Histórias Cruzadas (2011)

Vamos deixar uma coisa bem clara rapidamente. Histórias Cruzadas é um filme deplorável. E a todo o momento eu ficava aguardando que o medíocre diretor Tate Taylor focalizasse uma criança com câncer pedindo votos para o Oscar. Ah, e não bastava apenas isso, por via das dúvidas a criança também deveria ser negra, homossexual e portadora de deficiência física. Afinal, é dessa forma desrespeitosa que Histórias Cruzadas trata um tema tão forte, importante e delicado: De maneira asquerosa e absolutamente nojenta.
É por essa razão que sempre fico indignado como filmes como esse e, por exemplo, o medíocre Minhas Mães e Meu Pai conseguem o apreço de críticos e votantes da Academia. Tentarei não direcionar o foco apenas para os norte-americanos (mas percebam como filmes assim sempre são vangloriados muito mais nos EUA do quem outras partes do mundo, como se estes tivessem uma incrível obrigação moral de auto-afirmarem que já superam o preconceito, e já sabem que a intolerância foi um dos piores períodos do Mundo… Nossa, que povo avançado os americanos! E os votantes da Academia adoram isso!). Mas espera aí… Não é no mínimo preconceituoso utilizar o preconceito apenas para ganhar prêmios? Já que se você fizer muita força, as únicas mensagens que Histórias Cruzadas irá lhe passar são: O preconceito não vale à pena (poxa…) e quero uma indicação ao Oscar. Oh céus, caímos em um paradoxo, que genialidade!

Um dos principais defeitos narrativos do roteiro de Tate Taylor é a forma com que ele busca desenvolver seus personagens, que como o próprio faz questão de salientar, seriam figuras representativas da sociedade norte-americana da época. O que acontece é que Taylor apresenta apenas dois tipos de personagens: Bons samaritanos e nazistas refugiados em solo americano. Ou então, brancos são sinônimos de mau caráter (com exceção das ‘salvadoras’), e negros de pessoas que não conseguiam lutar por seus direitos, e por mais que alguns deles tenham atitudes que mereçam represália (torta de merda foi uma das cenas mais constrangedoras que já tive o desprazer de presenciar) são tratados como coitadinhos, em outras palavras, para o roteiro de Taylor, as empregadas negras são resumidamente pessoas INCAPAZES. Então Histórias Cruzadas perde sua força por não desenvolver como o preconceito era algo regado na sociedade, quase imperceptível para visão daqueles que praticavam – o que rapidamente demonstraria o quão o cenário era gravíssimo e preocupante – , e nós até percebemos diversos momentos capazes de renderem esse estudo, como um possível aprofundamento do porque de uma pessoa que passa sua infância inteira sendo criada por uma empregada negra, quando adulta, a tratará de forma preconceituosa? Onde estava o problema capaz de criar essa grave distorção? Mas ao que parece a personagem de Bryce Dallas Howard é assim apenas por ser ‘chata’, e não porque aquilo foi passado para ela de uma forma tão significante capaz de deteriorar seu caráter. Da mesma forma que os bons samaritanos vividos pela salvadora Emma Stone e Jessica Chastain demonstram a visão completamente distorcida de Taylor, como no patético momento em que a personagem de Chastain vai comer junto com a de Octavia Spencer, e a mesma pensa: ‘Oh, os brancos vão nos salvar… Agora sim eu tenho coragem para enfrentar meu marido e ir na luta de meus direitos! Obrigado senhora!’ Pior ainda seria se eles realmente salvassem… Ah espera, a personagem branca de Emma Stone salva as empregadas negras? Então se eu fosse maldoso, diria que em algum lugar no pôster de The Help (vejam o nome original…) deve estar escrito ‘Nos agradeça’.
Mesmo que a direção de arte recrie de maneira até certo ponto adequada a época, como nas casas aconchegantes com imensos jardins, diferentemente das moradias das empregadas, a saturação excessiva de sua fotografia nos dá impressão de estarmos vendo um comercial de boneca, onde o alto teor de vermelho e amarelo, por exemplo, trazem uma artificialidade tão cretina quanto suas personagens.

E se existe algo que pode ser destacado positivamente – medindo tais palavras – em Histórias Cruzadas são as boas atuações de Viola Davis e Jessica Chastain. A primeira consegue entregar uma performance convincente como Aibileen, dentro do possível do que sua personagem lhe oferece. Assim, Davis, quando relata sua vida, por exemplo, concebe um alto grau de emoção a situação. Enquanto isso Chastain não tem medo de se entregar a artificialidade de sua personagem, que poderia certamente ser uma das grandes atrações da próxima novela das sete. Sabendo que tinha em mãos um estereótipo ambulante, Chastain, em um ano repleto de grandes atuações (mas nada explica que tenha sido indicada ao Oscar por esse papel), pelo menos acaba se entregando a isso, ganhando certo destaque… De qualquer forma, Terrence Malick deve ter perdido a fé na humanidade.
Entretanto a eficiente Bryce Dallas Howard é capaz de caricaturar ainda mais Hilly, fazendo-a uma pessoa insuportável, não só com relação aos negros, mas como a tudo que respira… Emma Stone, feia, pouco faz de interessante, e ainda dá a entender que Skeeter só entrou neste terreno porque parece estar muito mais preocupada em ganhar pontos com sua chefa…
Agora o mais preocupante é a absurda Octavia Spencer, o Fernando Caruso de Hollywood. Tendo como única técnica arregalar os olhos, Spencer e sua personagem são a figura concreta da artificialidade cretina e mau caráter de Histórias Cruzadas, já que mesmo ela tendo atitudes condenáveis, Taylor faz questão de relevá-las, o que não posso deixar de entender como: ‘Vejam, eles não podem ser julgados como nós. Mesmo ela tendo feito uma merda, vamos passar a mão na cabeça dela’. Como se o fato de ser branco ou negro aliviasse o julgamento de suas atitudes. E isso é repugnante.

Sendo lamentavelmente uma obra que desperdiça situações tão delicadas, em função da medíocre ambição de Tate Taylor em conseguir um lugar no Oscar, Histórias Cruzadas é um filme lastimável. O longa simplesmente sub-julga os negros como seres incapazes de lutarem por seus direitos, afinal fica mais do que claro que estes só foram salvos pela magnitude e bondade de… uma branca! Vomitando estereótipos, utilizando o preconceito como muleta para prêmios e pintando uma imagem artificial e asquerosa de um período tão delicado, não há nada que justifique o apreço de ‘White People Solve Racism’ (clique aqui e veja se o poster dissesse a verdade). Nada mesmo. Nem mesmo uma ídolo teen mudando toda a realidade de um estado dominado pela segregação. Imagino também que Tate Taylor acredite que a Princesa Isabel lutou e acabou sozinha com a escravatura…

3 comentários sobre “Histórias Cruzadas (2011)

    1. Crítico justamente o fato de rebaixar os negros e elevar a “façanha” dos brancos em salvar os negros. Procure ler ou melhorar sua interpretação antes de escrever tanta estupidez. Ou ao menos guarde sua ignorância pra você mesma.

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