Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (2011)

Várias vezes durante a sessão do bom Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras tinha a nítida impressão de estar vendo uma espécie de Máquina Mortífera escrito por Arthur Conan Doyle. A função dessa minha comparação, confesso, um tanto quanto exagerada, é o fato de, se o longa da década de 80 trazia Mel Gibson e Danny Gloover em alta sintonia engavetados entre comédia e ação, o mesmo acontece com essa continuação que traz Robert Downey Jr. e Jude Law esbanjando uma mesma química. Bom, mas isso nós já havíamos notado no também eficiente Sherlock Holmes de 2009. Acontece que dessa vez Michele e Kieran Mulroney conseguem solidificar uma trama muito mais atraente, mesmo que por pouco ela quase seja derrubada de um gigantesco penhasco…

No roteiro escrito pelo casal Mulroney, acompanhamos novamente o detetive ‘mais famoso do mundo’ – como o mesmo faz questão de ressaltar – Holmes (Downey Jr.) que se sente intrigado com um adversário que aparenta uma mesma inteligência e complexidade imaginativa, o professor Moriaty (Jared Harris), suspeito de uma série de assassinatos imperceptíveis, já que com os conhecimentos químicos e biológicos, o professor consegue forjar as mortes, fazendo-as parecer um suicídio. Sherlock Holmes, com a ajuda de seu fiel parceiro Dr. Watson (Jude Law), que está prestes a se casar, consegue pistas até um clube subterrâneo onde ele e seu irmão, Mycroft Holmes (Stephen Fry) brindam a última noite de solteiro de Watson. Eles encontram lá Sim (Noomi Rapace), uma cartomante cigana que apresenta um envolvimento inconsciente com um dos assassinados. É assim que a investigação vai ficando cada vez mais perigosa onde o grupo tentará desvendar esse imenso quebra-cabeça esquematizado por Moriaty.

De volta, Guy Ritchie busca estabelecer uma direção bem similar com aquela já utilizada no primeiro longa, é assim que ao captar pequenas pistas do roteiro, Ritchie faz questão de inseri-las em seus planos, porém de modo a deixarem encobertas, onde só saberemos de sua existência futuramente, quando formos obrigado a revisitá-las. Assim Ritchie não tem medo de avançar e retornar na boa trama estabelecida pela dupla Mulroney, tampando buracos existentes, por exemplo, com um esclarecimento visual concebido pela mente sempre pensante de Sherlock Holmes. Dá mesma forma, Guy Ritchie dá ênfase à instantaneidade de Holmes ao analisar os pontos fracos de seus adversários e visualizar todos os movimentos capazes de derrotá-los, algo que já fora um dos principais atrativos do longa de 2009 e que aqui é explorado de maneira até mais orgânica.
Criando sequencias absolutamente fantásticas, como a conversa de Holmes com a cartomante vivida por Noomi Rapace e principalmente no trem, Guy Ritchie ainda deixa claro que Holmes agora é um herói de ação, mas que não consegue deixar de lado seu lado cômico e principalmente sua intelectualidade.

Assim é uma pena que Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras caia drasticamente em sua metade final, podendo ter seu declínio até bem claro quando observamos uma perseguição em uma floresta com um uso excessivo do slow-motion. Parecendo até mesmo que Ritchie pensava estar filmando um longa 3D, o diretor focaliza diversas vezes os estilhaços de uma árvore destruída, capaz de me fazer pensar que o rapaz tem um pequeno fetiche com galhos… E é depois disso que Sherlock Holmes 2 desanda, ao apostar em sentimentalismos baratos e manipulativos (por duas vezes!), além de uma direção de arte, que antes se estabelecia em um nível aceitável, cria um ambiente absolutamente risível ao colocar o solo de um salão preenchido por casas de um tabuleiro de xadrez (o tal Jogo de Sombras… pegaram essa?) que culmina com o patético momento em que Downey Jr. e o vilão vivido por Harris, decidem jogar uma partida de xadrez, exatamente no clímax da produção… E mesmo que a resolução imposta pelo roteiro soe convincente, sua abordagem é completamente infantil e até certo ponto desnecessária.

Responsáveis por entregar uma das maiores químicas dos últimos anos, Robert Downey Jr. e Jude Law se completam a cada frase, seja dentro ou fora do contexto. O primeiro dá a Sherlock Holmes todo dinamismo capaz de segurar o percurso do personagem. Entregando trejeitos eficazes, Downey Jr. não se limita apenas a seu lado cômico, mas também busca tirar a emoção de Holmes, algo que até pode parecer um equívoco, mas que serve para conciliar a figura do espião sempre atento. Enquanto isso, Jude Law investe também em seu lado cômico, menos escrachado como de seu parceiro, mas com uma acidez reluzente. Law também busca dar agilidade a Watson, entregando suas falas sempre de maneira rápida e interruptiva, prendendo-se a sempre interromper Holmes e terminar suas observações, como se ele soubesse, por mais absurda que seja, tudo o que se passa pela cabeça de seu fiel companheiro.
Vivendo o famoso professor Moriaty, Jared Harris entrega um vilão muito mais atrativo do que aquele vivido por Mark Strong. Mais inventivo, Harris aposta na arrogância de seu personagem, concebendo a ele uma incrível força e tranquilidade a frente de seus adversários. Stephen Fry (nu…) e Noomi Rapace pouco podem fazer com os espaços limitados de seus personagens.

Melhor que o anterior, Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras tem a seu favor um roteiro mais sólido, capaz de trazer uma força maior para seu trio principal e arco condutor da história. Assim é uma pena que pare por aí, já que Guy Richtie perde a mão durante o decorrer do longa e aposta em escolhas desorganizadas que impedem que a série dê um passo maior. De qualquer forma, Robert Downey Jr e Jude Law servem como consolo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s