O Espião que Sabia Demais (2011)

Não será difícil chegar a um ponto durante a projeção de O Espião que Sabia Demais em que você pare e se pergunte: ‘O que está acontecendo?’. O nível de comprometimento que a produção exige vai inclusive quase além das telas, já que ela não tem vergonha alguma de mergulhar em um mundo de nomes, codinomes, conspirações, contextualizações, armadilhas e tudo que pode envolver o mundo das agências secretas, ainda mais quando estamos situados durante o período da Guerra Fria. E se você espera que o diretor Tomas Alfredson acrescente virilidade a uma história por si só complicada de ser abordada, para aliviar essa possível falta de interação do público, mude rapidamente de ideia. A frieza e a linguagem monótona de O Espião que Sabia Demais chegam a ser incômodas. E ao percebemos que isso obedece a um ritmo, notamos não ser um mero acaso, ou simplesmente um erro.

Quando me refiro a este padrão narrativo estabelecido pelo promissor diretor Tomas Alfredson, do elogiado Deixa Ela Entrar, faço alusão ao fato de que certamente ele será massacrado pela lentidão com que ocorrem os fatos em O Espião que Sabia Demais. Acontece que achar que ele ‘não conseguiu dar ritmo’ ao filme, seria insultar a estruturação de Alfredson, já que em momento algum (nenhum!) você será convidado a saltar da poltrona, se emocionar ou ficar aflito com uma perseguição de carro ou tiroteio. E criar uma implicância exigindo-as, apenas deteriorará sua experiência dentro do cinema. E digo isso inclusive por experiência própria, já que costumo cobrar determinado ritmo de um filme, porém ao perceber que ele simplesmente não se propõe a isso, passo (e no caso passei)  a entende-lo sob esta outra posição. Ficando mais do que óbvio que atitudes enérgicas definitivamente não fazem parte do vocabulário estabelecido por Tomas Alfredson, ou melhor, daqueles espiões que andam com suas maletas e ternos robustos, e que vêem o dia ganho se passarem essas 24 horas sem serem notados, afinal, um homem solitário sempre é um bom observador.

Não revelarei nenhum spoiler, mas tentarei, na medida do possível, exemplificar o complexo roteiro escrito pela dupla Peter Straughan e Bridget O’Connor, baseado no famoso best-seller de John le Carré, Tinker Tailor Soldier Spy. Na trama que se passa em 1973, durante a Guerra Fria, acompanharemos durante boa parte George Smiley (Gary Oldman), um penetrante espião que acaba perdendo seu espaço graças a uma operação na Hungria completamente desastrosa de seu chefe, conhecido como Control (John Hurt). Nesta missão, Control, o cabeça da Circus – o Serviço Secreto Britânico ou MI6 – enviou o dedicado detetive Jim Prideaux (Mark Strong), mas toda operação acabou tomando um rumo inesperado. Smiley e Control agora estão fora do Circus. Não demora muito para que o subsecretário Oliver Lacon (Simon McBurney) contrate Smiley secretamente, por ordem do governo britânico, para uma árdua investigação: Um agente duplo está trabalhando para a União Soviética, comprometendo todo a Circus e consequentemente a Inglaterra.
Com a ajuda de um agente mais jovem, Peter Guillam (Benedict Cumberbatch), Smiley passa a analisar as atividades realizadas pelo Circus, tanto no passado e simultâneas a sua investigação.

Atreverei-me a vir até aqui, mas peço que vocês se atentem aos nomes Karla (codinome de um espião-chefe russo, que recrutou o agente duplo perseguido por Smiley, e também seu grande adversário); Ricki Tarr; Bruxaria; e obviamente aos codinomes Tinker, Tailor, Soldier e Spy. Então, não se preocupe… você sairá da sessão sentindo ter engolido mais informações do que deveria, quando na verdade, foi o contrário, já que quando tentar diagnosticar o que lhe foi passado perceberá que muitas informações acabaram ficando pelo caminho. E como esse filme lhe exige o maior grau possível de atenção, o aconselhável é que se assista pelo menos duas vezes antes de construir uma opinião concreta. Já que O Espião que Sabia Demais é quieto, solitário e praticamente imóvel, e mesmo não expressando sentimento algum, se você conseguir ainda assim julgar-se englobado e hipnotizado pela avalanche de informações e sua atmosfera, certamente horas depois ainda estará com todo esse turbilhão de ideias na cabeça, tentando encaixá-las de maneira racional.
O ponto fundamental desse êxito é a estética criada por Tomas Alfredson, que se apoiando em todo seu desenho de produção – que recria com inteligência o período da Guerra Fria, se atendo a pequenos detalhes como o prédio em que a Circus é abrigada, que velho, transparece com seus tijolos escuros já cheios de umidade, a sua grande camuflagem – o diretor passa a acompanhar seus personagens fazendo sempre questão de isolá-los em seus planos, como podemos perceber nas inúmeras vezes em que Gary Oldman anda pelas ruas de Londres, onde o diretor sempre posiciona sua câmera do lado oposto da rua. Dessa forma, não serão poucas vezes que Alfredson utilizará o zoom-out, feito que dará ao espectador a clara impressão de estar se distanciado ainda mais dos personagens, completando rapidamente em nosso imaginativo o quão todos eles (ou mais precisamente George Smiley) estão sozinhos. Assim, o clima excessivamente frio criado por Alfredson, condiz com a fotografia esbranquiçada de Hoyte Van Hoytema, que circunda os personagens com a fumaça de seus cigarros, ou a neblina proveniente do clima sempre ameno, que além de escurecer ainda mais suas fisionomias, servem de atribuição ao frio e brilhante roteiro de Peter Straughan e Bridget O’Connor, que deixa espaços em abertos para que você ligue os pontos e possa, juntamente com Smiley, ir mergulhando nesse jogo de espionagem. E quem bom ver um filme que superestima a inteligência de seu espectador.
De forma inerte, o figurino aposta em desenhos de vestuários sempre com o mesmo corte e cores pálidas, trazendo unidade a seus personagens e um tom predominantemente abatido. A montagem de Dino Jonsäter cria um bom fluxo da narrativa, onde ao saber que muitas informações valiosas teriam que ser revisitadas, consegue trazê-las por meio de flashbacks de maneira a uma fácil interpretação, sem transições mirabolantes, e principalmente sem deformar o ritmo do longa. O compositor Alberto Iglesias cria um tema fabuloso para George Smiley, além de constantemente escutarmos acordes sempre serenos e limpos com a utilização de pianos e saxofones, contrapondo-se de maneira insólita com abordagens mais duras, pesadas e quase claustrofóbicas.

Fazendo um papel completamente diferente da maioria de seus trabalhos, Gary Oldman entrega um George Smiley claramente desgastado fisicamente e que parece irradiar solidão por seus óculos redondos e tristonhos, que não os tira nem mesmo em seu momento de ‘lazer’, em seus matinais mergulhos em Hampstead Ponds. Dessa forma, Oldman nos faz esquecer tantos personagens extrovertidos que já viveu, dando a Smiley um tom hipnotizante, sem nunca elevar seu tom de voz ou transparecer algum desequilíbrio, o que sintetiza da melhor maneira possível o longa. Em um elenco repleto, os grandes destaques ficam por conta do excelente Toby Jones que vive Percy Alleline, novo cabeça chefe da Circus, com grande seriedade e capaz de entregar ótimos momentos, como na cena em que intima Peter Guillam, interpretado também de maneira excelente por Benedict Cumberbatch (o Sherlock Holmes, da série televisiva); Recém vencedor do Oscar, Colin Firth demonstra mais uma vez todo seu talento ao entregar Bill Haydon como um agente sempre presente nos principais acontecimentos, e capaz de entender e acatar as decisões de seus superiores; John Hurt consegue variar em um Control que demonstra extrema vivacidade (na festa de Natal, por exemplo) com sua versão já cabisbaixa ao constatar a existência de um agente duplo em sua equipe; Se firmando cada vez mais como um dos atores mais promissores dessa nova geração, Tom Hardy constrói um Ricki Tarr que parece não mais acreditar neste sistema, onde ao olhar para seus superiores, não consegue se imaginar vivendo sem família ou alguém ao seu lado, é dessa forma que seu relacionamento com Irina, em boa atuação de Svetlana Khodchenkova, jamais soa artificial, mesmo que claramente ambos saibam das limitações deste envolvimento. O onipresente Mark Strong, David Dencik e Kathy Burke não precisam mais do que uma cena para também demonstrarem a força de seus personagens.

Em um lento jogo de espionagem, O Espião que Sabia Demais se posiciona como uma obra corajosa por si só, onde a firmeza com que Tomas Alfredson carrega seu conserto, se contrapõe, por exemplo, com escolhas minimalistas e fabulosas, como o reflexo de Tom Hardy em um espelho quando vai a um Porto procurar sua amada, ou na marcante canção Chinese Laundry Blues de George Formby (“Mr. Wu, what shall I do?”). Mergulhando em plena Guerra Fria, porém entre os dois extremos KGB e CIA, Alfredson faz questão de simbolizar esse período como algo desgastante fisicamente e emocionalmente. E existe algo mais simbólico do que o agente que não tira seus óculos nem mesmo no curto espaço destinado a lazer, com medo de estar sendo observado? Mesmo que nem saiba de quem foge, esse era o instinto da época. Fugir ou caçar.
Criptografado de maneira que a cada visualização novos pontos sejam desvendados, essa corajosa obra desmistifica a ideia de que não se pode trazer um jogo de espionagem mais próximo do real, sem glamour, onde os ‘heróis’ não são galãs com um bom porte físico capazes de correr 15Km atrás de um carro. São pessoas sempre cabisbaixas, solitárias e que andam de maneira trágica na espreita de olhar fixamente para os dois extremos e se sentir esmagado pelas duas potências que estavam prestes a um choque iminente. Tão incômodo quanto genial.

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