mesma sensação que sentimos quando embarcamos com Harry em 2001 num mundo de descobertas cheio de sapos de chocolate, fantasmas, escadas que mudam, chapéus seletores, pomos de ouro e vira-tempos. É um fim com gostinho de recomeço.

Obrigado J.K. Rowling, Yates e todos os outros diretores pela magnífica obra que em conjunto trouxeram e deixaram em nossos corações. Harry Potter marcou para sempre o seu lugar no cinema e na literatura. E tem o benefício de sempre poder ser revisitado por nós outras vezes, assim como ser apresentado para nossas gerações futuras. No que depender desse que vos escreve, podem ter certeza que será. Afinal, como disse a própria Rowling em recente discurso: “Hogwarts estará sempre de portas abertas, para aqueles que quiserem voltar.”.
Veja a despedida do elenco de Harry Potter clicando aqui

Nota: 10,0

por Gabriel Meyohas

4 comentários Adicione o seu

  1. Gabriel, sou novato no site e ainda não tinha lido nenhuma de suas críticas.
    Como cinéfilo e visitante habitual de sites de cinema, sinto falta de análises completas e bem escritas com essa que acabei de ler.
    Fiquei realmente bastante impressionado com sua análise de H.P 7.2 – uma das melhores que vi na net -.
    Agora o CineMMaster já virou favorito e voltarei a visitar sempre.

    Parabéns!

    Renato Tavares.

    1. Obrigado Renato! É sempre gratificante receber esse tipo de comentário..

  2. Realmente, ótima critica. Faz jus a tudo o que o filme significa aos fãs. Belissimo desfecho para uma belissima saga, desde já, uma das maiores do cinema.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

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