2013, Cinema, Críticas

João e Maria: Caçadores de Bruxas (2013)

O prejuízo da inserção de personagens fabulosos em ambientes contrários ao bom senso de suas origens poderia ter sido mais grave em João e Maria: Caçadores de Bruxa. Não que a produção não deixe de flertar com a mediocridade em diversos pontos, porém se distancia levemente dos outros exemplares do ‘gênero’ (que gosto de intitular gênero-não-ligue-muito-pra-isso).
E o mais hilário é que João e Maria perde força justamente por ser… João e Maria.  Tendo a obrigação de pelo menos justificar o porquê da escolha de João (Jeremy Renner) e Maria (Gemma Artenton) para estrelar sua epopeia, os roteiristas Tommy Wirkola e Dante Harper acabam se auto-flagelando – e consequentemente sobra para o público – ao tentar inserir uma banal trama que remeta minimamente ao conto dos irmãos Grimm, porém a atitude mais sincera que a dupla poderia tomar seria: ‘João e Maria? Isso é só um caça-níquel’. Porque na verdade os protagonistas poderiam tranquilamente ser Juquinha e Jurema, Batman e Robin ou até mesmo Caetano Veloso e Gilberto Gil, caso o longa optasse por simplesmente contar uma história não tão estúpida e apostasse mais no interessante – e salvador no final das contas – clima criado em torno de seus personagens centrais.

Demonstrando uma capacidade inenarrável em conduzir cenas de ação, é uma surpresa que João e Maria consiga sobreviver a deficiência imaginativa do medíocre diretor Tommy Wirkola. Parecendo não entender a nem tão complexa lógica do ‘se você quer que o público consiga enxergar alguma coisa seria interessante apostar em planos não tão fechados’ é surpreendente que nenhum ser vivo tenha encostado em Wirkola e entregado o singelo conselho ‘que tal desligar a câmera e mudar de profissão?’. Capaz de fazer com que Jonathan Liebesman e Michael Bay estufem o peito e o diagnostiquem com mal de Parkinson, Wirkola aborda de maneira acéfala a importante cena inicial que mostra como João e Maria tornaram-se os tais caçadores de bruxas – com planos fechados e inconclusivos, além da preguiçosa montagem.
Juntando-se a 95% dos cineastas que insistem em utilizar o 3D sem entender sua real função, Wirkola ainda limita-se a ‘jogar coisas na cara do público’, que caso sinta-se satisfeito apenas com isso, seria interessante experimentar visitas a parques aquáticos que lhe trarão uma experiência, digamos, mais real. Utilizando uma profundidade de campo inexistente, João e Maria, com sua fotografia inexplicavelmente escura, ainda resume em uma cartilha tudo o que de pior podemos encontrar em cópias 3D.

E sinceramente começo a suspeitar das minhas reais sensações com relação ao longa, já que apesar de ter deixado a sala de cinema ligeiramente satisfeito (e só um não-humano pode me julgar), percebo apontar apenas pontos negativos. Ok, faremos agora o difícil exercício: ‘E o que tem de bom?’.
E por mais que meus hormônios queiram resumir a experiência a uma fantasia eroticamente enfeitiçada com Gemma Artenton, Pihla Viitala e Famke Janssen (e caso esta última não aparecesse poderia ser substituída por Julianna Margulies tamanha inexplicável semelhança entre ambas), gostaria de resumir meu ligeiro afeto com a seguinte palavra: Gore.
Se existe algo realmente interessante em João e Maria, tirando as figuras femininas citadas acima, são os surtos repentinos de Gore e Trash que o longa ameaça adentrar. Não que vá muito afundo, mas não deixa de ser uma experiência relativamente satisfatória quando vemos o Troll (uma espécie de Shrek aclorofilado) esmagando a cabeça de sargentos com seu pé; ou quando um cidadão simplesmente explode liberando diversos vermes de sua barriga; ou mais precisamente quando alguém é desmembrado na forma de uma estrela de cinco pontas (!).
E apesar da já citada fotografia escurecida que atrapalha consideravelmente a experiência em 3D, a estética montada pela equipe de produção torna-se interessante, como notamos em bons momentos onde o espaço da floresta, por exemplo, é bem aproveitado com cenas que criam uma relativa tensão.
Da mesma forma o design das bruxas, mesmo que nada inventivo, cumpre bem sua função como podemos observar no instante em que diversas criaturas se agrupam, gerando uma curiosa variação.

Limitando-se exclusivamente a fazer poses para possíveis wallpapers, Jeremy Renner – um ator que confesso gostar – emplaca mais uma vez uma atuação completamente esquecível (vide O Legado Bourne), sendo novamente pouco aproveitado e mal explorado inclusive nas cenas de ação. Com sua usual cara de sono, Gemma Artenton – belo decote – limita-se a jogar sangue na cara – belo decote – e mostrar que, mesmo quando não dormimos bem podemos ter um… belo decote.
O elenco ainda é composto por Peter ‘I’m Bad and I Like It’ Stormare, o inútil Thomas Mann, a linda Famke Janssen e a bizarramente bela mistura entre Claire Daines e Forest Whitaker: Pihla Viitala.

Sendo uma divertida e estúpida experiência, João e Maria: Caçadores de Bruxas é como se fôssemos na casa daquele primo babaca da sua namorada e, ao invés de jogar, ficássemos apenas olhando o paspalho matar monstros em um game similar a God of War. Pode até ser divertido, mas vai depender muito do referencial.
Comparado a ficar escutando os dizeres do babaca – e minha metáfora seria ainda mais poética caso o mesmo estivesse trajando uma capa vermelha, tivesse os olhos nas extremidades do rosto e decidisse formalizar tudo na forma de um roteiro – o longa pode até substituir uma boa dose de alucinógenos.

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