2010, Cinema, Críticas

Entre Segredos e Mentiras (2010)

Mente conturbada de David Marks retratada de maneira sólida


Ao mesmo tempo em que Entre Segredos e Mentiras se apóia no fato de ser baseado em uma história verídica, acaba correndo o risco de prejudicar drasticamente a experiência do espectador. Comecemos pelo fator positivo, que seria basicamente a atração do público que conhece a história de David Marks e por isso vai atrás do filme. O fator negativo é que fatos importantes e surpreendentes dentro da trama correm o risco de serem liberados gratuitamente para aqueles que não conhecem a persona que protagoniza o longa. Porém essa foi uma escolha de seus realizadores em retratar a mente conturbada de Marks, então obviamente eles já tinham o conhecimento de tais discrepâncias.

A trama se passa em meados dos anos 70 na cidade de Nova York. Acompanhamos David (Ryan Gosling) subitamente se apaixonar perdidamente pela estudante Katie (Kirsten Dunst). Os dois se casam e vão morar no interior, cuidando apenas de sua casinha – com os dizeres ‘All Good Things’ (título original do longa). O grande problema é que David é filho do multimilionário Sanford (Frank Langella) que sente uma enorme frustração pelas escolhas de seu filho mais velho, principalmente por o mesmo deixar a tradição da família de lado. Em meio a essas variáveis discussões com seu pai, ao pouco vamos percebendo atitudes resguardadas de David que pareciam estar adormecidas, ou melhor, escondidas no fundo de sua mente.

Migrando do documental para um longa-metragem, Andrew Jarecki – indicado ao Oscar pelo documentário Na Captura dos Friedmans – decide construir essa sua nova empreitada se apoiando excessivamente em seus personagens. Mesmo não utilizando nenhuma nova estrutura, Jarecki acerta ao extrair muito bem de seu diretor de fotografia (Michael Seresin de Coração Satânico), como também da eficiente montagem da dupla David Rosenbloom e Shelby Siegel (sendo o primeiro conhecido por seus trabalhos em O Informante e A Guerra de Hart) que consegue manter um ritmo sempre constante, construindo ainda boas elipses entre os minutos inicias e momentos finais do longa. É uma pena que a trilha, até então excelente de Rob Simonsen ((500) Dias com Ela) – que na primeira metade do filme é grandiosa – caia na mania de tentar ‘narrar’ o que acontece em tela, tirando o tom ‘orgânico’ necessário para que suas composições pudessem se conciliar perfeitamente com o andamento da produção.

Como Jarecki busca estabelecer personagens tão fortes quanto o filme em si, seria de fundamental importância que os dois elementos primordiais para esse quesito funcionassem de maneira sólida. Vamos a eles.
Primeiramente o roteiro escrito pelos estreantes Marcus Hinchey e Marc Smerling, que de forma paralela com que vão dando andamento em sua narrativa, preocupam-se em desenvolver características fortes em seus personagens principais: David e Katie Marks, como também, porém mais secundário evidentemente, Sanford Marks. É aí que chegamos ao segundo ponto essencial para a fortificação destes personagens: As atuações.
Ryan Gosling (Namorados para Sempre) parece ter engatado a quinta marcha em ladeira acima para sua carreira, ao entregar outro trabalho formidável. Mantendo seu personagem como uma figura apática, que se esforça ao máximo para demonstrar que determinado acontecimento em seu passado não lhe afeta em nada, sendo que o simples fato em se esforçar já demonstra o quão ferido está, consegue transformar a figura multidimensional (?) de David Marks em uma estampagem palpável, capaz de ao mesmo tempo em que se demonstra carinhoso, rapidamente se resguardar dentro de si na iminência de explodir mais cedo ou tarde. Na outra ponta desse relacionamento, encontramos Kirsten Dunst (Melancolia), que depois de um pequeno hiato de dois anos, voltava ao cinema com a personagem de Katie Marks. Demonstrando rapidamente ser uma figura simpática, a sonhadora Katie mesmo possuindo desejos como se formar em medicina consegue se ‘adaptar’ as características de seu marido. Dunst ainda desenvolve facetas eficientes ao contrapor sua alegria ao presenciar a nova casa comprada por seu marido, com o inexplicável temor de David somente na possibilidade de ambos terem um filho.  O experiente Frank Langella (Frost/Nixon), vivendo o pai multimilionário de David, aparece sempre em momentos inoportunos para seu filho, surgindo sempre como uma figura que jamais deposita sinceridade em sua falas, tornando-se assim, entendível a repulsa de David com seu pai. Vale destacar ainda a bela, porém pequena, participação de Philip Baker Hall (Magnólia).

Rodeado por grandiosas atuações em uma mais nova confirmação do talento de Ryan Gosling, Entre Segredos e Mentiras mesmo que não se torne algo maior, fato que sua história poderia lhe agenciar, é um filme surpreendente, principalmente por vir das mãos de um diretor vindo de documentários e roteiristas iniciantes. Sendo assim, ao conseguir estruturar o longa de maneira sólida ao retratar a mente conturbada de David Marks, Entre Segredos e Mentiras consegue suficientemente afastar o perigo em transformar um personagem tão ímpar em uma figura caricatural, fazendo com que os passos de sua vida sejam aceitos e parcialmente entendidos, de fato, um dos maiores méritos em sua construção.

Nota: 8,0

por Filipe Ferraz

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