2012, Cinema, Críticas

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012)

Devo adiantar logo de antemão. Não sou fã da trilogia O Senhor dos Anéis. E toda vez que sou questionado sobre o porquê da minha má recepção aos filmes tenho dificuldades em fazer o ‘perguntador’ entender o que me leva a esta opinião. Mas, novamente, tentarei explicar. Filmes épicos e mitológicos, assim como os de ficção científica, mais até do que outros gêneros, dependem arbitrariamente de algo chamado ‘Imersão’. Se você não entrar na história, ou melhor, no universo, estará vendo apenas imagens bonitas, porém vazias. Um possível não envolvimento tanto com a história quanto com os personagens é o maior temor de obras do gênero. E isso, acreditem, é essencial para um filme com as características de Senhor dos Anéis. Eu, resumidamente, não acredito (esse verbo pode ter mudado) naquilo que ocorre em tela. E a explicação para isso definitivamente é algo complicado de se diagnosticar o motivo, mas nunca me senti convidado a experimentar e vivenciar conjuntamente com Frodo. Esse talvez seja o grande pecado da trilogia dos Anéis.

Mas e se esse O Hobbit – Uma Jornada Inesperada tivesse, seguindo sua ordem cronológica, sido lançando anteriormente a trilogia? Posso adiantar a vocês. Talvez minha imersão tivesse acontecido instantaneamente.
Porque neste novo projeto elaborado – novamente – por Peter Jackson consegui entender aqueles que se sentem maravilhados com o universo mitológico criado por Tolkien. E mais, em O Hobbit me senti literalmente convidado a participar daquela aventura. Porque a figura de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) nada mais é que a figura representativa de cada um que está sentado na poltrona do cinema. Ele é alguém simples que vive sua vida conformado com sua mera existência no paradisíaco Condado. Até que Gandalf (McKellen) inexplicavelmente o convida para uma aventura. ‘Mas porque eu iria nessa aventura?’ questiona Bilbo – e todos nós. Oras, porque não iríamos?

É dessa forma que Peter Jackson consegue quebrar a ordem de ‘épico’ de sua narrativa, já que Bilbo entra na aventura não porque tenha um propósito específico, mas pura e simplesmente porque estava cansado de viver aquela vida regada ao ‘nada acontece’. E ao contrário do que possa parecer, esse é um grandioso acerto de Jackson. Em determinado momento do longa, já pra lá de sua metade inicial, parei e me perguntei: ‘Porque eles estão fazendo isso mesmo?’. E na verdade, cheguei à conclusão que pouco me importava até aquele momento, já que o universo de Jackson é tão abrangentemente acolhedor que as motivações de Bilbo e seus parceiros tornam-se secundárias. Mas isso não significa que elas não existam, já que o roteiro de Peter Jackson, Philippa Boyens e Fran Walsh (ambos retornando a série) e a inclusão de Guillermo del Toro, acertadamente aprofundam o Rei Thorin (Richard Armitage) dando a ele um claro objetivo a ser seguido, balanceando dessa forma o aspecto construtivo de O Hobbit.
Aparentemente – já que não li – ampliando os acontecimentos presentes no livro de Tolkien, por um claro e evidente motivo comercial (lembrando que serão três filmes), o roteiro ainda se dá ao luxo de trazer inúmeras referências que transmitem as figuras da trilogia para a mente do espectador, como se, em uma viagem nostálgica, revivesse tudo aquilo que ocorrera. E mesmo que, como vocês já sabem, eu mal tenha boas lembranças, me senti levemente tocado quando figuras conhecidas retornavam em cena.

Algo meramente pessoal e que me sinto na obrigação de comentar é que, assim como escrevi em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, sinto uma completa decepção quando filmes presentes dentro de um mesmo universo, com os mesmos realizadores, tenham que OBRIGATORIAMENTE serem comparados, a tal matemática burra do A é melhor que B que é melhor que C. Porque necessariamente O Hobbit teria que ser melhor que a trilogia dos Anéis? Basta analisar racionalmente a abordagem de Peter Jackson para entender que essa NÃO era uma de suas pretensões. O Hobbit muitas vezes flerta com a comédia. O próprio livro já tem um aspecto infantil, e mesmo que Jackson tente equilibrar esse aspecto (elevando o tom sério e épico em momentos pontuais), usa e abusa do senso cômico e caricato de seus personagens. Como o próprio mago Radagast é capaz de representar. Percebam como o clima é de inocência (ainda mais que de A Sociedade do Anel), onde o mal ainda é tratado apenas como algo muito distante. E isso é essencial para que possamos entender que O Hobbit não precisa ser melhor que Sociedade do Anel, Duas Torres e O Retorno do Rei, ele precisa sim, manter o universo de Tolkien aceso. E isso definitivamente ele consegue.

Tecnicamente irrepreensível – e infelizmente não tive a oportunidade de acompanhar em 48 quadros por segundos – Jackson dá ênfase ainda maior no maravilhoso universo da Terra Média. Dispensando mais comentários sobre os aspectos dos efeitos visuais, maquiagem e figurino, O Hobbit abrange ainda mais seu design de produção, trazendo ambientes ainda mais encantadores e realistas – com folhas interagindo com raios solares – além da belíssima trilha sonora de Howard Shore apresentar um dos pontos altos do longa.
Tendo um elenco homogeneamente bom – mesmo que alguns anões sejam pouco explorados – o destaque de O Hobbit fica certamente depositado nas figuras de Ian McKellen, Richard Armitage e principalmente Martin Freeman. O primeiro, nada mais representa o retorno de Gandalf, elaborando todos seus trejeitos característicos do personagem, utilizando tudo o que fora conquistado nas obras antecedentes. Construindo um Thorin altamente dimensional e empolgante para seus companheiros, Armitage representa muito bem o peso dramático do longa com extrema firmeza e imponência. E se Armitage é o peso dramático, chegamos ao surpreendente – e cômico – Martin Freeman. Abusando dos trejeitos e facetas de seu rosto ‘inquieto’ com bocas, balanço de nariz e cabeça, Freeman ainda corporalmente se estabelece como uma verdadeira surpresa, já que ele entrega uma das melhores atuações do ano – e que certamente passará despercebida e não terá reconhecido seu devido valor.

Apesar de mais longo do que deveria – uns 20 minutos a menos seriam mais benéficos – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, ao contrário do que possa parecer, não sofre com seu ritmo. Pelo contrário, o longa consegue criar uma cuidadosa atmosfera capaz de convidar alguém até então que pouco se importava para o universo da Terra Média. E talvez por isso os já fãs da trilogia tenham se incomodado com o ritmo, mas para mim, um completo leigo e ‘turista’ no mundo de Tolkien, O Hobbit é de fato, uma inesperada e maravilhosa aventura. A janela foi reaberta, ou para alguns, aberta pela primeira vez.

2 comentários em “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012)”

  1. Oi Filipe,
    Acompanho sempre seu blog (afinal recebo os posts por e-mail, rsrsrs) 😀
    Parabéns pela resenha muito bem escrita, divido com você o fato de ter curtido bem mais O Hobbit do que O Senhor dos Anéis, tanto nos filmes como nos livros. Confesso que quando li a trilogia eu senti que o excesso de descrição tira um pouco da emoção da narrativa, já em O Hobbit a leitura mais leve permite que a gente avance mais avidamente pelo que tá sendo contado.
    Só uma detalhe em relação ao seu texto, quem interpreta o anão Thorin é o ator Richard Armitage e não o Lee Pace (que interpreta o pai de Thorin, Thranduil).

    Também escrevi uma resenha sobre o filme ontem a noite, pode dá uma lida: http://wp.me/pCGut-Fx
    Abraços

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