2011, Cinema, Críticas

Tudo Pelo Poder (2011)

Mike Morris, candidato do partido democrata a presidência dos Estados Unidos, faz um discurso sobre sua meta contra a distribuição de riqueza para os americanos já ricos, e ao mesmo tempo, Stephen e Paul discutem atrás deste palanque, delimitados pela bandeira dos EUA, sobre um acontecimento que poderá mudar completamente o rumo das eleições. É com essa cena que pretendo a partir de agora olhar para um candidato arrotando ideais a serem seguidos, sabendo que ao mesmo tempo um grupo trabalha para manipular, forjar e criar estratégias friamente organizadas para que aquelas palavras possam surgir como um feitiço que só será concretizado quando o nome Mike Morris for assinalado nas urnas como o homem ideal para comandar o país.
Estes mesmos olhos enfeitiçados por palavras sempre colocadas da melhor maneira possível, quase que com uma postura messiânica, serão sempre figuras importantes na obra-prima Tudo Pelo Poder.

George Clooney, não bastasse ser um dos melhores atores de sua geração, vem agora se particularizando como um ótimo diretor, trazendo desta vez a adaptação da peça de Beau Willimon (também roteirista), Farragut North. Assim apesar do próprio Clooney viver Morris, candidato a presidência dos EUA, nossos olhares serão desviados aos bastidores de sua campanha, mais precisamente a Stephen (Ryan Gosling) e Paul (Philip Seymour Hoffman) que buscam estratégias baseadas na inteligência do primeiro e na coragem do já veterano Paul. O cenário eleitoral aponta uma pequena vantagem para Morris, porém o grande divisor será Ohio e seus votantes. Tentando assegurar a vitória do atual governador, o grupo de Morris buscará persuadir Thompson (Jeffrey Wright) a apoiá-los, juntamente com seus mais de 360 delegados da Carolina do Norte, a cidade natal do adversário Pullman (Michael Mantell), deixando a decisão para Pensilvânia, cidade em que Morris já tem uma vitória praticamente assegurada.

O roteiro escrito pela dupla Grant Heslov e Beau Willimon (lembrando, o autor da peça em que a produção se baseia), em conjunto com o próprio George Clooney, busca estabelecer uma linguagem que cada vez mais vem invadindo temas até então nada explorados. Quando analisei A Rede Social e o recente Margin Call – O Dia Antes do Fim, constatei uma incrível e eficaz estrutura de thriller, que criava um ambiente quase sombrio e opaco sobre a criação do Facebook e a Crise Mundial de 2008, respectivamente. Acontece que Tudo Pelo Poder vai além, já que insere nessa já comprovada estrutura de sucesso, os bastidores de uma eleição presidencial, que consegue proporcionar diversas sub-tramas que estarão intimamente ligadas, fazendo desta uma rede ainda mais complexa e perigosa. Dessa forma Clooney faz questão de contrapor os discursos tipicamente (fajutos) políticos de Morris com discussões internas sobre o rumo das eleições, os resultados da audiência televisiva e principalmente o (des)encobrimento de fatos determinantes para o término ou não da caminhada presidencial. Dando uma simulação, de maneira até bem sintética, da mentira, exposta por discursos maniqueístas e liberais de Morris, e de toda verdade por de trás disso. Tudo Pelo Poder ainda é inteligente ao expor o papel da mídia no destino do país, como podemos notar em Ida (Marisa Tomei), jornalista do The Times, principal jornal do país, e uma figura com uma voz ativa e respeitada dentro da política. Assim percebemos o quanto essa relação política-jornalismo é moldada por troca de favores e chantagens, onde definir um sujeito de ambas as frentes como ‘amigos’, seria um dos principais motivos para uma futura derrocada.

Mas podemos classificar o longa, utilizando temáticas abordadas por si próprio, como algo que não se foca na sociedade, mas sim no indivíduo, no caso Stephen, interpretado de maneira (novamente) brilhante por Ryan Gosling. Ainda jovem, Stephen parece estar à frente de seus colegas de profissão, como podemos notar em uma constatação de seu próprio adversário, Tom Duffy (Paul Giamatti): ‘Você exala algo. Você atrai as pessoas. Todos os repórteres te adoram. Até os que te odeiam, te amam. Manipula-os como se fossem peças no tabuleiro. E sem esforço’. Então Gosling utiliza sua inteligência e poder de persuasão levando estas a confundir medo com amor, fazendo-as ganhar seu respeito (entendam-se votos) de boa parte de quem está ao seu redor. É assim que ao descobrir uma falcatrua de Morris com uma personagem vivida por Evan Rachel Wood, ele não hesita em condenar este erro, classificado como algo fatal para um jogo onde qualquer tropeço é capaz de afundar este peão. Mal sabendo ele o que isto significa em sua plenitude… Importante também salientar que Stephen acredita friamente em seu candidato, como podemos apontar logo no começo em uma conversa com a jornalista Ida… Ou será que ele me persuadiu também?

De qualquer forma, Tudo Pelo Poder demonstra que as funções de cada um dentro dessa engrenagem eleitoral são importantes, mas não as peças em si, que só serão funcionais quando exercerem suas designações, como presenciamos em uma maravilhosa rima narrativa quando uma estagiária, já nos instantes finais, leva café para seus colegas. Assim Clooney de maneira quase poética demonstra o quanto esse sistema é cíclico e jamais deve pausar, independentemente de perdas que aconteçam pelo caminho, já que no final de tudo, Morris, ou qualquer outro candidato, continuará dando seus discursos, pessoas continuarão contestando e/ou defendendo, mas que no fundo, só serão complexados com a moeda mais valiosa do mundo, o voto. Então todo o longa passa por essa aceitação do personagem de Gosling, que pretendo chamar de uma ‘maturidade política’, quando, por exemplo, o mesmo chega a constatar que aquilo não é um jogo onde questões pessoais, como sentimentos e relacionamentos sempre acesos, são permitidos, é algo muito maior, onde tudo isso deve ser colocado no bolso e esquecido, ou então você será atropelado. E ver Clooney a todo o momento focalizar nos olhos de Gosling, como se este despertasse sobre a real natureza do que á a Política, é algo magnífico.

Não à toa encontramos atuações soberbas, sobretudo do absurdamente talentoso Ryan Gosling, passando também por Philip Seymour Hoffman que cria um Paul totalmente alucinado em lealdade e no resultado direto, capaz de levá-lo a atitudes unilaterais; Paul Giammati que consegue variar entre personagens caricaturais e sérios de maneira assustadora, dando a Duffy uma visão de amplitude essencial á sua estratégia traçada a cada movimento em falso de seus adversários; Ewan Rachel Wood, que vive de maneira inspirada a estagiária Molly, depositando um belo grau de dramaticidade ao longa, como no momento em que descobre o que aconteceu horas antes em um importante acontecimento. Destaque ainda para pequena, porém magnífica participação de Gregory Itzin. Com a mesma magnitude, Alexandre Desplat entoa uma trilha melancólica, misturando batidas de marchas (como se fossem um hino) com arpejos sempre tristonhos e distantes, que dimensionam o tom cru empregado a todo instante.
Igualmente, a fotografia de Phedon Papamichael (Sideways – Entre Umas e Outras) cria ambientes fantásticos, como no instante inicial, ou também quando apenas a silueta de Gosling tem como plano de fundo a bandeira dos Estados Unidos…ao avesso. Dando representatividade gráfica, Phedon utiliza inúmeras vezes paletas escuras, onde mal podemos observar as feições de seus personagens, algo resumidamente simbólico, como se um simples fotograma nos dissesse que qualquer que seja determinada personalidade, na verdade não nos interessa.

Um dos melhores filmes do ano, senão o, (apenas Meia Noite em Paris me impede de afirma claramente isso), Tudo Pelo Poder mergulha extraordinariamente em trama políticas onde o mínimo descaso é capaz de encomendar seu próprio xeque-mate. Armando um tabuleiro que de forma alguma dispensa as funções de seus peões, George Clooney constrói a grande obra-prima de sua curta carreira como diretor, injetando um tom maquiavélico constante e com extrema viveza. E o plano final com os olhos de Gosling já ‘calejados’, nos situam dessa verdadeira empreitada rumo a sua, e nossa, maturidade política.

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