2011, Cinema, Críticas

A Toda Prova (2011)

A fase não é das melhores para o diretor Steven Soderbergh. Já vencedor do Oscar pelo apenas mediano Traffic, o diretor parece, a cada novo projeto, tentar justificar seu nome como uma das ‘mentes pensantes’ de Hollywood, sendo que ao cogitar sua aposentadoria meses atrás, talvez não tenha sido uma hipótese completamente errônea. Não que Soderbergh seja um diretor medíocre, mas parece alguém limitado sempre por uma ambição em criar algo grandioso, acabando sempre por alongar grandes expectativas que rapidamente, ao decorrer de seus longas, são quebradas instantaneamente. Foi assim, por exemplo, no recente Contágio, e agora mais uma vez, com o apenas regular A Toda Prova.
Ambos os longas são claramente figuras sem identidades, que permeiam pelo concreto estabelecido por suas narrativas. Mas na verdade, percebam que Soderbergh parece imaginar que sua ‘identidade’ se limita apenas as saturações das já batidas fotografias de Peter Andrews (Oh!!!, pseudônimo de Soderbegh), que se em Traffic surgiam como figuras narrativas importantes, aqui em A Toda a Prova (como em Contágio) são apenas exercícios mesquinhos que confeitam seu mais novo longa.

A Toda Prova tem seus bons momentos, principalmente aqueles que são seguidos por perseguições e batalhas corporais, otimamente coreografadas pela equipe técnica do longa. Dessa forma, quando observamos uma intrigante sequencia onde Mallroy persegue um fugitivo, culminando com golpes geniais, imaginamos estar presenciando uma espécie de ‘Identidade Mallroy’. Mas falta quilômetros para Soderbergh alcançar Bourne – e é inevitável todo longa de ação ser comparado, nem que seja minimamente, com o carro chefe dos filmes de ação dos últimos anos –. Primeiro o diretor peca ao não conceber um ritmo mais autêntico a produção, relevando as perseguições a momentos únicos e exclusivos, de relevância nula ao arco dramático de seus personagens, e para isso, o diretor inclusive tenta ratificar a irritante trilha sonora de David Holmes, que parece não saber o gênero do longa que compunha, já que seus arpejos mais parecem terem sido retiradas de pérolas do terror.

A falta de identidade é tamanha, que inúmeras às vezes temos a impressão de estar vendo uma mescla entre Munique, O Espião que Sabia Demais, Missão Impossível, No Limite da Mentira e Salt, uma constatação que qualquer filme deve sempre correr para o lado contrário, já que, ao flertar com obras tão distintas, é inevitável que ela deixe de criar uma ‘cara própria’. Dito e feito.
O fraco roteiro escrito por Lem Dobbs, acompanha uma ex-oficial de operações especiais, Mallory Kane (Carano). Ela trabalha para um grupo privado de ações militares (administrado pelo empresário interpretado por McGregor), é traída por um integrante da sua própria equipe – e agora busca vingança.
Outro ponto que pouco ajuda Soderbergh é o fraquíssimo roteiro de Dobbs, que cria arcos completamente dispensáveis, além de dar poucos momentos inspirados nas espionagens de Mallroy. Dessa forma, A Toda Prova breca nas reticências de uma história banal, rasamente aprofundada e completamente desalmada.

Em um elenco repleto de estrelas, entre elas Ewan McGregor, Michael Fassbender, Michael Douglas, Antonio Banderas e Channing-cara-de-copo-vazio-Tatum, quem acaba surpreendendo é a lutadora de MMA, Gina Carano. Estrelando uma produção de grande porte, a lutadora não faz feio e, além de obviamente entregar sequencias sempre realistas com seus golpes e movimentos precisos, consegue também demonstrar certa – sutil – sensualidade, algo condizente com a figura de Mallory.

Sendo basicamente sustentado por isoladas cenas de ação, A Toda Prova nada mais é que mais uma amostra do quão Soderbergh parece perdido em suas ambições, esquecendo novamente que de nada adianta elaborar grandes tomadas, se estas não forem encaixadas dentro de uma narrativa que flua e crie impacto, ou ao menos um elo com o público. E uma vasta paleta de cores não é identidade, então alguém, por favor, recupere a de Steven Soderbergh… Ou que ele se assuma de vez apenas como Peter Andrews.

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