A Viagem (2012)

A Viagem, ou melhor, Cloud Atlas, é um filme que, depois de suas três horas de duração, lhe expulsa do cinema com uma sensação dificilmente diagnosticável. Poucos ao deixarem a sessão dirão: ‘Amei’ ou ‘Odiei’. E aqueles que conseguirem chegar a este diagnóstico certamente apontarão para segunda opção. E não á toa, quando saí do cinema – e quase todos os lugares estavam ocupados – pude diagnosticar um marcante silêncio entre todos os espectadores, nem mesmo o usual ‘E aí, o que achou?’ esteve presente. Isso porque a nova e ambiciosa produção dos irmãos Wachowski (sim, eles ainda estão vivos) em parceria com Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra) caminha por diversos cenários, sensações e passagens do Homem: Amor, dor, morte, nascimento, sofrimento, crença, sexualidade, diversão, liberdade, ciúmes, ambição e… destino.

Pessoas de diferentes épocas estão interligadas, mas não por uma árvore genealógica ou algo do tipo. A engenhosidade da obra baseada no romance de David Mitchell, considerada por muitos infilmavel, não busca tratar essas semelhanças apenas de maneira objetiva e direta – mesmo que estas estejam lá, como um diário escrito por determinado personagem é capaz de frisar. Porque A Viagem, mais do que uma interligação de diversos e diferentes personagens e seus devidos ‘mundos’ é um legítimo e autêntico ‘filme de personagens’. Eles são fortes, tridimensionais e desenvolvidos de maneira cuidadosa e absolutamente impecável pelo trio de diretores. Assim, mesmo acompanhando ao menos seis linhas narrativas que a princípio não possuem nenhuma ligação direta, A Viagem consegue construir personagens fortíssimos, sendo este, sem sombra de dúvida, o grande trunfo da produção. Durante estas suas três horas nos dispomos a aceitar a existência, emoções e indagações dos personagens centrais, os The Cloud Atlas Sextet, uma canção composta por Robert Frobisher (Ben Whishaw). Pela ordem cronológica: Adam Ewing (Jim Sturgess) um advogado em um navio em 1846, no período da escravatura; Robert Frobisher e Rufus Sixsmith (James D’Arcy) que em 1936 lidam com uma relação homossexual, assim como os bastidores da composição da musica citada acima; Luisa Rey (Halle Berry) uma jornalista em 1973 que investiga usina nucleares; A relação de Timothy Cavendish (Jim Broadbent) e seu irmão, em 2012; Somni-451 (Doona Bae), líder de uma revolução em 2144, onde clones desafiam o poder vigente; e encerrando Zachry (Tom Hanks) que em 2321 vive com sua família em uma aldeia apresentada em um mundo pós-apocalíptico.

Porém o pequeno detalhe, como vocês puderam perceber, é que, diferentemente de inúmeras obras que retratam temas semelhantes (pessoas desconhecidas que se cruzam de alguma maneira) A Viagem se passa em um intervalo de tempo de ‘apenas’ 470 anos.
Mas o que será que transforma A Viagem em um excepcional estudo de personagem(s)? Os irmãos Wachowski, com o nada mais que sublime design de produção, onde gostaria de destacar a Seul futurística inspirada em Blade Runner e Tron; a selva com desenhos que remetem a Apocalypto; além da constante troca de figurinos de diferentes e longínquas épocas tratam de criar uma atmosfera altamente replicável, e porque não introspectiva e acolhedora. O design de produção, aliás, ganha mais um retoque fundamental: A maquiagem. Expondo seus atores a diversas facetas minuciosamente conduzidas, o trabalho de maquiagem é excepcional. Destaque para Jim Sturgess, Doona Bae e James D’Arcy em 2144, assim como Tom Hanks envelhecido e repleto de cicatrizes e a assustadora composição estética de Hugh Grant em 2321, que mais parece pertencer a uma tribo de ‘Coringas’.

Fazenda mágica, o montador Alexander Berner entrega indiscutivelmente um trabalho primoroso, conseguindo estabelecer não só uma lógica sequencial perfeccionista, como sustentando o ritmo da produção em pé durante sua longa duração.
Aliás, A Viagem esteticamente é um deslumbre dos irmãos Wachowski. E o mais espetacular disso tudo é que a parte técnica SERVE a trama, e não ao contrário. Ou seja, ela é uma peça importante e fundamental a carpintaria da produção, tanto quanto o aspecto dramático – e me parece claro que os irmãos ficaram mais encarregados do visual e Tykwer da ‘alma’.
E não deixa de ser uma prova de humildade de Lana e Andy, já que perceberam o quão fundamental seria não só a abordagem visual, mas também a dramática, entregando então este exercício para alguém já minimamente acostumado – lembrando que Tyker, além do já citado Corra, Lola, Corra dirigiu obras como Perfume – A História de um Assassino, Paris Te Amo e Triangulo Amoroso.

Todos os inúmeros personagens de A Viagem estão interligados de maneira sutil e isso é lidado de maneira emocionante, já que citações como “Nossas vidas não são nossas próprias. Do útero ao túmulo, estamos ligados a outros. Passado e presente. E pra cada crime e cada bondade, renasce nosso futuro.” sintetizam uma filosofia de tudo o que realizamos hoje, é fruto de algo que já aconteceu, assim como será capaz de frutificar algo que irá acontecer. E tão fascinante quanto sua ‘ideologia’ é a minuciosa exemplificação da obra. Já que seis histórias nos dão a impressão que funcionariam também individualmente – gostaria de ver um filme isolado apenas sobre o processo apocalíptico e revolucionário, tanto como a história ‘por trás’ da composição clássica do Cloud Atlas.

E percebam que A Viagem não só é ambicioso em sua proposta e estética, como também em sua passagem por diversos gêneros dentro do próprio cinema: Drama, comédia, romance, suspense, ficção, ação… tudo está presente. Além, é claro, da coragem em colocar seus atores para viverem, cada um, ao menos sete diferentes personagens (inclusive de sexo opostos).
Aliás, não serão poucas as rimas narrativas pinceladas pelos irmãos Wachowski – percebam a incrível semelhança da luta pela liberdade na Seul futurística e a abolição da escravidão. Assim como a óbvia utilização dos atores que vivem diferentes papéis, onde aqueles que ganham maior destaque sempre possuem resquícios de uma personalidade anterior, mesmo que se outrora tenham sido ‘bons’ nada os impedem que agora sejam ‘mal’, afinal, não seria esta dualidade a real natureza do ser humano? (Confira um infográfico dos principais personagens, clicando aqui). E o trabalho de todos é formidável, em um elenco homogeneamente espetacular – e se os já mais que reconhecidamente talentosos Tom Hanks e Jim Broadbent estão completamente à vontade, as surpresas e grande atuações ficam por conta dos – relativamente – desconhecidos Doona Bae, Ben Whishaw e James D’Arcy.

Trabalhado engenhosamente, A Viagem é um deslumbre de personagens marcantes que ganham forma com a marcante direção da parceria entre os irmãos Wachowski e Tom Tykwer, que infelizmente serão pouco reconhecidos por este magistral trabalho. Se tudo está conectado, A Viagem merecer ser visto e revisto diversas vezes sempre através de uma ótica sensibilizada com a magnífica arte de contar histórias através de imagens, ato este só conseguido com o cinema. E não é sempre que visualizamos algo tão complexo – filosoficamente – e esperançoso entre o passado, presente e futuro.

“Convicção como o medo ou amor é forçada a ser entendida como nós entendemos a teoria da relatividade, e os princípios da incerteza. Fenômenos que determinam o curso de nossas vidas. Ontem, minha vida apontava para uma direção. Hoje, é para outra. Ontem, eu acreditava que nunca faria o que fiz hoje. Essas forças que frequentemente reconstroem tempo e espaço, elas podem moldar e retocar o que se imagina que será de nós mesmos, começa muito antes de nascermos, e continua após nós morrermos. Nossas vidas e nossas escolhas como quantas trajetórias são entendidas, momento por momento a cada ponto de interseção, cada encontro, sugerem uma nova possível direção.”

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