Marcados para Morrer (2012)

Um grande e possível problema que produções como Marcados para Morrer estão sujeitas a encontrar em seu diagnóstico final reside basicamente em sua premissa. E logo quando ela é revelada com as filmagens em câmera subjetiva, passamos a tentar entender o que levaria aqueles personagens a utilizarem este artifício DENTRO do contexto do filme. É dessa forma que os exemplares – e cabeças-chefes recentes do gênero (ou melhor, do estilo) – A Bruxa de Blair (este já nem tão recente, mas que pode ser substituído por Cloverfield), Atividade Paranormal e REC, degustavam da utilização básica do “Porque estamos filmando isso?”. E todos estes exemplares continham explicações palpáveis para o motivo da câmera ligada, isso ambientado, repito, dentro do filme.

Mas agora… Sinceramente, o que levaria o policial Brian Taylor, vivido de maneira apenas correta pelo limitadíssimo Jake Gyllenhaal, a instalar uma câmera em seu uniforme? E mais, levando seu parceiro a também adotar essa, me desculpem, grandiosa estupidez? Ok, mas tentaremos relevar essa opção duvidosa e inútil dos protagonistas, afinal sem ela, Marcados para Morrer não teria função nenhuma em existir. Acontece que o diretor David Ayer (dos bons Os Reis da Rua e Tempos de Violência) parece não entender a lógica que o próprio cria em sua narrativa. Afinal, durante toda parte inicial do filme, Ayer deixa claro que estamos vendo apenas o que a dupla está filmando, ainda se utilizando de artifícios básicos como o ‘Rec’ e o cronômetro ligado. Porém essas infelizes escolhas simplistas rapidamente são esquecidas (antes tarde do que nunca), mas a tal câmera subjetiva continua a existir – como na patética sequencia em que Mike Zavala (Michael Peña também correto) enfrenta um traficante em uma luta braçal, onde o único motivo que posso entender para a existência dessa sequência é que Ayer gostaria que seu público tivesse um ataque epilético.

Mas o grande absurdo por parte de Ayer é quando o mesmo passa a utilizar a câmera subjetiva… sem esta ser de fato subjetiva! Vejam bem, tudo o que estamos vendo, supõe-se, era exatamente o que Brian e Zavala estariam gravando (inclusive com Ayer deixando claro essa opção, dividindo a tela em duas fatias com a visão de ambos, além da simples explicação sobre o porquê das câmeras), acontece que em uma reunião no Departamento de Polícia, observamos DIVERSOS planos subjetivos que só seriam capazes de existir caso a câmera estivesse também instalada em uma mosca que perambulasse pelo reservatório. Oras, então porque insistir na câmera subjetiva? Desvirtuando COMPLETAMENTE a premissa de seu filme? Quebrando absurdamente a lógica narrativa que até então era criada até com certo cuidado pelo diretor? Acontece que abruptamente a câmera subjetiva começa a desaparecer, destacando-se apenas eventualmente, fazendo que com o tempo até nos esqueçamos de sua presença (o que de certa forma agradeci, tamanha a incompetência com que ela é trabalhada). Mas Ayer vai ainda mais longe, implorando para que realmente aceitássemos que não bastasse a estúpida dupla de protagonistas utilizarem as malditas câmeras, os TRAFICANTES também decidissem ligar suas TekPix e filmarem diversos momentos inúteis (porque raios um traficante filmaria, com a visão noturna ligada aliás, uma conversa onde todos discutem assuntos importantíssimos e estritamente particulares?. Porque isso?).

É dessa forma que o que Marcados para Morrer poderia mostrar de diferente, acaba sendo na verdade sua pior escolha. Porque o roteiro do próprio Ayer nada mais acompanha que uma básica história policial, ressaltando a amizade de ambos como grande fio condutor do longa, sendo aqui, ao menos, os melhores momentos da produção, além de bem elaboradas sequências de ação, como uma emboscada final (que vejam só, não se utiliza da câmera subjetiva).

Sendo novamente explorado, depois da febre da ‘estética caseira’ reerguida por Atividade Paranormal, este estilo começa a conviver com limitações básicas que a lógica de sua própria existência proporciona. E Marcados para Morrer é um grande exemplo desse problema conceitual atingido pela má utilização da câmera subjetiva. Quem sabe com as recentes escolhas infelizes, o estilo passe a ser mais bem abordado. Ou então mais moscas passarão a vida inteira correndo atrás de seu grande objetivo: Comprar uma TekPix e conseguir um lugar em Hollywood.

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