Caminho Para o Nada (2011)

Termina o filme e você continua tentando montar a história de maneira lógica. Isso é óbvio, já que acabamos de visualizar algo fora do comum. E na verdade, se existe alguma coisa que menos há de importante em Caminho Para o Nada é sua história. Afinal, qual é ela? Afinal, em um meio onde o áudio visual fala mais alto, porque sempre exigimos um começo, meio e fim? Assim sendo, Monte Hellman não tem medo em entregar exercícios lingüísticos que lhe imergem em seu longa de maneira eficiente, e por mais que você procure, procure e procure algum indício de lógica, o sentimento de excelência será quase o antídoto para o de frustração.
Frustração porque não conseguimos montar a história racionalmente em nosso consciente, e claro, porque sempre temos o vício de tentar encaixar o roteiro de modo a que possamos sair do cinema e contar que ‘vi um filme que falava sobre isso’. Mas Caminho Para o Nada fala sobre… nada. Ou fala sobre ambição? Metalinguagem? Cinema? E porque criar uma birrinha porque não recebo um enlatado, ou ‘mais uma merda de um filme de Hollywood’, onde recebo sim algo que se preocupa primeiramente com imagem?

No roteiro escrito por Steven Gaydos, acompanhamos Mitchell Haven, um jovem diretor prestes a rodar seu novo filme, baseado em um crime verídico protagonizado pelo político Rafe Tachen e sua jovem amante Velma Duran. Envolvidos em fraude e assassinato, os dois desapareceram misteriosamente, deixando suspeitas de que teriam se suicidado. Para o papel de Velma, Mitchell escala a desconhecida Laurel Graham, impressionantemente semelhante à personagem real. O diretor fica obcecado por sua atriz e, quando as filmagens começam, ele já não consegue distinguir entre ficção e realidade.

O poder de imersão de Caminho Para o Nada talvez seja seu grande trunfo. Sendo assim, diversas vezes colocamos em dúvida o que acontece em tela, já que sabemos que tudo pode passar – ou não – de uma ‘sabotagem’. Afinal, ao escutarmos o ‘corta’, logo encaixamos determinada cena em uma das linhas narrativas do roteiro de Gaydos. Porém me atenho a usar o termo ‘linhas narrativas’ já que Road to Nowhere deve conter ao menos uma dúzia delas, que se embaralham, atravessam e sabotam-se deixando o espectador sempre ávido e em dúvida do real trajeto do núcleo de seus personagens unidimensionais.
Dessa forma, o esquecido diretor Monte Hellman preocupa-se em transitar pela ficcional ficção e realidade ficcional… que na verdade é uma ficção, certo? Se esta última frase lhe deixou confuso, ou ao menos irritado, imagino que o espírito já está sendo desvendado.

Capaz de fazer parecer Adaptação de Charlie Kaufman um livro didático – onde me refiro ao cuidado com a linguagem, já que o filme de Kaufman é bem superior – Caminho Para o Nada acaba tropeçando exatamente neste ponto, já que se por um lado deixa claro que irá preferir ‘brincar’ com diversas técnicas do cinema, parece em certo ponto querer se aprofundar na complexidade de sua história. O resultado disso é que passamos então a cobrar que esta sua história seja de fato cuidadosamente aberta.
Utilizando planos belíssimos, no qual destaco o inicial onde a belíssima Shannyn Sossamon seca o cabelo, Hellman usa e abusa do ‘tal áudio visual’, combinando a fotografia imersa de Josep M. Civit com canções justapostas as diversas camadas do longa.

Exercitando a linguagem cinematográfica de maneira a deixá-la de lado (!), Hellman constrói uma obra inegavelmente instigante, transcorrendo não apenas há seu roteiro, mas como também a elaboração de planos visualmente bem amparados. Sinta-se incomodado e cutucado pela história de Velma Duran. E se de fato esta não chega a lugar algum, certamente é porque nem ao menos se deu ao luxo de procurar seu real destino.

Um comentário sobre “Caminho Para o Nada (2011)

  1. Olá Filipe,

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    Marcos
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    marcos@cinematotal.com

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