2012, Cinema, Críticas

O Resgate (2012)

Não é de hoje que Nicolas Cage virou sinônimo de várias coisas. Quando utilizado como um termo, pode significar, por exemplo, que seu cabeleireiro possui um gosto duvidoso ou está dormindo com sua mulher. (“Poxa, acordei com o cabelo Nicolas Cage hoje”). Caso você seja um diretor, indica que sua primeira escolha, provavelmente Jason Momoa, tenha negado o papel porque ‘não aproveitaria seu potencial dramático’. A ponto de virar um patrimônio cultural e folclórico do cinema, Nicolas Cage (e a partir de agora sempre utilizarei seu nome destacado em itálico) mais uma vez precisa pagar suas dívidas e resgatar sua carreira. Porém as piadinhas com o sagaz nome do filme param por aqui, afinal ninguém quer recuperar sua carreira estrelando atrocidades como Motoqueiro Fantasma 1 e 2, Caça ás Bruxas, Reféns, Fúria Sobre Rodas, O Pacto, Presságio e O Sacrifício – e caso você decida abandonar este texto para vomitar, e depois disso, furar seus olhos com uma caneta e fazer um bloqueio visual e mental dos títulos mencionados acima, respeitarei e louvarei sua atitude, porque certamente será uma experiência muito mais gratificante do que O Resgate.

Pedindo licença poética – não que O Resgate mereça qualquer tipo de ‘licença’ – abusarei de anáforas (faz de conta) com a palavra ‘Supostamente’ já que esta é a que melhor se encaixa nesta suposta análise que supostamente deve ser levada a sério.
Tendo um roteiro supostamente escrito pelo suposto roteirista David Guggenheim – porém não me atreverei a dizer que supostamente estava lúcido já que a piada seria derrubada quando chocada com diálogos como “Esta é a minha última chance de dançar, amigo. Agora eu tenho dois pés esquerdos” ou “Quando você é um navegante com garras, em seguida toma o pacote todo” e a magistral e minha preferida: “Eu era belo, com um rosto lindo. Agora…sou um Picasso esquisito”.
Enfim, O Resgate acompanhará Nicolas Cage, aqui apelidado de Will Montgomery, um inteligente criminoso, dos melhores de todo país (e julgue tal afirmação como você bem quiser) que depois de roubar milhões de um banco, acaba sendo preso, porém a polícia jamais chega a encontrar o dinheiro roubado. Supostamente não sofrendo com a passagem do tempo, o cabelo de Nicolas Cage permanece intacto. Dessa forma o longa realizará um cuidadoso estudo sobre o processo capaz de manter o penteado Cagiano atemporal e cuidadosamente dividido em graus sobrepostos a raça humana… Bem que poderia ser verdade, mas O Resgate definitivamente espera construir uma trama ainda mais tola. Vamos lá: Após sua saída da prisão, incríveis minutos após liberado, Cage deve perseguir seu ex-parceiro Vincent (vivido de maneira constrangedora por Josh Lucas que deveria repensar seu papel como ser humano) que sabe-se lá como, tem inúmeras informações confidenciais da policia (afinal como ele saberia a exata hora em que Cage seria liberado?). Calma, estou me perdendo. Vamos nos concentrar na trama. O ex-parceiro de Cage sequestra sua irritante filha e a coloca em um aconchegante porta-malas de um taxi – e sabe-se lá porque, o criminoso coloca estrelas fluorescentes no local, provavelmente para emular uma viagem ao espaço, ou talvez para nos remeter a bandeira dos Estados Unidos, ou quem sabe, simplesmente porque é um completo de um imbecil (e prefiro essa última opção). E não me esquecendo, Vincent pede 10 milhões de dólares em troca da liberdade da garota.

Supostamente vivendo em uma época onde as empresas de seguranças não haviam inventado o alarme (nunca foi tão fácil entrar em uma loja com um clipes e passear dentro de um banco cheio de ouro sem ao menos que um mísero alarme seja acionado), e onde ser policial é sinônimo de analfabetismo funcional, O Resgate já começa da melhor maneira possível, fazendo uma inteligente analogia que Charlie Kaufman vibraria com tamanha genialidade. No inicio vemos um bêbado perambulando de madrugada por uma rua deserta, e em seguida, urinando nos pés de um agente do FBI. Não deixa de ser marcante e quiçá interessante que possamos buscar estas duas saídas para todas as escolhas do diretor Simon West: ou ele estava bêbado ou de fato quis urinar em quem estava assistindo.
Apostando em uma estrutura capaz de fazer com que Michael Bay pareça o novo Kubrick, West tem a proeza de transformar uma produção de noventa minutos arrastada e gerar pensamentos conflitantes na cabeça do espectador, que chega a torcer que um incêndio ocorra na sala de cinema para enfim nos libertar da tamanha tortura.
Tendo como único mérito realizar um plano que – não propositalmente (evidente, seria muita genialidade) – acaba comparando Nicolas Cage a um ursinho de pelúcia, West, diretor de Os Mercenários 2, deveria se orgulhar do trabalho realizado até aqui.

Mas o grande frescor de O Resgate é seu vasto leque de personagens marcantes. Em um elenco homogeneamente capaz de fazer com que os representantes dos Direitos Humanos repensem sua posição sobre a pena de morte, Josh Lucas, supostamente imaginando estar entregando uma atuação digna de Marlon Brando, realiza uma das maiores aberrações que nem mesmo o elenco de Malhação conseguiria explicar a capacidade do ator em mesclar tão fluentemente os adjetivos ‘péssimo’, ‘horrível’ e ‘vergonhoso’.
Sendo supostamente mais irritante do que Ana Maria Braga, mas com um penteado levemente inspirado na mesma, Sami Gayle vive de maneira tocante Alisson, filha de Nicolas Cage, que tem como principal característica conseguir furar o banco de um carro com o dedo e nos fazer torcer fervorosamente para que morra o quanto antes para, quem sabe, o filme possa se encerrar.
Resumindo a estupidez de todos fardados como policiais e agentes, Danny Huston poderia conceder uma entrevista coletiva para explicar porque raios passa metade do filme trajando um chapéu sem o menor motivo aparente – e não aceito outra resposta diferente de que o chapéu seja o real motivo de sua incrível incapacidade de raciocinar.
Conseguindo tirar as algemas de maneira até hoje inédita, afinal seria pedir demais que mais de uma pessoa fosse suficientemente estúpida ao ponto de ter a mesma ideia, Nicolas Cage é Nicolas Cage, o que por si só já diz muita coisa sobre muita coisa.

O suposto longa ainda é imbecil ao ponto de imaginar que realmente nos importaríamos caso Alisson, Cage ou resumidamente toda população representada durante o filme, simplesmente morresse – e chega a ser tocante que o personagem de Josh Lucas mencione um furacão como uma das saídas mais rápidas para acabar com a tortura que esse O Resgate nos faz passar.
E tudo seria mais interessante caso no final descobríssemos que Nicolas Cage não queimou o dinheiro. Ele simplesmente escondeu entre sua vasta cabeleira.

Porque quem supostamente queimou o dinheiro em forma de um ingresso, caro amigo, é este que supostamente vos escreve.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s