2012, Cinema, Críticas

O Homem da Máfia (2012)

Logo durante os créditos iniciais o diretor Andrew Dominik abre um exercício de analogia latente durante toda a exibição do seu mais novo longa, o maravilhoso O Homem da Máfia. Porém tal analogia, referindo-se ainda nestes instantes iniciais, surge nublada, já que além de incômodas (principalmente e propositalmente pela frenética e interrompida trilha), buscarão nos oferecer uma lógica posteriormente para que só assim possamos encaixá-las. E quando conseguimos entender o objetivo de Dominik… Suavemente nos afundamos no opressivo Estados Unidos de 2008.
E notoriamente percebemos uma enorme preocupação do diretor em transmitir este exercício a todo seu público, já que deixasse esta mensagem apenas subtendida dentro do contexto passaria despercebida por grande parte. Entretanto o que acontece é que Dominik não se limita a este seu plano inicial que intercala discursos políticos – estamos situados na véspera da disputa presidencial que elegeria Barack Obama – Frankie (Scoot McNairy) caminha como se fizesse parte de um quadro abstrato – onde a fotografia com cores pastéis dão um tom desesperador e apático – retratando um falido bairro americano.

É dessa forma que Dominik busca afundar seus personagens em um decadente e em crise – moral e econômica – Estados Unidos. E não se necessitam de muitos planos para notarmos que tal bairro representado parece inabitável, e mais uma vez representado fotograficamente de maneira impecável. Do mesmo modo, Dominik retrata a crise tirando completamente todo o glamour de ações que outrora seriam ilustradas com cores fortes, ternos caríssimos, carros luxuosos e grandes executivos. Assim, percebam como quase tudo em O Homem da Máfia é rebaixado. O local onde o pôquer, alvo do assalto, está situado mais parece uma espelunca nos fundos de um prédio abandonado, do que um charmoso cassino a que estamos acostumados. E não deixa de ser interessante ver Ray Liotta sem ligá-lo ao glamour em Os Bons Companheiros. E o mentor do assalto? Um grande mestre do crime? Não. Um dono de uma lavanderia que, aparentando estar em desespero financeiro, é claro, recorre a dois ladrões que ninguém em sã consciência apostaria uma missão tão arriscada: São eles, Frankie e Russel (Ben Mendelsohn).
Rapidamente mostrando a natureza ‘inconfiável’ de seus personagens, percebam como Russel, vivido de maneira eficientíssima por Mendelsohn, sempre está suando intensamente, numa clara amostra da loucura em confiar em um sujeito que se estiver acordado (!) automaticamente estará tão drogado ao ponto de mal conseguir concluir uma conversa – e Dominik ilustra a dificuldade em se conversar com alguém dopado de maneira espetacular, apostando em uma fotografia confusa, em planos incoerentes e em uma edição de som incômoda, fazendo-nos passar pelo nervosismo de Frankie em tentar entender o que seu parceiro está dizendo.

Aonde então chegamos a Jackie Cogan (Brad Pitt), um investigador, ou algo do gênero, contratado pelos ‘mafiosos’ assaltados pela dupla Frankie e Russel. E não deixa de ser marcante que Cogan jamais chegue a conversar diretamente com seus contratantes, intermediados sempre pelo personagem de Richard Jenkins, uma espécie de advogado/consigliere, dando um tom empresarial ao processo. E percebam como Dominik sempre faz questão de isolar Jenkins em planos – e boa parte deles estando no carro – tampouco como não divulga seu nome, rapidamente o classificando como a voz ativa e ‘oculta’ de todos aqueles elementos que representa.
Voltando a Cogan, o roteiro de Dominik busca estabelecê-lo como uma única figura pensante durante toda projeção, parecendo ser o único capaz de entender o que de fato está acontecendo – e quando ‘advinha’ o que Obama irá dizer em um discurso que passa ao fundo, não deixa de ser marcante, porque na verdade não adivinhou, simplesmente observou a frequência com que aquilo se repetia, um ato ao que parece impensável aos personagens ao seu redor – e se Dominik nos dá o exercício de analogia, aos poucos encaixamos Cogan como uma representação do Estado. Não se preocupando em matar uma pessoa sabendo que é inocente, e tendo como explicação estar apenas ‘preocupado com a opinião pública’ (na verdade era o que seus contratantes gostariam que acontecesse), Cogan representa diversas facetas capazes de inseri-lo dentro deste panorama político. Ao chamar, por exemplo, um amigo, Mickey (James Gondolfini em maravilhosa performance) e ao perceber sua inoperância, não hesita em tomar atitudes capazes de contornar o equívoco de sua parte. E frases como “Matar pode tornar-se muito sentimental. Emocional, nada divertido, muito alarde. Eles choram, se explicam, suplicam se mijam todos, pedem as mãezinhas. É algo embaraçoso. Gosto matá-los suavemente, à distância, longe dos sentimentos. Não gosto de sentimentos. Não gosto de pensar neles.” ganham ainda mais intensidade e profundidade, como também a maravilhosa sequência onde mata um personagem e Dominik usa e abusa do slow-motion, mas ao contrário de 90% dos diretores que se utilizam do artifício, aqui a linguagem faz todo sentido, já que nos remete ao título original do longa, Killing Them Softly, e a suavidade transposta pelo slow-motion, no caso no assassinato, é precisa e quase poética.

Empregando um ritmo sempre consistente, Andrew Dominik, responsável pelo O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, acerta mais uma vez, agora ao inserir seus personagens em um cenário escasso de seres pensantes e que sejam capazes de entender a gravidade de tudo o quê está ocorrendo, e não a toa, boa parte dos diálogos surgem completamente aleatórios e corriqueiros, pouco tendo a ver com a trama.
E se podemos – e devemos – equiparar a todo instante a trama com a crise americana, tangenciada pelo processo eleitoral, não deixa de ser poético que o único ser pensante seja o representante metafórico… do Estado. E não me parece coincidência que sua grande especialidade seja matar suavemente a longa distância para jamais se envolver com os sentimentos das vítimas. E para vocês? Seria isso uma coincidência?

“Meu amigo, o Thomas Jefferson era um santo americano porque escreveu as palavras: “Todos os homens têm direitos iguais”. Palavras em que ele não acreditava, visto que deixou os filhos viver na escravidão. Ele foi um esnobe rico que estava farto de pagar impostos aos Britânicos, por isso escreveu umas frases bonitas, despertou as pessoas que acabaram morrendo por essas palavras. Esse cara me quer dizer que vivemos em comunidade.

Não me façam rir. Estou vivendo na América, e na América, estamos sozinhos. A América não é um país. É só um negócio.

Agora me paga, porra!”.

2 comentários em “O Homem da Máfia (2012)”

  1. Filipe, descobri o seu blog pelo próprio wordpress, e pela lida que dei nos seus posts, concordamos em muitos pontos nos seus filmes comentados. É com prazer que te deixo como opção para a minha busca de comentários sobre filmes. Grande abraço!

    Ricardo Lubisco

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