Selvagens (2012)

Não é de hoje que o diretor Oliver Stone, outrora louvado como um dos melhores de sua geração, principalmente quando virou figurinha carimbada em premiações como o Oscar (já venceu dois), decidiu deixar de lado seu aspecto hollywoodiano, passando a realizar obras que acariciariam puramente seu ego. Fazendo esta breve – e simples – constatação, chegamos também à outra característica muitas vezes presente em sua filmografia: O chamado ‘exercício de linguagem’. Quando você vê, por exemplo, um plano na diagonal. Qual o sentido daquilo? O que o diretor gostaria de passar com aquela escolha? E se você pensar, pensar e pensar, e chegar a conclusão de que aquilo fora feito apenas para ficar ‘bonito’, isto é o tal ‘exercício de linguagem’. Ele não exerce uma função na narrativa, tal alternativa, não condiz com os primórdios básicos do cinema: Toda cena deve levar o filme para frente.

Ok, mas aqui vai o que penso sobre o assunto. Não acho que um exercício de linguagem necessariamente seja algo ruim, ou um dos maiores exemplos que gosto de elementar para trazer e assegurar essa tese, o fenomenal Femme Fatale, de Brian de Palma, não teria sentido em existir. E eu não consigo analisar Stone sem também analisar seu ‘frisson estético’. Porque sua preocupação excessiva com o visual de seus filmes é algo latente em quase toda sua filmografia (o que dizer das bizarras escolhas em Assassinos por Natureza), e Selvagens também não foge a regra.

Está mais do que evidente que Selvagens é uma grande brincadeira realizada por Oliver Stone. Percebam, essencialmente em sua fotografia com cores fortes (verde e vermelho principalmente) uma produção entregue a um clima de aventura de sessão da tarde, nada condizente, primeiro, com a posição milionária estabelecida por ‘dois jovens maconheiros que dividem a mesma mulher’, Chon e Ben (interpretados de maneira incisiva por Taylor Kitsch e Aaron Johnson, respectivamente), e obviamente, na assustadora situação em que ambos passam a se envolver. Assim, a escolha de três atores jovens para protagonizar (a bela Blake Lively completa o trio principal), nada mais é que a abstração de Stone dessa sua estranha atmosfera. Muitas vezes, Selvagens nos insere em uma espécie de clima tropical: Mar, praia, muito sol, garotas… Porém rapidamente nos leva a uma sanguinária cena de tortura, que Demián Bichir jamais piscará novamente da mesma forma… E são nessas variações que Stone consegue empregar um ritmo altamente eficaz, trazendo não só este clima ‘aventuresco’, mas sim uma mistura, obviamente de ação, e claro, do humor negro (“Pare de me mandar pensar!!”).

Todo esse liquidificador de gêneros é ainda recheado, ou melhor, enfeitado, com a preocupação quase desenfreada de Stone em criar belos planos – como no momento em que Lado, vivido de maneira absolutamente magistral por Benício Del Toro, bafeja no rosto de Ophelia. Percebam que ao mesmo tempo em que Stone insere seus personagens em situações extremas, consegue relevar isso com essa sua maluca estética, contextualmente incondizente. Entendam, Stone dá o real, para depois tirá-lo. Porque ao mesmo tempo em que ‘compramos’ o caso complicado (ou uma grande enrascada… ahn? ) de Ben e Chon, pensamos: ‘Pera, isso está mesmo acontecendo?’. Mas não porque as situações em si sejam ilógicas, mas sim porque visualmente, tudo aquilo soa, vejam só, como um paraíso… E isso inexplicavelmente torna Selvagens uma obra acima da média. Fazendo inclusive, que possamos relevar certos escorregões do roteiro, desde um amontoamento de informações fúteis, até uma terrível e covarde escolha em seu ato final.

De todo modo, Selvagens passeia por gêneros, abusando sempre no choque visual, seja pelas cores, ou pela brutalidade. E o simples fato de duas palavras tão distintas estarem unidas, já reflete rapidamente aquilo que o tripé O, Ben e Chon representam. Selvagens então é tudo aquilo que poderíamos esperar da estranha parceria entre Oliver Stone e cogumelos. Uma sanguinária e colorida aventura.

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