2011, Cinema, Críticas

Margin Call – O Dia Antes do Fim (2011)

Imagine-se em uma caminhada prospera, cheia de energia e que deslumbre apenas uma trajetória amaciada pela frente. Entretanto, ao olhar para baixo, você nem mesmo enxerga seus pés, inteiramente cobertos por lama, se deparando assim com sua realidade. Essa foi à primeira e mais simples analogia que pude fazer ao presenciar Margin Call – O Dia Antes do Fim que acompanha durante 36 horas um grande banco de investimento que descobre uma queda financeira sem precedentes.
Claramente inspirado no banco Lehman Brothers, um dos principais iniciadores da crise mundial que se alarmou durante os anos de 2007 e 2008, Margin Call é uma produção pesada, que repleta de intrigantes diálogos condizentes com seu período, busca se estabelecer como um ‘thriller econômico’, que farto de técnicas e grandiosas atuações, é capaz, de como a especificidade de um banco, nos vender um suspense que exala um clima emergencial.

Escrito e dirigido pelo estreante, e surpreendente, J.C. Chandor, Margin Call busca rapidamente se organizar como um thriller que, por fugir das temáticas usuais de produções do gênero, muitas vezes nos reporta A Rede Social de David Fincher. Frio e calculista, este, do mesmo modo que o longa dirigido por Fincher, pouco se importa em criar personagens simpáticos e que possam ser ‘exaltados’, assim o roteiro de Chandor situa-se como uma trama urgêncial por si só, onde como já temos ciência do resultado ‘final’ – as conseqüências da crise estão ai até hoje, mesmo que de fato o Brasil tenha sido um dos países que melhor a contornaram – passamos então a temer juntamente com seus personagens. Acompanhando então o abrir dos olhos para a crise mundial – e é bom frisar isso, que o fato decorrido no longa não é o ‘começo’ da crise, mas sim sua primeira percepção, como o próprio personagem de Zachary Quinto faz questão de salientar: ‘Já estamos afundados a duas semanas, no mínimo’ – o roteiro ainda preocupa-se em evidenciar a natureza dos líderes dessas corporações, que claramente em pânico por saírem de sua zona de conforto, pouco conseguem raciocinar sobre as conseqüências de um ato exclusivamente como proteção unilateral, ainda mais sabendo que isso afundaria (e afundou) o país inteiro.

Logo J.C. Chandor utiliza uma direção notoriamente eficaz ao com planos fechados em seus personagens, numa simulação de angústia e desespero, como se, ao invés de encarcerados em números matemáticos, estivessem presos em uma bolha (hum…) contrapô-los com planos aéreos e distantes, como também os time lapses, que captam a cidade de Nova York, onde tudo isso irá explodir, como podemos notar na frase de Quinto: ‘Essas pessoas não fazem a menor ideia do que está para acontecer’. A fotografia de Frank G. DeMarco (Reencontrando a Felicidade) surge com uma função especial, que seria aquela de trazer frieza ao ambiente, para que este possa ser sintonizado com os personagens, assim DeMarco ‘escurece’ ainda mais as passagens noturnas, onde conforme as horas vão passando temos a mais clara impressão de solidão, onde por fim, seus personagens estão completamente isolados da cidade. De maneira similar, a trilha de Nathan Larson (O Mensageiro), que nestes momentos especificamente, e acertadamente, some gradualmente, consegue ainda entregar grandes momentos, por exemplo, logo em seu início quando vários funcionários são demitidos, onde ao som de pianos já se entoam um clima deprimente.

Se os personagens não ganham um aprofundamento extenso, o que, repito, considero uma atitude acertada já que não devemos criar um elo emotivo, em contrapartida adentro desse um dia e meio, todos ganham uma duradoura importância encaixando-se em uma engrenagem conscientemente construída por J.C. Chandor. Vamos falar de maneira hierárquica, e extensa, começando então por Peter, vivido de maneira superlativa por Zachary Quinto (Star Trek), como podemos observar no instante em que o jovem matemático toma a real noção dos números que estão em sua frente – e aqui notamos mais uma acertada escolha de Chandor ao focalizar apenas o rosto do ator, onde a grande maioria dos cineastas buscaria visualizar os gráficos da situação financeira da empresa, além do mais o diretor ainda cria nas extremidades do plano, pontos embaçados, numa simulação coerente de um pesadelo. Parceiro de Peter, Seth, conta com o sadismo de Penn Badgley (da série Gossip Girl) que mostra sua busca ‘desenfreada’ em saber quanto cada um recebe por mês, uma atitude que já aflora seu sentido ganancioso, mas conforme podemos observar em uma cena já no momento final, demonstra sua total inexperiência. Paul Bettamy (Legião) vive de forma surpreendente Will, chefe de operações, que já calejado, parece ser o que mais consegue analisar de forma racional tudo o que está acontecendo, entregando ainda ótimas constatações como ‘A única razão de continuarem (os ricos) a viver como reis é colocarmos os dedos na balança a favor deles. Se eu tirar minha mão fora, o mundo fica mais justo, mas ninguém quer isso, dizem que sim, mas não querem’ como também ao salientar a seus próprios subordinados quem serão os mais afetados: ‘Parece que eles vão nos empurrar esta merda. Só esperem. Eles descobrem uma maneira. Estou nesta empresa há dez anos e já vi coisas que não acreditariam. Depois de tudo dito e feito, eles não perdem dinheiro. Não ligam se todos perdem, mas eles não.’

Subindo o escalão de autoridade, Sam Rogers é estruturado em uma ótima performance de Kevin Spacey, que acostumado a construir fortes personagens, não se sente intimidado, fazendo com que este sempre apareça com extrema devoção a empresa, fazendo-nos, por exemplo, esquecer que antes do ‘estouro’, Sam estava mais preocupado com a saúde de seu cachorro, conforme o seu grau de cansaço originado por 32 anos de ofício, porém nessa mesma entonação, Spacey ainda se demonstra inspirador, como no momento em que faz um discurso seletivo a seus funcionários. Equiparando-se como grande destaque, Jeremy Irons transforma John Tuld, dono do banco, em uma figura ameaçadora e com uma tranquilidade assustadora – em ambos os sentidos – para saber como lidar e amansar os efeitos aparentes que todo esse rebuliço lhe causaria. Irons ainda entrega uma frase que possivelmente daqui a alguns anos será louvada como a famosa ‘Greed is Good’ de Michael Douglas em Wall Street: Poder e Cobiça, onde em uma reunião às quatro horas da madrugada, o que já demonstra um tom desesperador, o magnata solta: ‘O que eu disse desde o primeiro dia que entraram em meu escritório? Existem três formas de ganhar a vida neste negócio: Ser o primeiro, o mais esperto, ou trapacear’. Sem o mesmo espaço, mas entregando boas performances que conjecturam um casting quase perfeito, Simon Baker (The Mentalist), Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso) e Demi Moore não decepcionam.

Margin Call utiliza uma abordagem interna em Wall Street que nos trás reflexões de como o destino de um país é decidido por poucos, que muitas vezes preocupam-se mais com seus destinos pessoais. É assim que ao observarmos os bastidores da crise de 2008, notamos o quão esse clima de urgência em torno do banco (e ampliando, chegamos ao país inteiro) era ilusório, afinal não só ele já se encontrava completamente enterrado, como suas ‘cabeças’ buscavam uma saída mais para si. Tecnicamente arquitetado ao modo de transformá-lo em um grandioso suspense, J.C. Chandor, uma das maiores revelações do ano, constrói uma obra primorosa, onde seus personagens parecem obrigados a todo o momento olharem pelas janelas e observarem prédios gigantescos e carros luxuosos circuncidados por um pedaço de papel com imagens, até que chega o momento em que realmente se perguntam se essa engenharia realizada durante a madrugada é a melhor coisa a se fazer. Mas na verdade, a grande pergunta é, o melhor a se fazer para quem? Já que pelo visto, o capitalismo continuaria cavando suas valas.

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