O Último Desafio (2013)

Foram longos dez anos desde a última aparição como protagonista de Arnold Schwarzenegger, e apesar de interpretar o papel mais marcante de sua carreira, sua despedida era melancolicamente afundada no terrível O Exterminador do Futuro 3. E ao visualizar o diretor Jee-woon Kim subindo a câmera e focalizando o rosto do ‘brucutu oitentista’ tive a mais nítida certeza: O cinema precisa de Schwarzenegger.
E não porque este seja tão mais talentoso que os atuais protagonistas do gênero (e só Jason Statham me vem à cabeça em uma amostra do escasso cenário), mas porque Schwarzenegger tem um carisma e a tal ‘presença em cena’ indiscutível.
E O Último Desafio mostra-se um filme sincero desde seu plano inicial. Assim, nosso primeiro contato será com um policial comendo… adivinhem? Uma rosquinha! E Kim faz um notável esforço para ‘saborear’ ainda mais o ato, como se nos convidasse a compartilhar do ‘alimento padrão de um tira’. Abordando uma trama relativamente simples, o longa acerca-se de uma estrutura interessante que se dividirá em duas frentes, uma claramente flertando com a leveza e comicidade, e outra transcorrendo um competente ambiente de perseguição.

No roteiro escrito por Jeffrey Nachmanoff (do bom O Traidor) acompanhamos na pacata cidade de Sommerton, a vida do xerife Ray Owens (Schwarzenegger). E Kim faz questão de mostrar a pequenez dos atos do cenário daquela cidade. Tipicamente um local onde ‘todos se conhecem’ Sommerton mostra-se um distrito relativamente esquecido do mapa – assim, quando um agente ‘descobre’ que faz fronteira com o México não deixa de ser hilário notar a insignificância do local. E ao que parece ser delegado do distrito pode ser uma tarefa relativamente monótona. Não à toa, alguns deles passam seu precioso tempo atirando em pedaços de carne em uma fazenda. E a divertidíssima sequencia em questão ganha um tom leve ao inserir uma perspicaz frase do xerife Ray, que dando uma bronca em seus rapazes diz: ‘O que 1/3 da minha equipe está fazendo aqui?’. E não deixa de ser hilariamente sincero que notemos que 1/3 de sua equipe sejam apenas DOIS delegados. O que já nos reflete a falta de grandiosidade, em diversos sentidos, do local. E Kim estabelece que eleger um delegado necessariamente não seja das tarefas mais difíceis, já que Ray parece nomear quem estiver disposto simplesmente a ajudar – e na próxima lista de espera certamente a primeira da fila será uma velhinha que entrega uma das melhores cenas do longa.

Mas se O Ultimo Desafio monta um espécie de Chumbo Grosso versão western-moderno em uma de suas frentes, na outra busca estabelecer a vasta operação que resgatará o perigoso traficante Gabriel Cortez (Eduardo Noriega), implacavelmente perseguido pelo agente do FBI John Bannister (Forest Whitaker). E a grandiosa operação, com seus exageros é verdade (como o imã gigantesco), ganha agilidade nas mãos de Kim. Organizando sequências lógicas e com cortes frequentemente leves, o diretor toma cuidado ao não confundir o espectador com uma câmera possivelmente inconstante. Isso transforma, por exemplo, a missão do agente John – vivido com a usual intensidade de Whitaker – complexa e insatisfatória, como registramos no momento em que este percebe estar lidando com alguém sempre um passo a frente – e o roteiro é inteligente ao optar por saídas inspiradas, como na farsa de colocar diversas pessoas utilizando o fardamento laranja para despistar a polícia.
E durante todo este contraste o diretor de fotografia Ji-yong Kim é hábil ao utilizar a Sommerton, cores amareladas, nos remetendo rapidamente a algo velho e ultrapassado, sintomaticamente o que a cidade representa. Contrapondo, Los Angeles sempre é tratada com paletas fortes – como o azul e o preto – realizando uma estética eficaz, mesmo que simplista.
Apresentando um ritmo acelerado e que consegue intercalar as situações de ambas as linhas narrativas sem deixar que o interesse se perca, o montador Steven Kemper realiza um eficiente trabalho ao não abusar de cortes bruscos, assim como optar por transições diretas, apesar de pouco inventivas.

Com tudo é uma pena que o longa acabe se entregando a exageros que tranquilamente poderiam ser evitados. Primeiramente o vilão vivido por Noriega parece uma figura enlatada do manual da Sessão da Tarde de ‘como aterrorizar a galera’ e, confesso, a todo instante aguardava que o traficante soltasse gritos diabólicos de ‘E o mundo será meu!’ e consequentemente dissesse os marcantes ‘Hahaha’ e por final, assumisse a forma de uma bruxa.
Equivocando-se também ao apostar excessivamente em gags humorísticas, o longa perde em instantes o tom de seriedade que a situação – já em momentos derradeiros – não proporcionaria. Assim, quando o delegado vivido por Luis Guzmán olha para câmera segurando uma espada e diz ‘Nunca se sabe quando precisaremos’ não podemos deixar de notar uma disfunção direta com o andar do filme. Pior do que isso é o terrível personagem vivido por Johnny Knoxville (fruto de Jackass, obviamente não poderíamos esperar nada diferente), que caso morresse logo em sua primeira aparição, faria um enorme favor a todos.

E se a trama constrói-se baseada no iminente choque entre suas duas linhas narrativas, o ponto forte de O Último Desafio reside, primeiro, em seu ato final, onde Jee-woon Kim emprega sequencias eficientíssimas, como a perseguição em um milharal, que além da dificuldade visual direta do espaço, o diretor ainda brinca com leves momentos de tensão. E segundo, e principalmente, na volta de Arnold Schwarzenegger as telonas.
Entregando-se completamente a sua figura já ultrapassada, Schwarzenegger não se limita apenas ao processo de disputa corporal, como também satiriza sua idade, assim como não deixa de ser hilário notarmos seu traje de ‘dia de folga’ contrapondo seu lado durão e intransponível.

Ligeiramente acima da média do que boa parte dos exemplares do gênero, O Último Desafio ainda nos propõe uma incrível viagem nostálgica a um dos maiores ídolos que o gênero já ofereceu. E felizmente o longa não se limita apenas a isto, entregando uma trama e realização condizentes com seu tamanho.

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