Jovens Adultos (2011)

Gravidez na adolescência, crise aérea, tabagismo, ‘síndrome de adultismo’… O jovem diretor Jason Reitman parece estar sempre atento a ‘acontecimentos’ da realidade para transpô-las em suas obras, sempre de maneira orgânica, e por isso, reais. Dessa vez, Reitman utiliza como base a tal síndrome referida acima, que você certamente já deve ter presenciado. Sabe aquele(a) adolescente que com 15 anos já namorou umas 10 pessoas, e em quase todos os ‘relacionamentos’ disse amá-lo(a) e ter sido a coisa mais importante de sua vida? De postar fotinha em redes sociais com ‘S2’ e afins? É a tal síndrome já apontada anteriormente nos cinemas, como por exemplo, com John Hughes no excelente Gatinhas e Gatões, onde hoje podemos fazer uma analogia com o adolescente independente (não se atreva a se esquecer desse termo) que se acha adulto, afinal transita em ambientes majoritários, mas que necessita da mãozinha dos pais… ‘Já sou adulto, encho a cara e vou à balada. Mas papai precisa pagar a bebidinha e me levar de carro’.

Essa mensagem, a meu ver, fica clara em Jovens Adultos, e o grande trunfo de Reitman é que ela jamais é tratada de forma expositiva, já que teoricamente Mavis (Charlize Theron) escreve sobre adolescentes bem desenvolvidos, e por isso, já adultos, quando na verdade ela é um verdadeiro exemplo do oposto: Uma adulta, porém mentalmente adolescente.
Sua vestimenta com roupas da Hello Kitty; o cachorro típico; a ligação entre afogar as mágoas com bebida; birrinhas e principalmente, voltar a sua cidade natal com uma proposta completamente infantil: Refazer seu relacionamento com um velho namorado, apenas por ter recebido um cartão eletrônico avisando do nascimento do filho do mesmo.

Escrito por Diablo Cody – parceira de Reitman em Juno – o roteiro acompanha Mavis Gary (Theron), uma escritora de literatura juvenil que retorna para sua cidadezinha natal para reviver seus dias de glória e tentar reconquistar seu namorado dos tempos de escola, Buddy Slade (Patrick Wilson), agora casado e feliz. Quando sua volta para casa se torna mais difícil do que ela imaginava, Mavis cria uma ligação fora do comum com um ex-colega, Matt Freehauf (Patton Oswalt), que também ainda não superou totalmente o colegial.

Estabelecendo rapidamente o cenário em torno da personagem Mavis como algo sempre inerente a sua personalidade, Reitman enrijece sua narrativa trazendo uma dinâmica pura à realidade do arco central de Jovens Adultos. Dessa forma, o diretor aposta em tomadas belíssimas que isolam Theron em seu campo visual, como nos instantes iniciais em que o diretor usa e abusa de tal estética, trazendo-a sempre reflexiva… Quer dizer, na verdade percebemos que Theron não está refletindo, mas sim no vácuo… Seja de sua existência passional, profissional ou emocional. E não é preciso que Reitman exponha isso de maneira gráfica, basta presenciarmos a montagem de Dana E. Glauberman, que exclui situações que teoricamente Mavis estaria ainda mais ausente, como no momento em que, em um bar, a escritora começa a conversar com um parceiro, e rapidamente pulamos para ambos deitados na cama. Ou seja, Reitman diz de maneira sutil a forma como Mavis leva sua vida: ‘Vamos pular essa parte chata?’.

De maneira similar, o roteiro de Clody buscar inserir uma mesma introspecção a Mavis, trazendo como sua característica uma adolescente enrustida no corpo de uma adulta, seja com suas ações intempestivas – e não me refiro apenas ao simples fato de voltar a sua cidade natal por um motivo banal, mas como também a abrir um berreiro em situações não muito agradáveis – ou quando, depois de um grave acontecimento, ela transpõe estar preocupada apenas por ter molhado sua roupa nova (e cara). A primeira vista, poderíamos entender que Mavis estaria apenas despistando e agindo de maneira antipática, mas conhecendo sua psicologia, não é nenhum absurdo que ao final dessa sua trajetória a única lição que a jovem tenha aprendido seja: ‘Não retorne a cidade natal, pois pode acabar perdendo uma blusa cara’. É nesse ponto que o roteiro de Clody escorrega, quando tenta inserir uma abordagem semelhante à de Mavis em outros personagens ao seu redor, mais precisamente a Matt e Sandra (irmã de Matt e vivida por Collette Wolfe), esta última apenas em uma cena desastrosa.
Matt, vivido de maneira surpreendente por Patton, a partir de certo momento representa apenas um estereótipo vulgar, contrapondo quase tudo que Jovens Adultos traça desde seus minutos iniciais, assim, ao percebemos que Patton guardo rancor porque ‘perdeu a atenção de deficiente da vez’ não podemos deixar de imaginar isso como algo arbitrário e completamente sem sentido, mesmo que Reitman até tente estabelecer uma lógica para isso (o nerd abandonado e menosprezado da escola).

Mas que bom que no final percebemos que na verdade Jovens Adultos é, no fundo, um grandíssimo estudo de personagem, entregue de maneira postural por Charlize Theron. Magra e completamente a vontade com a infantilidade de sua personagem, Theron oferece uma performance sempre segura e não-caricata, algo que certamente, ao ler o roteiro, flertou que poderia acontecer. Dessa forma, a atriz não cansa de puxar seus cabelos ou agir como uma verdadeira criança, dando sentido tanto a sua profissão (pelo anteposto, é claro) como também a essa jornada já sem muito o que render.
Com tudo isso, Jason Reitman entrega uma obra pura que consegue transitar de maneira leve por uma personagem resumidamente triste e por isso, ou consequentemente, presa a situações do passado.

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