2011, Cinema, Críticas

Não Tenha Medo do Escuro (2011)

Remake encabeçado sob os holofotes de Guillermo Del Toro não consegue empolgar


Baseado na produção de mesmo nome, Don’t be Afraid of The Dark, o cineasta Guillermo Del Toro, sempre tendo envolvido ao seu nome um grande brilhantismo, decide revitalizar a obra televisiva do longínquo ano de 1973. O longa original, dirigido por John Newland (de séries como Police Woman e Alcoa Presents: One Step Beyond), teve seu devido sucesso na época, porém apenas como uma obra feita para televisão, ou seja, que exigia um grau menor de seus realizadores. Sempre adepto a esse estilo lingüístico que busca ‘interar’ o publico infantil com paisagens conturbadas, Del Toro apresenta, com toda sua pompa, esse apenas mediano Não Tenha Medo do Escuro.

Logo em seu início já acompanhamos em uma grandiosa mansão, o renomado pintor Lord Blackwood, em seu porão, raptando sua empregada e a sangue frio, arrancando com um martelo os dentes da senhora. Após a sangrenta remoção, Blackwood os oferece as misteriosas criaturas que se escondem em um depósito de cinzas de uma antiga lareira. O Lord que implorava pelo retorno de seu filho, aparentemente raptado, acaba sendo arrastado para baixo por estas criaturas. Já nos dias atuais, acompanhamos a garota de oito anos, Sally (Bailee Madison) que passa a viver com seu pai, Alex (Guy Pearce) e sua namorada Kim (Katie Holmes), onde ambos estão trabalhando arduamente para restaurar a mansão de Blackwood. Com problemas emocionais, a deprimida Sally passa a escutar vozes estranhas que a convidam para ‘brincar’, e o que no princípio parece algo inocente, acaba conturbando a vida de todos que moram na mansão.

Uma das coisas que mais me impressionam é como ao mencionar o nome de Guillermo Del Toro, tenho a nítida impressão que tratamos de um verdadeiro gênio dentro do cinema. O que, convenhamos, o mesmo está longe desse patamar. E aqui, certamente, a crítica nem é diretamente para Del Toro, mas sim para sua supervalorização. O cineasta até apareceu com trabalhos notáveis como Mutação e Cronos, mas sempre longe de ‘justificar’ sua imensa pompa, que ganhou peso, mais precisamente, depois do sucesso, e a meu ver apenas mediano, O Labirinto do Fauno. Trago a tona essa observação pelo simples fato de que Não Tenha Medo do Escuro parece ter ganho sua chance nos cinemas apenas pelo fato de Del Toro apostar no sucesso. Produtor e roteirista – ao lado de Matthew Robbins (esquecido, de Contatos Imediatos de Terceiro Grau) –, Del Toro busca estabelecer sua trama com vários emblemas do gênero, como a velha mansão mal assombrada, a criança solitária, os pais apenas preocupados com seus empregos, criaturas com aversão a luzes e etc…

Obviamente, o cineasta ainda acrescenta sua fissuração na mentalidade das crianças, atitude que vai por água abaixo a partir do momento em que esta personagem é pessimamente desenvolvida. Dando pouco tempo e características capazes de nos sensibilizarmos por Sally, Del Toro acaba se equivocando ao não se aprofundar na personagem vivida conscientemente pela jovem Bailee Madison, o que acaba por trazer uma ‘falta de interesse’ em seu destino dentro da trama. Pessimamente desenvolvidos são também seus pais, vividos timidamente por Guy Pearce e Katie Holmes. O primeiro, pouco pode fazer com um pai estereotipado, aquele se preocupa apenas com sua carreira e que possui uma imensa falta de habilidade em como lidar com sua filha. E por mais que a limitada Katie Holmes se esforce, sua personagem é ridiculamente trabalhada, ao ponto do roteiro dar indícios que penderia a uma ‘viagem ao seu passado’, o que acaba sendo cortado rapidamente.
Então como extrair apelo dramático se encontramos personagens pessimamente desenvolvidos? É assim que a parte psicológica sempre salientada com Del Toro acaba ficando escassa. Quanto aos sustos, eles certamente seriam ponderados, o que comprovadamente acontece, já que a produção não se pressupunha a ser um terror de sustos, mas sim com tensão psicológica.

Se o roteiro escorrega nos personagens, não podemos dizer o mesmo do diretor Troy Nixey, que, aliás, até corre o risco de ser ‘esquecido’ por muitos, já que os holofotes se prendem apenas a Del Toro. Em seu primeiro trabalho a frente de um filme, o quadrinista Nixey (trabalhou em inúmeras HQs) consegue utilizar boas tomadas, como no momento em que Sally procura seus ‘amiguinhos’ por de baixo de um lençol. Mesmo que o diretor não consiga empregar sustos regularmente eficientes, se apóia com firmeza na excelente ambientação imposta pelos profissionais técnicos do longa, é claro, com o dedo artístico de Del Toro. Comecemos pela espetacular mixagem de som que consegue aliar sussurros com barulhos da natureza, como ventos e insetos, o que em determinada passagem acaba se tornando altamente instigante. A fotografia de Oliver Stapleton aposta em iluminações sempre coerentes e capazes de transformar diversas passagens em situações minimamente eficazes. A trilha sonora elaborada pela dupla Marco Beltrami e Buck Sanders – de Guerra ao Terror – é apática, e vai sucumbindo com o passar do longa.
Porém vale destacar uma falta de criatividade, com o perdão do trocadilho, monstruosa por parte da equipe técnica ao elaborar criaturas absolutamente ridículas, que não colocariam medo nem mesmo na criança mais medrosa, quanto muito em ‘gerações inteiras’. Parecendo uma mistura entre morcegos e ratos, só resta mesmo ter medo do escuro, porque das criaturas em si…

Mesmo construindo um ambiente propício, fundamentalmente graças à excelente mixagem de som e fotografia, Não Tenha Medo do Escuro carece da tão famosa química, seja entre o elenco, ou principalmente da interação entre a psicologia da personagem central Sally e este ambiente claustrofóbico. Apesar de demonstrar uma plote interessante, principalmente ao realizarmos uma analogia macabra com a fada dos dentes (!?), Guillermo Del Toro peca ao desenvolver uma trama muito fraca que acaba não se sustentando devido a personagens mal desenvolvidos. Os sustos acabam sendo escassos, restando apenas pouquíssimos momentos capazes de extrair uma demanda emocional do telespectador. Mediano.

Nota: 5,0

por Filipe Ferraz

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