Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)

Thriller é sem dúvida um dos gêneros mais fascinantes do cinema. Costumo dizer que se minimamente bem feito, tem a capacidade de se transformar em algo empolgante, dando-lhe até mesmo uma impressão experiencial muito maior e instigante do que ele realmente é. Assim, mesmo que a história em si não seja nada espetacular ou inovadora, se bem conduzido, o thriller, definitivamente, é capaz de te englobar rapidamente de maneira alucinante ao ponto de não desgrudar da poltrona do cinema. Acontece que, não bastasse isso, estamos falando também de David Fincher e do texto de Stieg Larsson, que juntos, só poderiam render a obra-prima Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Best-seller por todo o mundo, a trilogia Millennium ganha agora sua versão definitiva para o cinema – há também a versão sueca, e original, porém que deve ser prontamente esquecida –. E nada melhor do que o magistral texto de Larsson cair nas mãos de Fincher. Dono de uma filmografia praticamente irretocável – inclusive os menosprezados O Quarto do Pânico e O Curioso Caso de Benjamin Button – Fincher parece, entretanto, cada vez mais se firmar como um dos principais diretores do gênero thriller, já que agora, Millennium soma-se a sua lista com Seven: Os Sete Crimes Capitais, Zodíaco e A Rede Social. E apesar do estranhamento com relação à menção deste último filme referido, A Rede Social tem sim uma estrutura nitidamente de thriller. Aí então que voltamos ao início desta análise: Mesmo que a história seja não muito interessante ou promissora, como é o caso da criação do Facebook – que por mais interativa que possa ser, o longa não só é superior ao fato em si, como também a obra literária –; quando bem executada dentro dessa estrutura que Fincher parece ter estabelecido como seu grande ápice, é capaz de ultrapassar o limite lógico de seu texto real.

Mergulhando o espectador em um mundo complexo e sombrio, o excelente roteiro de Steven Zallian começa abordando o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig), que tenta lutar e se distanciar de uma sentença de difamação, onde o dono da revista Millennium teria acusado sem fundamento um poderoso empresário. Assim, Mikael se dirige para uma remota ilha na Suécia onde um assassinato não solucionado lhe é posto pelo magnata Henrik Vanger (Christopher Plummer). O caso é referente ao desaparecimento da sobrinha de Vanger. Detalhe, há quatro décadas… Paralelamente a isso, somos apresentados a Lisbeth Salander (Rooney Mara) uma hacker extremamente habilidosa, mas que claramente sofre graves problemas psicológicos.

Em uma direção novamente espetacular, Fincher rapidamente explora a ambientação incômoda de seu desenho de produção, capaz de criar um clima de tensão durante as duas horas e meia de filme, até mesmo em uma simples navegação pela internet (só faltou Daniel Craig acessar o Facebook…hum). Dando sustento ao clima investigativo, Fincher passeia pelo chalé, onde Mikael está abrigado, de maneira fascinante, explorando e enfatizando a solidão e frieza do local, tanto literal quanto psicológica. Logo, as infindáveis geadas que castigam o solo sueco – e aqui reside outro acerto do filme, se passar no país europeu, já que o contexto sócio-político também é englobado – concebem um acolhimento estático, se aliando a magistral mixagem de som, que faz questão de frisar ainda mais o isolamento de Mikael, acentuando o barulho dos ventos, além de constantemente escutarmos ruídos indecifráveis, e por isso, arrepiantes. Fincher também não tem pudor em mostrar cenas fortes como um estupro ou um animal esquartejado, trazendo assim ainda mais seu lado soturno.

E mais! O diretor conta, novamente, com a soberba montagem de Angus Wall e Kirk Baxter (vencedores do último Oscar por A Rede Social), que criam transições sempre ágeis e diretas, distribuindo de maneira intrigante a composição dos dois personagens centrais. Portanto, com mais de uma hora de filme, Mikael e Lisbeth ainda nem se encontraram, mas a montagem fluxa que dá ritmo ao longa, jamais transparece isso como algo incômodo, pelo contrário, além do aprofundamento cuidadoso de ambos (os créditos iniciais demonstram isso) explora um clima tentadoramente perigoso. Sim, porque nos sentimos convidados a investigar, correr e tentar entender qual a ordem lógica da investigação de Mikael. Comitantemente, a fotografia de Jeff Cronenweth também se conjunta abstratamente, apostando na falta de saturação, dando novamente a Mikael um fator isolante, além, é claro, da evidente estilização das situações que envolvem o passado dos personagens – o tom amarelado pode refletir, por exemplo, um jornal já velho e desgastado, afinal, Mikael e Lisbeth se afundam em notícias e contextualizações de anos atrás… Percebam na verdade que Fincher deixa claro que o fator tempo sempre será algo influente em sua narrativa. Assim, quando Mikael percebe que uma possível pista já não existe, ele rapidamente a risca e lamenta de maneira solene. Dessa forma, o suposto/indecifrável crime aconteceu há 40 anos, o que certamente dificulta o trabalho de Mikale, e é importante que a produção faça questão de salientar isso (várias vezes imaginei estar vendo James Bond em um episódio de Cold Case).
Fechando com chave de ouro os aparatos técnicos de Millennium, a majestosa trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross (também vencedores do último Oscar) cria arpejos magníficos, fazendo uma incrível mescla entre música eletrônica com acordes distorcidos, onde, ao reconhecermos diluído na trilha riffs de Immigrant Song do Led Zeppelin, percebemos o cuidado cirúrgico da dupla, que absurdamente foi excluída do atual Oscar.

Em grande atuação, Daniel Craig entrega Mikael com grande vivacidade, assim ao perceber quem uma pista não lhe será mais útil, ele não esconde sua insatisfação, lamentando o fato, mas prontamente o apagando, sem que este crie empecilhos para sua investigação. Craig também consegue inserir em Mikael grandes atributos que o transformam em algo palpável para o público, dessa forma, quando alguém lhe transmite que, ele, mesmo sabendo dos perigos de seu trabalho, ainda assim continuou se afundando, não podemos deixar de louvar a caracterização de Craig.
Christopher Plummer – aliás, em melhor performance do que Toda Forma de Amor, filme que lhe renderá o Oscar – dá a Vanger uma ambigüidade sempre acesa. Então, jamais confiamos plenamente nas atitudes de Vanger, já que ao mesmo tempo em que ele demonstra extrema devoção a sua sobrinha, também dá deixas para que suspeitemos de sua ambição, já que o magnata também tinha outras ambições – a revista Millennium. Stellan Skarsgård, Robin Wright e principalmente Yorick van Wageningen completam o elenco secundário com grandes performances.

Mas sem dúvidas os holofotes devem cair, merecidamente, sobre Rooney Mara. Criando uma Lisbeth perturbadora, Mara passa por uma transformação física notável, seja por suas sobrancelhas raspadas, ou por um claro emagrecimento. A atuação de Mara, em vista disso, depende excessivamente de sua expressão corporal, dessa forma, não só os piercings e tatuagens servem como alusão a sua personalidade, como também sua postura e vestimenta. Rooney Mara consegue também não caricaturar Lisbeth, já que concebe sentimentos e vida a sua personagem – mesmo que esses jamais possam ser compreendidos – assim, ao a vermos jogando uma partida de xadrez com uma pessoa querida, não chegamos a estranhar a situação, já que Fincher faz questão de ressaltar que Lisbeth não é um ‘monstro’, apenas uma habilidosa, porém singular ao seu modo, agente. E ao observarmos, nos primeiros minutos, determinado personagem afirmando isso, deixa claro todo seu engenho pré-estabelecido.

Em mais uma amostra do magnífico talento de David Fincher, Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres é uma obra perturbadora, não só pelo mergulho profundo que os personagens centrais são submetidos (e nada melhor que os créditos iniciais para sintetizar isso), como também pela estética empregada, enfatizando um tom sombrio e racional ao longa. Aliando-se ao poder do gênero, Fincher o explora até a última gota… E o resultado não poderia ser outro.

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