Lincoln (2012)

Foi-se o tempo em que os projetos com o nome de Steven Spielberg envolvido eram aguardados sistematicamente. E o diretor, possivelmente com um dos nomes mais fortes da indústria, entregou nos últimos dez anos uma filmografia inconstante, que parece agora – em seus últimos filmes – caminhar pausadamente para o pior momento de sua carreira. Porque depois do terrível O Terminal, dos ótimos Prenda-Me se For Capaz e Guerra dos Mundos, e dos sublimes Minority Report e Munique, o cineasta parece andar ladeira abaixo com seus últimos três longas metragens. E não que o favorito ao Oscar Lincoln se equipare ao inexplicável Indiana Jones 4 e ao pavoroso Cavalo de Guerra, mas inegavelmente demonstra mais um passo atrás de Spielberg.

Se em 1975 o público era inesperadamente amedrontado com um menino sendo devorado em Tubarão, agora em 2013 é acariciado com uma complexa história política que abordará a abolição da escravidão imposta pelo salvador-bom-samaritano Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis). Porque Lincoln, além dos evidentes erros contextuais, apresenta uma incrível parcela de covardia de seu realizador, que busca amenizar situações altamente importantes e consideravelmente reprováveis de seu homem-título, em prol, é claro, de acariciar o ego do público alvo. Agora imaginem se Lincoln fosse dirigido pelo mesmo Spielberg de Munique?
Certamente um dos presidentes mais amados da terra do Tio Sam, Lincoln mostrava-se um político ponderadamente preciso em seus discursos, abstrações e analogias na árdua – porém essencial – tarefa de persuasão de alguém ocupante de seu cargo. Com tudo, é uma pena que o roteiro de Tony Kushner e Paul Webb pinte o presidente como uma figura absolutamente pálida e pouco inspiradora, nos trazendo uma difícil tarefa em entender o porquê de sua aclamação. E caso participasse de uma conversa com o então presidente, e este me viesse com suas historinhas insuportáveis – e Spielberg erra a mão completamente em sua abordagem – que dificilmente alguém em sã consciência diria (sabem aquelas analogias estúpidas que os roteiristas parecem ter bolado por anos?), não hesitaria em apunhalá-lo e vendê-lo aos sulistas.
E percebam como Spielberg tenta mostrar o presidente como um americano simples, apostando em uma estética altamente aconchegante e convidativa (na bela direção de arte e fotografia), ao envolver Lincoln em seus aposentos. Assim, o diretor não hesita ao colocá-lo em uma imagem ‘humanizada’ ao carregar seu filho nas costas. E não entendam isso como um erro, porém era de se esperar uma mesma intensidade de Spielberg para aprofundar o espinhoso tema proposto por sua produção.

Por muito pouco, Lincoln poderia dar as mãos ao desprezível Histórias Cruzadas no capítulo importantíssimo da humanidade chamado: ‘Como os brancos salvaram os negros’. Mostrando uma figura risivelmente artificial do momento vivido durante a Guerra Civil, Spielberg pinta Lincoln quase como o ÚNICO responsável pela abolição da escravidão. Mesmo que tente balancear que, em volta da 13ª emenda – aquela que encerraria a escravidão – objetivos humanitários também se misturavam com políticos (o que por si só já é fictício, afinal é evidente que abolição muito mais tem a ver com a preocupação em encerrar a Guerra Civil), percebam como a covarde abordagem de Spielberg rapidamente nos faz desprezar o aspecto político – e sujo – em volta do processo. Porque mesmo que o objetivo fosse ‘benigno’, a abolição foi conquistada por meio de suborno de cargos eleitorais e inclusive financeiros (e é patético que o longa tente esconder este último, fazendo uma defesa semelhante à de um advogado que propõe que o fato de seu cliente ter matado uma vítima com uma faca, ‘não é tão grave’ do que com um arma de fogo). Mas você deve estar se perguntando, ‘Oras, mas Spielberg aborda a corrupção dos comandados de Lincoln’. Ok, porém se isto seria motivo de aplausos para o cineasta, é lamentável que sua abordagem tente soar cômica e levemente propícia ao apego do público com a situação – e até mesmo o mestre John Williams rende-se a falcatrua de Spielberg, apostando em temas engraçadinhos que possam relevar a atitude, queiram ou não, corrupta de seus personagens comandados pelo herói angelical norte-americano.

E não que a importância de Lincoln esteja aqui sendo desprezada, porém nem tanto ao céu, nem tanto a terra. E evidentemente Spielberg decide pegar o elevador mais alto e relevar todos os contratempos existentes no interessante processo. Mesmo que levemente desperdiçado, é interessante notar o complexo círculo envolvendo o aspecto político, os designados a conquistar votos, a disputa presidencial e o iminente fim da Guerra Civil.
Encaminhando-se com uma estrutura fluente que consegue balancear estas questões, Lincoln arma eficientemente uma composição com diálogos sempre inteligentes e inspirados – mesmo que, repito, seja uma pena o excesso de analogias do protagonista, mesmo que faça parte de sua personalidade. E o longa sempre ganha força dramática ao abordar a convivência de Lincoln com sua esposa Mary, vivida de maneira eficiente por Sally Field.
Em um elenco homogeneamente bom, sobretudo envolvendo as atuações de David Strathairn, Tommy Lee Jones e Hal Holbrook, alguns nomes ainda surgem levemente desperdiçados, como os de John Hawkes, Jackie Earle Haley e Joseph Gordon-Levitt.

E se Lincoln pudesse ser resumido em uma palavra, teríamos, na verdade, que usar três: Daniel Day-Lewis. (Apesar do ‘Chato pra c*’ também se encaixar).
Sem dúvida um dos atores mais talentosos de sua geração (e quem sabe de outras), Day-Lewis transforma Lincoln corporalmente em algo sempre vulnerável, por todo instante estar relativamente acorcundado, o que de certa forma faz um interessante contraponto com a altura do presidente (tinha 1,93m). Utilizando uma vocalidade sempre mansa e pausadamente pensativa, o ator exibe-se um capítulo à parte e o que há de melhor na produção.

Mais uma vez entregando-se ao melodrama artificial em seu momento final, e sofrendo com um ritmo inexplicavelmente lento e monótono, Lincoln é uma considerável decepção quando o vemos associado ao nome de Steven Spielberg… Entretanto, se pegarmos apenas como base o que o diretor entregou nos últimos sete anos notaremos se tratar da real e atual tônica do cineasta. Uma pena.

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