Django Livre (2012)

Certamente um dos diretores mais aclamados desta geração, Quentin Tarantino já parece ter construído uma carreira concisa e identificável por qualquer um que possua uma mínima ligação com cinema. Aquela fração de segundo em que você olha e diz: ‘Esse filme só podia ser de Tarantino’. Porém ao contrário do que seu rótulo lhe acompanha, mesmo identificando e reconhecendo seu imenso talento como realizador, sempre achei um tanto quanto absurda a megalomania – do público em geral – com relação a tudo produzido por Tarantino. Já que, na mera opinião deste que vos escreve, o diretor com mais de 20 anos de carreira entregou apenas três obras memoráveis – e consequentemente obras-primas: Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Bastardos Inglórios. Mas percebam um intervalo amedrontador e inconstante em relação a sua carreira, já que os dois primeiros filmes referem-se aos anos de 1992 e 1994 respectivamente, e Inglórios apenas a 2009. E nestes 15 anos? Não que os filmes concentrados neste espaço de tempo devam ser deixados pra trás, nele encontramos os bons Kill Bill: Volume II e A Prova de Morte, da mesma forma que os nem tão felizes Kill Bill: Volume I e Jackie Brown. Parágrafo a parte, estou me concentrando no trabalho de Tarantino como diretor, deixando claro que caso expandíssemos a análise a seu trabalho como roteirista encontraríamos um resultado muito mais satisfatório. Mas nenhum destes filmes, a meu ver, podem ser considerados um ‘erro’ na filmografia de Tarantino, no caso, eles apenas me asseguram o exagero da aclamação a qual me referi logo no início deste texto. E Django Livre chega aos cinemas para comprovar e sustentar ainda mais minha opinião (e lembrem-se fãs, esta é apenas minha opinião, e é uma pena ter que frisar isso). Na verdade, com mais um agravante neste círculo todo. Django é o primeiro erro de Quentin Tarantino.

Como disse anteriormente, me parece claro que o Tarantino roteirista é mais talentoso que o diretor. Dessa forma, não precisamos de mais do que dez minutos para entendermos a futilidade e estupidez dos assaltantes em Cães de Aluguel e que um roubo com figuras tão infantis jamais teria um resultado diferente de ‘desastroso’; da mesma forma a discussão se uma massagem no pé é ou não uma forma de traição, demonstra uma forte amizade na corriqueira vida de assassinatos de Vincent Veja e Jules Winnfield em Pulp Fiction, e finalizando apenas para exemplificar, a natureza ‘simpática’ do Coronel Hans Landa se metaforma em uma figura sádica e amedrontadora. E como podemos notar, em todas estas cenas onde tais personagens começam suas trajetórias, suas construções devem-se excessivamente ao inspiradíssimo roteiro de Tarantino, que com poucas palavras, iniciava assim sua eficientíssima estrutura de personagens, inegavelmente o ponto alto de seus longas – e que não á toa proporcionava grandes oportunidades para o elenco envolvido, como as memoráveis performances de Travolta, L’ Jackson, Keytel, Mardsen e Waltz podem comprovar.

E não me estenderei mais que o devido, mas aqui Django Livre já começa o ‘manual Tarantino’ de forma desastrosa, já que seus personagens são, indubitavelmente, as criações mais desinteressantes do diretor. Comecemos por aquele que dá nome ao longa. Vivido de maneira absolutamente inócua por um Jamie Foxx tão expressivo quanto o bastão de Eli Roth em Bastardos, Django é resumidamente um personagem irritante. Apático e aparentemente sem circulação sanguínea, o protagonista não consegue emergir o público em seu mundo. Assim, quando em sua primeira aparição Tarantino faz certo suspense para mostrar o rosto de Foxx – como se já não soubéssemos quem estava ali – percebemos a incrível falta de compreensão de que aquele seria o principal entrevero para o fracasso de Django – filme e personagem.

Porque Django, o personagem, não cativa nem emociona o público, não transcende nada mais do que uma cara emburrada e uma boa mira, sendo apenas uma peça modelável dentro da trama – por sinal de uma falta de imaginação assustadora, mas que será descrita em instantes.
Na outra ponta encontramos o Dr. Schultz, vivido de maneira correta por um Christoph Waltz não tão inspirado – e confesso ter ficado levemente preocupado com a dificuldade do ator em retirar trejeitos do marcante Coronel Hans Landa. O Dr. Schultz, ao contrário do que sua introdução nos ilude, do mesmo modo é uma figura modelável da trama, já que seu desenvolvimento ‘bilateral’ é decepcionante, mudando de forma, e quase de personalidade, apenas para fazer com que a trama siga determinado caminho, um artifício primário e barato dentro de um roteiro. Ganhando rapidamente o público com seu sadismo irônico, se por um lado o dentista Schultz demonstra-se extremamente eficiente em sua profissão – não dentista, mas sim Caçador de Recompensa – me parece um tanto quanto absurdo e incoerente que praticamente arrisque tudo, colocando uma figura como Django como seu parceiro, já que apesar do ‘ex-escravo’ apresentar uma incrível habilidade no gatilho (aliás, sabe-se lá como possui toda essa pontaria, mas enfim…) Schulz prova ter habilidade suficiente para seguir sua trajetória sozinho, sem a chatice e ignorância de seu parceiro. E quero acreditar que a explicação para a parceria de que Schulz agora se sente ‘responsável’ por Django tenha sido uma – infeliz e sem graça – piada.
E mais absurdo ainda é constatar a idiotice de Schultz em aceitar arriscar tudo o que tinha, inclusive sua vida, apenas para resgatar a esposa de seu mais novo amigo… ao notarmos que esta então é a trama central do filme… Hum… você já teve ideias melhores Tarantino.
E se Calvin Candie, vivido de maneira eficiente por DiCaprio é de longe o personagem melhor abordado, chegamos mais uma vez ao termo ‘figura modelável’ para descrever Samuel L’ Jackson numa mistura da Tia Anastácia e Mussum, uma esquete humorística altamente dispensável – apesar da boa performance do ator.

Aliás, os melhores momentos de Django Livre resumem-se ou em suas piadas, como na maravilhosa sequência onde um grupo discute a utilização de sacos na cabeça, ou em sequencias isoladamente analisadas, muito bem coreografadas por Tarantino, como no momento em que Foxx acerta um tiro em alguém cavalgando, e o diretor focaliza apenas no cavalo coberto por sangue.
Mesmo que esteticamente apresente uma maravilhosa reconstrução da época, com o inspiradíssimo design de produção, além de algumas boas sequencias, Django Livre é uma obra sem alma, e que mais do que isso, que carece daquilo que melhor representa o bom cinema de Quentin Tarantino: Uma boa trama e grandes personagens. E isso, definitivamente, não será encontrado no pior filme de sua carreira. Um primeiro e quem sabe único erro em sua filmografia.

E ao sentir nos instantes finais uma leve inspiração no Chapeleiro Maluco de Johnny Depp e Tim Burton tive a mais absoluta certeza: Queria o quanto antes estar livre de Django.

1 comentário Adicione o seu

  1. Igor Leal Figueiredo disse:

    Gostei da crítica.

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