Os Muppets (2011)

Um retorno contagiante


Pode até ser da minha época, mas eu pouco me recordo de Caco, Miss Pig, Gonzo e companhia. Minha memória, mais do que visual, sempre se destinava a ser afetiva, algo um tanto quanto ilógico de quem não teve nenhum contato com a série criada em 1950 e que passeou durante anos pela televisão e cinema (já foram oito filmes). Porém esse meu afeto era muito em função do extremo carinho depositado por qualquer que ousasse dizer uma palavra sequer sobre esses personagens tão carismáticos. E é com essa mesma paixão – na verdade até mais – que o maravilhoso Os Muppets reintegra essas figuras caricatas com extrema devoção.
Possivelmente o melhor musical dos últimos anos, o que deve ser relevado, é verdade, já que a atual safra conta com exemplares terríveis, Os Muppets é surpreendente ao conseguir com um roteiro leve, inserir funções metalinguísticas que proporcionam uma conversa inocente com seu público, mas também não ultrapassando o limite de se tornar uma obra restrita aos ‘mais velhos’.

Mas como adaptar os Muppets para o cinema? Uma série que, ou estava esquecida, ou simplesmente é desconhecida? Só mesmo utilizando essa ‘distância’ como maneira funcional em sua narrativa. Sendo assim é de maneira acertadíssima que a dupla Nicholas Stoller (Sim, Senhor!) e Jason Segel (que além de fã confesso, estrela sua ‘parte humana’) elaboram uma trama a princípio frágil e já bem utilizada: Gary (Segel) decide viajar com sua namorada Mary (Amy Adams) para Los Angeles afim de comemorar dez anos de namoro. Aproveitando o deslocamento, Gary decide levar junto seu ‘irmão’ Walter, o maior fã dos Muppets em todo o mundo… Lá eles descobrem o plano do explorador de petróleo Tex Richman (Chris Cooper) de destruir o Teatro Muppets, praticamente um templo sagrado para qualquer um que já acompanhou o The Greatest Muppet Telethon Ever, e principalmente para Walter. Para evitar que o teatro seja demolido, Walter deverá reunir toda a trupe e arrecadar 10 milhões de dólares. Antes unidos, os Muppets agora estão ‘perdidos’ pelo mundo, e essa busca começa por Kermit (ou Caco para os mais velhos) que vive solitariamente em uma mansão, para posteriormente ir atrás de Fozzie, que agora está com uma banda chamada Moopets, junto com seu baterista Dave Grohl se apresentando em um ‘cassino’ em Reno; Miss Piggy agora é uma editora de moda extragrande da Vogue Paris, secretariada por Emily Blunt, que repete seu papel em O Diabo Veste Prada; Animal que está em uma clínica em Santa Barbara para tratamento para controle da raiva, ao lado de Jack Black; e Gonzo, agora um poderoso magnata dos encanamentos.

Os Muppets consegue transparecer uma devoção difícil de ser mensurada, assim é de forma absolutamente contagiante que o roteiro se desloca de maneira leve pelos sentimentos do espectador, ao ponto de trazer cenas belíssimas, como por exemplo, quando Urso Fozzie, segurando um ursinho de pelúcia, e Caco, com um pijama cheio de bolinhas, se preparam para dormir em uma rede em seu teatro que está prestes a ser demolido, e em uma conversa notoriamente significante, observam vários furos no telhado. Acompanhando de maneira igualmente ágil e delicada, encontramos a direção de James Bobin, que além de coreografar musicais excelentes, que vão desde os mais coloridos e alegres, como na primeira canção – e tema – Life’s a Happy Song até ambientes mais pesados e tristonhos, como quando Caco anda por um corredor lembrando a convivência com seus amigos (canção Pictures in My Head) causando rapidamente as primeiras lágrimas no espectador.
Porém o grande mérito de Muppets reside em sua metalinguagem, afinal, como não se emocionar ao ver os próprios personagens lamentando o fato de estarem esquecidos pelo público? Algo que se encaixa tanto dentro e fora do filme. Logo podemos encontrar diversas situações que ultrapassam o contexto cinematográfico, estendendo-se a conversas como o fato dos próprios personagens reconhecerem: ‘Nossa como esse musical ficou brega’ ou ‘Essa explosão não estava no orçamento do filme’, fazendo com que isso jamais soe artificial. Além disso, a produção ainda consegue desenvolver questões saudáveis de auto descoberta, concentradas, por exemplo, na canção Man or Muppet, que ganha uma coreografia simbolicamente espetacular, estabelecendo-se como uma jornada de aceitação e, consequentemente, superação.

Outra escolha preponderante para o sucesso do longa é o fato da produção resistir a tentação de transformar seus personagens em figuras eletrônicas, mantendo sua essência ao trazer os fantoches de volta, como eles devem ser. Para isso, Bobin busca sempre deixar sua câmera em meia altura, procurando a todo o momento simular a visão dos Muppets e conjecturar aquele mundo, como ‘nosso’, atitude que combina perfeitamente com a abordagem imposta pela fotografia de Don Burgess, que mesmo utilizando diversas colorações, faz questão de saturá-las para trazer o tom nostálgico essencial para a produção.
Sendo de importância fundamental para a existência do filme, Walter, quer dizer, Jason Segel, se demonstra extremamente à vontade, assim como sua parceira Amy Adams, que mais uma vez tem a oportunidade (canção Me Party) de demonstrar sua vocação a musicais (Encantada). Mesmo que o roteiro por horas escorregue em seu relacionamento, a importância do casal, sobretudo Segel, não deixa de ser análoga com a abordagem do longa, que ainda é repleto de participações especiais, dentre as principais, Zach Galifianakis, Ken Jeong, Emily Blunt, Whoopi Goldberg, Selena Gomez (com uma representatividade exposta por sua excelente fala: ‘Só estou aqui porque meu agente mandou, nem conheço vocês’), Dave Grohl, Mickey Rooney, Jack Black…

Estabelecendo-se como um musical contagiante, que como todo grande exemplar do gênero, passeia pela metalinguagem e coreografias alarmantes, Os Muppets é uma das maiores surpresas do ano, onde cada minuto se comporta como uma prova fiel do extremo trabalho de devoção de seus realizadores. Não ficando preso ao seu público central, o filme consegue com toda sua inocência agradar as criançadas que serão arrastadas pelos pais, mas que certamente ao final irão agradecer por um programa nada usual, afinal, em tempos onde o 3D engole tudo que passa em sua frente, ver personagens em fantoches deve ser uma experiência única. E quando eles conversam diretamente com você, mais ainda.

Nota: 8,5

por Filipe Ferraz

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