O Espião que Sabia Demais (2011)

Adaptações de livros para o cinema sempre foram temas espinhosos. Transpor o conteúdo das páginas de um livro para as telas nunca foi uma tarefa fácil. O que você lê – e o que você imagina a partir do que leu – nem sempre se parece com o resultado final de um filme adaptado a partir de um livro homônimo: ele pode variar imensamente. Stanley Kubrick adorava desconstruir o conteúdo escrito para poder adequar à sua visão de como a história deveria ser contada nas telas – Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980) são alguns de seus melhores exemplos – e Francis Ford Coppola adaptou literalmente página por página O Poderoso Chefão (1972) de Mario Puzo. Algumas adaptações chegam as ser 99% literais (porque o final delas foi alterado) como Entrevista Com O Vampiro (1994) dirigido por Neil Jordan e Watchmen (2009) dirigido por Zack Snyder; e existem outros casos onde a aparência ou a personalidade das personagens é radicalmente alterada como o vilão Hannibal interpretado por Anthnony Hopkins ou o herói Sherlock Holmes atualmente vivido por Robert Downey Jr.  Em O Espião que Sabia Demais (2011), dirigido por Tomas Alfredson (Deixa Ela Entrar) o desafio de adaptar o livro homônimo do escritor John le Carré  pelo casal de roteristas Bridget O’Connor e Peter Straughan foi realizado com sucesso.

No início dos anos 70 suspeitava-se que exista um agente duplo no meio do conflito entre EUA e URSS dentro do Circo – o Serviço Secreto Britânico – e o cabeça da Inteligência  Britânica Control (John Hurt) envia Jim Prideaux (Mark Strong) para uma missão na Hungria a fim de descobrir quem seria o traidor. A operação fracassa desastrosamente e Prideaux e Control são forçados a se aposentar. George Smiley (Gary Oldman) também é forçado a se afastar das suas funções. Com isso Percy Alleline (Toby Jones) se torna o novo superior tendo Bill Haydon (Colin Firth) como segundo em comando e Roy Bland (Ciarán Hinds) e Toby Estherhase (David Denick) como aliados. Os quatro iniciam a operação Bruxaria, alegando possuir material da inteligência russa de alto valor e decidem propor a inteligência americana a troca do seu material pelo deles estreitando as relações entre seus serviços e a caça ao traidor dentro da organização tendo ambos Smiley e Control como suspeitos (!).

O excesso de sigilo e as exigências pouco comuns para a realização da Bruxaria chamam a atenção de Oliver Laicon (Simon McBurney), que encara tudo com desconfiança e traz Smiley de volta ao jogo. Ou melhor, ao Circo. Ele e Peter Guilliam (Benedcit Cumberbatch) começam a investigação. Aqui o ritmo do filme desacelera mais do que o normal até ambos encontrarem Ricki Tarr (Tom Hardy), um espião foragido cujos relatos de suas operações entregavam pistas sobre o agente duplo na organização.

Para poder apreciar este filme você deve esquecer de 007, Bourne e todos os outros tipos de filme de espionagem que Hollywood já produziu. O ritmo é lento e desacelera ainda mais na segunda parte do filme quando o time que vai investigar a Bruxaria é formado e Tarr aparece. A tecnologia que você vê ali é a usada na época, assim como a CIA, o FBI, a KGB, o MOSSAD e outros também usavam naquele período e a guerra fria era travada abertamente nas sombras e não às claras. O grande trunfo dessa adaptação é se livrar do execesso de locações e detalhes e focar nas idíeas principais da história como uma bela sinopse filmada em cores frias e quase sem contrastes. É um mundo pintado de cinza e de ocre, de tons mortos de azul do mais puro desencantamento, como o do personagem George Smiley. Gary Oldman nos entrega um Smiley menos dissimulado e mais simpático dos livros para nos depararmos com um homem amargurado e desiludido com a prostituição de valores que seu sistema de trabalho agora vive, antes regido pela ética e pelo CONTROLe – trocadilho infame desse que vos escreve – aliás, codinome do personagem vivido por John Hurt de maneira impagável. Smiley se destaca sutilmente no meio de um elenco estelar britânico – um elenco que atua e não faz só caras e bocas – e sua recompensa (ou redenção) o deixa finalmente em primeiro plano literalmente aos olhos de quem o vê. Esse filme é um caso raro onde os produtores – que são os donos do filme – realmente trabalharam para que a adaptação do livro para o cinema fosse a melhor possível. Aqui as decisões artísticas pesaram mais que as comerciais – diferente de Hollywood – e o resultado foi um pequena obra prima que lembra os riffs de guitarra do Keith Richards, dos Rolling Stones: exatidão e economia, sem excessos… onde menos é mais.

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