Holy Motors (2012)

Uma plateia segue estática, com os olhos fechados e imóveis a ações externas. Não se emocionam, não interagem com a tela de cinema, quanto muito com quem está sentado a seu lado. E mesmo quando algo absolutamente estranho e que causaria espanto acontece – um enorme cachorro percorre o corredor – nenhuma alma sequer ousa se mexer, correr, espantar o animal, ou simplesmente ter qualquer reação. É com esta primeira cena que o diretor Leos Carax faz uma rápida análise sobre o Cinema em si, e que consequentemente é percorrida mais afundo através da complexidade de Holy Motors.
Não à toa, o próprio Carax atua na primeira cena, e nada mais simbólico que more nos fundos de um cinema; a chave da porta faça parte de seu corpo; e ao acordar, comece a observar a plateia, como se nos dissesse: “Vamos sentar e observar o que está acontecendo com vocês?”. E certamente nos cumprimentaria caso respondêssemos: “Sim. E vamos também analisar”.

A obra lhe causará incômodo, se agarrará em extremos, porque tudo o que vemos a partir do momento em que Oscar (Denis Lavant) entra em sua limusine, tem apenas um único e grande objetivo: Causar reação. Independente de qual seja ela: De pena com uma velha senhora corcunda que ‘só vê pés e pedras’; de repulsa com um cidadão que arranca os dedos de uma mulher com a boca; de entusiasmo com coreografias bem arquitetadas; de tristeza com uma tocante conversa entre tio e sobrinha… Holy Motors trabalha acima de tudo a atitude de seu telespectador. Ela será a força motriz que conduzirá toda narrativa do longa, que ao contrário do que possa parecer, segue sim uma lógica coerente – a sua feição, é claro.

A história pode parecer complexa, mas na verdade é bem simples. Oscar é um trabalhador. O seu emprego? Viver vários personagens. Porque ele faz isso? Quem o paga? Isso, na verdade, pouco nos importará. Dentro de sua limusine, aliás, Oscar guarda diversos disfarces, apetrechos, perucas, espelhos, maquiagem… Tudo para que estes personagens sejam os mais reais possíveis. E Leos é inteligente também ao colocar a limusine como símbolo da viagem introspectiva de Oscar. O automóvel tem uma forma tristonha, que apesar de belo e luxuoso visto por fora, por dentro o passageiro sente uma completa solidão.
Aos poucos vamos percebendo, no entanto, que tudo aquilo parece ter algo a mais do que um mero ensaio de personagens. Percebam como todos em volta de Oscar também estão vivendo seus papéis, como no momento em que, vivendo um tio já prestes a falecer, depois de, teoricamente encerrado a cena, ele pede ‘licença’ e sai normalmente, porém sua parceira continua triste, ou seja, permanecendo ainda na personagem, como se aquilo estivesse inerente a ela. Como se ela realmente estivesse chocada com o que acabara de acontecer, mesmo que… oras, nada de fato aconteceu. Ou será que aconteceu? Porque Oscar se machuca, personagens morrem… mas nada acontece. Ele é esfaqueado, mas no próximo plano já está de pé, limpando sua maquiagem. O que isso significa, aliás? São esses questionamentos que a todo o momento serão levantados pelo roteiro de Carax. E suas respostas parecem fadadas a seguir um mesmo sentido. Oscar não atua como outros personagens. Ele vive outros personagens. E por mais que possa parecer haver apenas uma pequena diferença entre esses termos, ela é muito maior do que possamos imaginar. Porque ao viver figuras tão diferentes, Oscar se relaciona, emociona, emite sensações fiéis aos estímulos de cada um que ele representa.

Porque Holy Motors fala de cinema como arte. Como um espetáculo visual, como a sublime sequencia em que Oscar, vestido com uma roupa de motion-capture (e não há referência mais óbvia ao cinema do que essa) contracena com uma parceira. Mas Leos Carax discute também a arte como algo internamente poderoso dentro do Homem, capaz de se entregar completamente a ela, mesmo que, como mostre sua primeira cena, ultimamente ande cada vez mais distante e inexpressivo com relação à arte como um todo. E Oscar não só vive personagens com personalidades absolutamente distintas, como também todas elas podem analogamente serem equiparadas com gêneros e estilos dentro do próprio cinema (musicais, drama, suspense, máfia, ficção…).

Parágrafo a parte agora, aliás, que deve ser reservado a sublime atuação de Denis Lavant. E se existir qualquer premiação que simplesmente não inclua o nome do ator entre os indicados, esta deve ser prontamente classificada como medíocre. Pois Lavant, assim como Oscar, busca o movimento como um ato de perfeição, entregando ao menos 10 personalidades completamente distintas de maneira assustadoramente irrepreensível. Abusando da expressão corporal para tratar as diversas personas, sua caracterização como a velha mendiga corcunda, tanto quanto a do ‘louco’ são angustiantes e causam temor. Mais especificamente neste último, Lavant concebe incrível firmeza nos gestos incompreensíveis do ‘louco’. Mas Denis Lavant também é preciso pontualmente em momentos dramáticos, por exemplo, quando vive um idoso já em seus momentos finais, como também ao encarnar um pai rude e repugnante ao tratamento a sua filha. E seu minucioso auge, na verdade, é quando Lavant esboça um único momento de alegria. E mesmo que essa seja claramente artificial, afinal segundos antes ele diz: “Não posso terminar hoje sem ao menos dar uma risada” é tão natural e espontânea sua colocação que, assim como sua parceira/agente Céline (Edith Scob em maravilhosa atuação), também esboçamos um leve sorriso, mesmo que rapidamente retornemos a expressão anterior.

Cinema falando sobre cinema, como todo grande exercício de metalinguagem, Holy Motors não só levanta sua tese de autoanalise, como também a sustenta durante todo seu percorrer. E mesmo que a clara mensagem tratada inicialmente seja de desapontamento em um cenário onde o observador, de fato, se atenha apenas a observar – e muitas vezes nem isso – se tornando uma figura insensível e apática com relação ao que se passa em tela, me utilizo de determinada conversa entre Oscar e seu patrão, para contracenar com esse texto, e assim finalizá-lo:

“Você ainda gosta do seu trabalho? Se estou perguntando é porque tem gente achando que você está com ar um pouco cansado ultimamente. Algumas pessoas estão reclamando que quando o veem não conseguem mais acreditar.”

“Sinto falta das câmeras. Quando eu era jovem costumavam pesar mais que a gente. De repente ficaram menores que nossas cabeças. Agora nem dá mais pra vê-las. Aí às vezes fica difícil mesmo acreditar. Os assassinos não precisam ver as câmeras de segurança que o vigiam para acreditar que estão lá. Aquilo que me fez começar me faz continuar: A beleza do ato. Dizem que ela está nos olhos de quem vê.

E se não houver mais quem olhe?”.

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