2012, Cinema, Críticas

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012)

Desde os primeiros minutos do excelente Batman Begins, Christopher Nolan já deixava claro que o homem-morcego, agora, seria calcado na realidade. E mesmo que aquele filme flertasse com a ‘grandiosidade lírica’ sempre presente em filmes de heróis (a tal Liga das Sombras, que na verdade, era seu ponto mais fraco), toda a construção do personagem era o que de melhor tirava-se da obra de 2005. E se Begins pisava na realidade, seu marcante sucessor Batman: O Cavaleiro das Trevas se afundava nela, sendo assim, o complexo círculo entre ideologia, política, sacrifício, descrença e diversos outros fatores capazes de construir um grandioso drama, davam a Batman uma força expressiva, força essa catalisada pelo maior vilão que uma obra-prima como aquela poderia ter: O Coringa.

Dessa forma, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é praticamente uma dissertação, já que busca a todo o momento trazer diversos elementos de seus filmes antecessores, fazendo com que a tal estúpida mania em tentar elencar: ‘Esse é melhor que aquele’, dentro dessa magistral trilogia vá por água abaixo. Afinal, eles são peças de uma única história, continuações que estão interligadas de maneira orgânica. Sendo assim, o maior mérito de Cavaleiro das Trevas Ressurge é mesclar parte da fantasia de Begins (afinal, estamos falando de um mundo onde possamos aceitar a existência de figuras como Ra’s Al Ghul), com a realidade de Cavaleiro das Trevas (onde aceitamos a loucura do Coringa como a força motriz de suas ações, e não um mero plano específico), dando assim uma forma ao Batman de Nolan, porém não deixando de lado um final épico para um personagem tão importante.

Com tudo, o roteiro escrito pelos irmãos Nolan, mesmo que escorregue aqui ou acolá (como na terrível personagem de Marion Cotillard e algumas incoerências lógicas de espaço-tempo) consegue trazer elementos sensacionais ao universo realista de Gotham. Bruce Wayne passe a ter problemas médicos, afinal, todo o desgaste de suas diversas ‘aventuras’, inevitavelmente castigariam seu corpo. E é louvável então que Nolan preocupe-se em focalizar seu problema no joelho, assim como sua depressão e isolamento de um mundo que o próprio Bayne julga como desinteressante e sem esperança. Da mesma forma, o roteiro se aprofunda ainda mais na catarse Bruce Wayne, dando a ele um papel dramático que contorna perfeitamente os desvios antes existentes em filmes do gênero preocupados exclusivamente com o visual, e menos com o emocional. Assim, podemos realizar uma analogia que soa poética com a motivação de Bane: O vilão não quer simplesmente agredir o físico de Wayne, ele quer sim agredir a alma do herói. É aí que o Batman de Nolan atinge um patamar até então inalcançável. Neste universo, Wayne/Batman, no plural mesmo, como se fossem figuras distintas, ou melhor, complementares, sofrem, perdem a esperança, choram, enganam-se. Ressurgem.

Outro ponto a se destacar reside na cuidadosa construção dos mirabolantes planos do vilão Bane (Tom Hardy, em mais uma grandiosa performance). Mesmo que por horas tenhamos que, para uma não degradação, relevar certas situações (além da redução de sua importância com determinado evento na parte final do filme), Nolan consegue criar de maneira escalonada as pretensões e objetivos de Bane (as construções subterrâneas, o ataque ao avião, bolsa de valores e etc…), trazendo assim um ar grandioso e emergencial a Gotham.

Fechando (será?) a trilogia com a maestria digna de seus antecessores, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge é tudo o que deveria ser. Não se preocupa em ser superior a seus prólogos, e consegue, além disso, dimensionar o que de melhor havia se tirado deles, realizando uma interessante mescla entre realidade e lirismo. Gotham em caos é na verdade, a mais pura abstração de Bruce Wayne. Que demonstra ser não apenas o herói físico da cidade, mas sim um herói ideológico, como o personagem Blake (Gordon-Levitt, que quase rouba a cena) faz questão de nos mostrar. Assim, o evento chamado Batman trouxe a Gotham uma esperança de ressurgir, um sentimento de que outros cavaleiros brancos, não mais afundado nas trevas, possam surgir. E mais do que isso, o evento Batman trouxe ao cinema um super-herói enterrado em uma realidade social objetiva e clara: Aquela que aposta no medo para evitar o caos. Ou a que se utiliza do caos para causar o medo. A verdade é que o medo, palavra chave de Begins, e o caos, de Cavaleiro das Trevas, andam juntas, neste grandioso encerramento.

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