2011, Cinema, Críticas

Super 8 (2011)

Clássico instantâneo


Um grupo de colegas, crianças, que por mais banal que possa parecer, sempre conseguem encontrar uma aventura pelos arredores do bairro. Esse grupo, como sempre, é formado pelo mandão, o desajeitado, o espalhafatoso e também pelo mais tímido. Não será complicado você encaixar essa descrição em inúmeras produções que figuravam por boa parte dos anos 80 nas telinhas, não será difícil também, você se sentir simplesmente tocado por essa ligação, seja pela simples nostalgia, ou pelo fato que transforma Super 8 em um grande filme: Realizar praticamente o mesmo papel que estas produções exerceram em seu tempo.
Grande parte do êxito que, por exemplo, Os Goonies apresentava, era sem dúvida a incrível química que seus personagens centrais nos entregavam, sempre divertidos e com um ar aventuresco que exalava inocência. E realizar um paralelo com o filme de Richard Donner não chega a ser um absurdo, não só pelo fato daquele, em meados da década de oitenta, possuir um argumento de Spielberg (produtor deste aqui), como também pela simples dinâmica entre o grupo de amigos.

A trama se passa no verão de 1979, quando um grupo de seis garotos, em uma cidade industrial de Ohio, testemunha uma catastrófica colisão noturna de um caminhão com um trem de carga. Eles registram tudo com a câmera Super-8 com a qual estavam tentando fazer um filme. Não tarda para que eles comecem a desconfiar que aquilo não foi um acidente, quando misteriosos desaparecimentos começam a acontecer e o exército tenta encobrir a verdade – algo muito mais terrível do que eles poderiam imaginar.

Como todo bom filme oitentista, é na direção de J.J. Abrams; que sempre terá ligado ao seu nome o termo ‘O criador de Lost’, mas que já vem demonstrando seu valor também no cinema, no ótimo Missão Impossível III e no espetacular recomeço da franquia Star Trek; que encontramos travelings estilizados, fundamentos característicos de produções que tentam exercer e distribuir uma visibilidade do público para o entorno do grupo principal. Não à toa, essa escolha de Abrams se mostra logo no começo, acertada, já que não apenas queremos apalpar o relacionamento das figuras centrais, como também sentir o que realmente está acontecendo com a população afetada pelos recentes acontecimentos, ou seja, todo esse clima de urgência e catástrofe que envolve a pequena cidade de Lillian.
Coordenada por Larry Fong (Watchmen), a fotografia, também busca referencias nos clássicos de oitenta, dando assim ao visual do longa um tom sempre esbranquiçado, que serve, fundamentalmente, para trazer um tom lúdico para as passagens, que certamente nos remetem a uma nostalgia. Não só nesses momentos, como também nos fantásticos travelings de Abrams, Larry Fong acrescenta ainda flashes com um tom azulado que parecem querer saltar da tela de cinema, uma ‘marca’ de Abrams que ele já havia realizado em Star Trek, e se no começo possa parecer apenas um exercício de estilo, futuramente demonstra ter sua função narrativa (plano final).

O roteiro escrito pelo próprio Abrams se preocupa logo de início a desenvolver seus personagens primeiramente que a trama em si, atitude essa mais uma vez acertada. Ao tentar rapidamente estabelecer que seus personagens se tornem figuras dimensionais, Super 8 consegue dar então, sustentação para que a trama alienígena seja desenvolvida de maneira controlada. Sendo assim, mesmo determinados erros como a falha tentativa em ‘humanizar’ os alienígenas, que se em fitas como E.T. fazem total sentido, aqui acabam surtindo um efeito pouco coerente, Abrams consegue equilibrar de maneira ponderada a dinâmica entre situações dramáticas que envolvem os personagens centrais, como ainda, acrescentar inúmeras referências ufólogas, como a tão famosa ‘ligação psíquica’ de Contatos Imediatos de Terceiro Grau e o próprio E.T., ou também dar ênfase ao papel do governo (no caso a Força Aérea norte-americana) em tentar camuflar esses eventos misteriosos.

Tendo então de melhor seus personagens, somos apresentados a Joe, interpretado brilhantemente pelo desconhecido Joel Courtney, que consegue entregar em sua performance elementos bem minimalistas, como por exemplo, no momento em que determinado colega relata que seu pai trabalhava na fábrica com sua falecida mãe, e o ator, depositando suas emoções apenas em seu olhar, consegue demonstrar o quão amargurado ele está por dentro. E se Joel consegue se sair excelente, o que poderíamos dizer da fabulosa Elle Fanning, que depois de impressionar em Um Lugar Qualquer consegue se firmar de maneira extraordinária como uma das maiores promessas de sua geração (ao lado de Chloe Moretz e Saoirse Ronan). Tratada anteriormente como a ‘irmã de Dakota Fanning’, Elle, pegando apenas esse dois trabalhos como exemplo, já demonstrou ter um talento precioso. Percebam a incrível desenvoltura da atriz de apenas treze anos em uma conversa reveladora com Joe, onde ambos assistem a uma gravação familiar…
Não somente sua dupla principal, mas todo o elenco consegue se sustentar de maneira eficiente, dentre eles vale o destaque para o ‘diretor’ mandão Riley Griffiths; o delegado e pai de Joe, Kyle Chandler (King Kong); vivendo o pai de Alice, Ron Eldard; e até mesmo Noah Emmerich, que apesar de receber um personagem mal desenvolvido, consegue se sair bem.

Elaborada por Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras), grande parceiro de Abrams, a trilha sonora exerce outro grande papel na trama, que além de obviamente nos remeter a grandes clássicos do gênero, consegue coordenar todo o filme, depositando em inúmeras situações um grande teor dramático, assim como trilhar um caminho da aventura de Joe e companhia. Giacchino, sabendo da dificuldade em criar um tema marcante, não tem medo em abraçar as melodias do mestre John Williams que acaba servindo como base para seu trabalho, o incrível é que mesmo assim, Giacchino consegue fugir desta sombra, criando então uma identidade para o longa. Encontramos uma ótima direção de arte que recria com extrema seriedade a década de setenta, tanto em tomadas externas, como também em um simples plano pelo quarto de Joe, onde pequenos detalhes como os cartazes de Halloween, Star Wars e os inúmeros bonecos, conseguem mensurar quais são as características deste personagem. Os efeitos visuais, mesmo que o alien em si seja pouco interessante e nada inspirado, consegue criar um acidente de trem absolutamente fantástico, casando-se perfeitamente com a incrível edição sonora assustadoramente real, que somente engrandecem o valor cinematográfico da produção.

Exercendo a mesma função que produções como E.T. e Os Goonies, principalmente para o público infanto-juvenil, Super 8 consegue fugir de figurar apenas como uma simples homenagem, tendo o grande êxito em criar uma identidade própria, depositando uma força dramática, muito em função das grandíssimas atuações de Joel e Fanning, e também sabendo dosar o tom de aventura necessário. Não á toa, a produção deverá ganhar rapidamente o gosto do público, podendo certamente daqui a alguns anos (ou agora mesmo) ganhar o rótulo de ‘Clássico’, fato que em si, já é um grande mérito. Misturando referencias que vão desde Conta Comigo até Contatos Imediatos de Terceiro Grau, J.J. Abrams novamente demonstra seu valor, entregando um presente, não só a seu mestre Steven Spielberg, como também, para todos que comprarem um ingresso e viajarem até a década de oitenta com essa, com o perdão do trocadilho, super aventura.

Nota: 9,0

por Filipe Ferraz

3 comentários em “Super 8 (2011)”

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