2011, Cinema, Críticas

A Hora do Espanto (2011)

Atualização em filme vampiresco, apesar de bagunçada, devolve o sádico Jerry à vizinhança


Os tempos mudaram. Essa frase não chega a estar no cartaz da refilmagem de A Hora do Espanto, mas certamente pode ser encontrada em suas entrelinhas. Vinte e seis anos separam este do longa original, e muita coisa parece ter se alterado de lá pra cá, seja dentro ou fora do cinema. Primeiramente, hoje, os vampiros costumam estampar as capas das revistas Capricho, mais preocupados com seus penteados e rímel nos cílios do que propriamente sair em busca de sangue e novas vítimas. A segunda mudança, e mais aceitável, é a simples cultura, agora tecnológica, que fora introduzida no cotidiano de cada um, e aqui mais precisamente aos adolescentes. E o diretor Craig Gillespie faz questão de nos situar rapidamente, com um plano aéreo, ao trocar as ‘velhas’ casas com cercado baixinho, por um condomínio de alto luxo. É lá que o novo vizinho Jerry (Colin Farrell) irá exibir todo seu sadismo.

O roteiro escrito por Marti Noxon, do regular Eu Sou o Número Quatro, busca então ambientar o personagem de Charley Brewster, dessa vez vivido por Anton Yelchin, o colocando em um cotidiano diferente daquele abordado em 85. É assim que somos apresentados a sua namorada Amy (Imogen Poots), seus amigos babacas, sua mãe Jane (Toni Collette), seu velho amigo nerd Ed (Christopher Mintz-Plasse) e obviamente, o seu novo vizinho, o boa pinta Jerry. Noxon, apesar da introdução de várias gags que atualizam o roteiro de Tom Holland, como várias citações a Crepúsculo ou o fato de Charley procurar em seu IPhone como se abre uma fechadura, não consegue fortalecer sua trama suficientemente para que ela possa percorrer esse caminho de tensão e comédia proposto pelo longa. A princípio já observamos um aprofundamento escasso em Charley – interpretado de forma patética pelo fraquíssimo Anton Yelchin – que se apóia na velha história do rapaz que ‘deixa de lado sua personalidade’ em função de conquistar uma garota, mesmo que este seja obrigado a conviver com babacas e tenha terminado sua amizade com o melhor amigo. Em momento algum conseguimos nos sensibilizar com o contorno da personalidade de Charley, fato que auxiliaria a construção da narrativa de Noxon, a deixando consideravelmente menos superficial. Sendo assim, A Hora do Espanto é apressado, afinal com pouco menos de uma hora de filme já temos a nítida impressão que a produção deveria terminar ali mesmo.

Toda essa bagunça reservada graças ao roteiro de Marti Noxon, que já havia escrito alguns episódios de Buffy: A Caça-Vampiros, parece dar inúmeras voltas no nada, fazendo com que algumas boas escolhas do diretor Craig Gillespie (A Garota Ideal) acabem sendo relevadas. A primeira de todas mora na excelente opção de Colin Farrell para viver o vampiro Jerry. Farrell aposta na simples escrotice de seu personagem, que pálido, sanguinário e nem um pouco discreto, deixa rapidamente exposta sua ‘cara-de-pau’ galanteadora, ao conseguir rapidamente o apreço do público. E se Anton Yelchin em nenhum momento convence como protagonista (funciona no máximo como um personagem terciário, como em Star Trek), o verdadeiro criador da Hora do Espanto – que dentro do contexto do filme, é um programa televisivo – Peter Vincent, é entregado de maneira entusiasmante por David Tennant. Responsável pela maioria dos momentos mais cômicos da produção, Tennant transforma Vincent em uma figura hilária, que parece cuspir arrogância com sua sabedoria comprada em um guia de truques de mágica, mas que de forma escalonada vai ganhando importância na resolução, e é uma pena observar que essa influência de um personagem tão importante ocorra apenas depois do momento a qual me referi acima, onde o filme parece acabar com uma hora (uma eficiente perseguição de carro, apesar do exagerado CGI). Mais uma amostra da desorganização narrativa de A Hora do Espanto.

Ao término esta refilmagem até se demonstra eficiente em determinados pontos como o retorno de vampiros sanguinários e, resumidamente, feios – se o CGI peca na cena em que uma moto é jogada contra um carro, em contrapartida é espetacular na composição de Jerry ‘transformado’, principalmente aliado a sua eficiente maquiagem. Além é claro de providenciar uma série que balanceia de maneira lúcida a comicidade e o terror que Tom Holland depositava na produção original, sendo um remake que pelo menos tem a dignidade de manter a essência do nome que carrega. Talvez se apostasse mais em cenas como no momento em que Charley vai resgatar uma amiga na casa do vizinho, que culmina com uma excelente escolha do diretor, A Hora do Espanto se transformaria em algo tão forte quanto o original. Mesmo que a decepcionante desordem em sua narrativa provoque um enfraquecimento, é bom ter o garanhão sanguinário, sem topetes ou gloss, e com aversão a luz, água benta e cruzes, de volta a vizinhança cinéfila.

Nota: 5,5

por Filipe Ferraz

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