2011, Cinema, Críticas

Planeta dos Macacos: A Origem (2011)

Evolução diante os olhos


Uma das principais características que um filme pode carregar contigo é o fato de jamais envelhecer, ou seja, permanecer intacto ao tempo, tendo como seu único ‘defeito’ o aspecto tecnológico da época. O ano é 1968 e já podemos observar duras críticas à forma humana de controlar o mundo, e se uma frase pudesse condensar o espetacular Planeta dos Macacos da década de 60, seria ‘O Homem é o presságio da morte’. Vejam bem, estamos falando de uma época onde o filme provavelmente tenha chegado a circuito como um ato anti-Guerra Fria, mas ainda hoje, diversas situações permanecem atemporais. O final apoteótico que marcou a história do cinema; a maquiagem vencedora de um Oscar honorário; a imponência do magnífico Charlton Heston, dentre outras coisas, sintetizam ainda mais a força dos macacos que escravizaram os seres humanos.
Em uma empreitada corajosa, o desconhecido diretor Rupert Wyatt foi escolhido pela Fox para dar continuidade, ou melhor, o início da história da ascensão de Cesar e seus comandados em Planeta dos Macacos: A Origem. E o resultado não poderia ser melhor…

Na trama, James Franco vive um jovem cientista, o empenhado Will Rodman, que se torna figura central na cisão entre homens e macacos. Ambientado nos dias atuaisem São Francisco, Rodman trabalha em um laboratório onde são realizadas experiências com macacos. Ele está amplamente interessado em descobrir novos medicamentos para a cura do mal de Alzheimer, uma dificuldade que tem que presenciar todo dia, já que seu pai, Charles (John Lithgow), sofre da doença. Após um desastre na apresentação de seu projeto, graças à fuga de um dos macacos, causando vários estragos, sua pesquisa é cancelada. Will acaba levando para casa um filhote de macaco, cobaia do laboratório. Recebendo o nome de Cesar, o filhote demonstra ter uma inteligência fora do comum, já que recebeu geneticamente os remédios (chamado ALZ-112) aplicados em sua mãe, desenvolvidos por Rodman. É então que em um ataque a um vizinho, Cesar acaba sendo capturado e afastado de seus ‘familiares’.

Reeditando uma parceria com o diretor Rupert Wyatt, os roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver (Olho por Olho) buscam sustentar a trama do filme depositando na convivência entre Cesar e a personagem de James Franco o ponto principal para desenvolver a narrativa do filme. Sendo assim, o roteiro busca logo se posicionar de maneira bem eloqüente, trazendo um claro tom de contraste com a visão trazida pelo o longa de 68, onde macacos e homens, jamais poderiam viver juntamente. Então o que transforma essa ‘distorção’ tão eficiente é a preocupação em mostrar que na verdade, o personagem de Franco é uma pura exceção, já que se na produção de 68 observávamos homens como ‘seres inferiores’, aqui quem ganha esse adjetivo são os macacos. O roteiro ainda vai além, ao simplesmente ignorar as ridículas continuações que surgiram após o sucesso do filme dirigido por Franklin J. Schaffner, e por mais que isso possa parecer uma atitude errada, não deixa de ser uma adequação lingüística que aquelas quatro continuações e o terrível remake de Tim Burton, fizeram o favor de banalizar, mas chega a reservar algumas citações ao filme de 68, quando um jornal aponta em sua manchete: ‘Nave Perdida’, uma clara referência a viagem do personagem de Charles Heston no primeiro longa. Hoje, o nome Planeta dos Macacos vem muito ligado a um tom debochante, vítima da exploração máxima em cima do sucesso de um único filme, algo semelhante, por exemplo, ao que ocorreu com a ‘franquia’ A Hora do Pesadelo.
Porém se observamos grandiosos momentos em relação à interação entre macaco e homem, representados por Cesar e James Franco, encontramos um fraco, mesmo que não prejudicial à narrativa, desenvolvimento da ‘interação’ homem-homem. Se por um lado conseguimos nos envolver com as dificuldades encontradas por Franco e seu pai, vivido excepcionalmente por John Lithgow, o romance com Freida Pinto (Quem Quer Ser um Milionário?), e os personagens estereotipados de Tom Felton (Harry Potter) e David Oyelowo (Fora de Rumo) jamais soam convincentes.

Sendo um filme que depois de conseguir graças a seu roteiro organizar uma narrativa eficiente, necessita inteiramente de seus efeitos visuais, Planeta dos Macacos: A Origem consegue quebrar barreiras técnicas, e em parceria com a Weta Digital, empresa de Peter Jackson, entrega o personagem ficcional mais próximo possível do real. Vivido – e sem nenhum medo de usar esse termo – por Andy Serkins, que agora acrescenta a seu currículo outro papel desse tipo (Gollum e King Kong), a Weta Digital consegue um avanço na captura de movimentos, ao disponibilizar uma experiência única, onde Serkins, em uma atuação absolutamente esplendorosa, utiliza seus olhos como ferramenta emocional conclusiva, fato que até então era um impasse da captura de movimentos. Não só desenvolvendo a expressão facial do símio Cesar, mas como também sua estruturação corporal, os efeitos da produção surgem orgânicos ao extremo, inclusive nas belíssimas cenas de ação (ponte), onde de fato, já podemos classificar como uma vitória praticamente certa no Oscar dessa categoria.

Na função de interligar esses dois fatores importantíssimos (efeitos e roteiro) o diretor Rupert Wyatt consegue assumir conscientemente seu papel, não tentando se sobressair dos demais, mas ainda assim, desenvolvendo tomadas eficientes, como por exemplo, ao focalizar o rosto de Cesar constantemente, fato que obviamente, só é capaz de atingir o resultado esperado graças à tecnologia utilizada, e tendo também um papel fundamental na melhor cena do filme (‘Não!!’) ao direcionar sua câmera de baixo para cima, na função de demonstrar a ‘superioridade do herói’ da produção. Destaque também para a fotografia de Andrew Lesnie, responsável pelo trabalho em Senhor dos Anéis; e também a eficiente trilha sonora de Patrick Doyle (Thor).

Se não chega a impactar como sua produção original, Planeta dos Macacos: A Origem consegue passar uma borracha nesta história quase destruída com suas infindáveis continuações. Mais do que isso, se aproxima da qualidade do longa de 68 e exerce também uma mesma função de blockbuster. Aliando uma tecnologia magistral a Andy Serkin, capazes de darem a vida a Cesar, Planeta dos Macacos ganha mais uma chance no cinema, e dentre as várias metáforas sobre a arrogância do homem em querer controlar tudo ao seu redor, a produção não só trata com maestria a evolução dos símios que dominaram o mundo, como também, dá um passo a frente nos quesitos tecnológicos ao qual se propõe.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

Um comentário em “Planeta dos Macacos: A Origem (2011)”

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