2011, Cinema, Críticas

A Árvore da Vida (2011)

Malick mostra, indaga, reflete e contempla a existência


O ser humano é a única criatura do planeta que é ciente de sua existência.  É o único ser que, ciente de sua longevidade, age por algo mais do que só o simples instinto primitivo. Da mesma forma que esse tipo de evolução gera laços de afeto envoltos em circunstâncias mais fortes, também gera o oportunismo, que apesar de estar embutido em nosso gene (Richard Dawkins expõe sobre isso em O Gene Egoísta) não é fundamental à sobrevivência. E aí esbarramos em mais uma das propriedades particularmente humanas: o livre-arbítrio. O poder de escolher que atitude tomar. Obviamente regras e desregras para isso não faltam e eu teria que embarcar aqui em algo muito mais vasto do que aquele que era o meu propósito inicial: analisar o filme A Árvore da Vida. E eu vos digo, que tarefa difícil! Primeiro, porque Árvore , ao meu ver, é um filme que transcende julgamentos. É tão amplo em sua proposta e tão sujeito aos mais diversos tipos de interpretação que simplesmente dize-lo ser bom ou ruim o reduziria. A Árvore da Vida é uma reflexão, é uma análise sobre a existência, às vezes em recortes mais largos (a história do planeta), às vezes em recortes mais específicos (a vida de uma família) e a partir daí é que enxergamos a nossa passividade e pouca importância diante de algo muito maior, de algo que demorou bilhões de anos para estar desse jeito. Afinal, o que são bilhões de anos comparados aos poucos milhares da espécie humana?.

A pergunta que nos vêm a cabeça e que nos volta ao longo do filme é: que lado Malick tomou? Ele justifica a existência a partir de algum conceito divino? Ele se apoia na pura e categórica ciência? Ao meu ver (e aqui enfatizo bem isso, pois haverão milhares de pontos de vista) nem um nem outro. A função de Malick e sua intervenção no filme é parecida com a do espectador. O diretor senta e observa a vida acontecer. E um reflexo disso é a incrível cena em que um bebê de uns dois anos se defronta pela primeira vez com uma outra criança recém-nascida. A reação do pequeno, impossível de se “blefar” artisticamente, demonstra um extremo cuidado do diretor em dar injeções constantes de realidade a sua obra. A cena se torna um enxerto documental no filme.

A partir de uma narrativa fragmentada, somos apresentados à vida e sua grandiosidade, que não necessariamente está nas coisas grandes, mas sim em todos os lugares. Desde o grão de areia da praia, até um gigante meteoro. Das explosões solares ao pé de um bebê. A fotografia cumpre o papel de nos entregar planos à altura de clássicos como 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Koyaanisqatsi. E eu arrisco dizer que qualquer plano ficaria belíssimo como uma pintura em qualquer sala de estar.

O roteiro monta um paralelo com as nossas sensações reais. A infância de cada um de nós é feita de sensações, de cheiros, cores, músicas, sabores, pequenos flashes. E quanto menores somos, mais rápidos são esses flashes em nossas lembranças. Assim, ficam apenas aqueles momentos, que quando éramos crianças, nos marcaram de forma significativa. A menina prendendo o cabelo, o pai tocando piano (note como a música de Bach atravessa diversas cenas, o que mostra sua presença na infância de Jack), um homem sendo preso na cidade. Mais brilhante ainda é ver Mellick trazer a tela questões que poderiam passar batidas, mas que por envolverem a formulação dos paradigmas humanos, não ficam de fora. Assim é incrível observar a sociedade patriarcal americana e as primeiras insinuações de uma contestação feminina. Também, são precisas as colocações do diretor com respeito ao caráter humano e a falta de respeito dele com os seus semelhantes terrestres. Se no início do filme um dinossauro predador deixa de se alimentar do dinossauro ferido, por esse não lhe oferecer um desafio à altura, em seguida vemos as crianças matando uma rã ao coloca-la num pequeno foguete caseiro, sem hesitarem. É esse contraste tão incidente que faz de Árvore da Vida um material fílmico de constante observação e reflexão, cheio de tomas-lá-da-cá. A atuação consternada de Brad Pitt (a cada dia se consagrando mais como um grande ator), a novata Jessica Chastain – que mesmo sendo uma personagem submissa rouba a cena quando aparece – e as crianças lideradas pelo promissor Hunter McCracken representam com clareza os altos e baixos de uma família humana. Família contextualizada num país em guerra e cheio de militarismo.

O minimalista Alexandre Desplat dá mais uma vez os acordes certos para embalar essa magnífica história. E se existem algumas poucas restrições de minha parte quanto ao filme elas estão em seu final (um pouco piegas ao meu ver) e ao descaso com Sean Penn que poderia ter sido melhor aproveitado, e não ser apenas o resultado de uma fotografia e cenários opressores. O homem moderno atordoado pela sociedade caótica, poderia ter mais falas que deixassem mostrar seus sentimentos. O silêncio é correto em outras cenas do filme, mas aqui fica enfadonho.

Mas A Árvore da Vida é um filme livre. Ele possui uma premissa tão vasta e propensa à discussões que é muito difícil ser categórico dessa vez. O filme é a mais pura expressão artística e se Terrence Malick ao longo da narrativa, por vezes, esquece do tempo, nós também somos convidados a esquecê-lo e a viajar na história da nossa existência e daquilo que forma o que somos hoje. É só entendendo o nosso passado e suas motivações que podemos construir um presente melhor.

Nota: 10,0

por Gabriel Meyohas

Um comentário em “A Árvore da Vida (2011)”

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