2013, Cinema, Críticas

Capitão Phillips (2013)

Paul Greengrass é um diretor acostumado a inserir em praticamente todos seus trabalhos uma dose trepidante de adrenalina, apostando boa parte de suas fichas na câmera sempre inquieta em suas mãos e no poder de inserção que muitas vezes isto, aliado a outros fatores, tende a provocar. Observando rapidamente sua filmografia, onde passamos pelos excelentes Supremacia e Ultimato Bourne, assim como os também eficientes Vôo United 93 e Zona Verde, notamos um considerável esforço do cineasta em acelerar a respiração do telespectador, seja com a montagem frenética que seu usual parceiro Christopher Rouse domina como poucos, ou pela veemente tensão criada pelos movimentos de câmera muitas vezes até inconclusivos, o que em determinadas situações – não todas, é verdade – criam uma verossimilhança louvável com o contexto empregado: Imagine-se correndo no escuro apenas com uma lanterna em mãos. O princípio de Greengrass, ao apostar na extrema inserção do público, é basicamente este.

Capitão Phillips, adaptação da obra literária A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALS, and Dangerous Days at Sea, obedece à mesma lógica visual usualmente estabelecida pelo diretor, destacando-se por diversos momentos empregar um alto grau de tensão, além de dramaticamente, como um todo, ser bem estruturado.
Dessa forma Capitão Phillips ganha ares dramáticos quando Greengrass explora de maneira hábil os dois lados antagonistas da produção: A equipe capitaneada por Richard Phillips (Tom Hanks), numa operação naval que visa entregar mercadorias e alimentos a somalianos; E um grupo de piratas somalis liderados por Muse (Barkhad Abdi). A escolha em não deixar de lado os somalis é altamente perspicaz, já que Greengrass busca estabelecer uma aproximação dramática com o mundo injusto percorrido por aquelas pessoas, exprimindo a pressão que aquele grupo de miseráveis piratas sofre de seus lideres e a insustentável condição, astutamente representada logo nos primeiros momentos, quando a incomoda fotografia amarelada pinta um cenário desgastado e dissonante de qualquer resquício de felicidade que aqueles rostos cansados representam.
Compondo essa junção dramática, Greengrass como de hábito estende-se competentemente em momentos tensos, como na incapacidade do cargueiro comandado por Phillips se desvencilhar do barco ocupado pelos piratas e substancialmente no confronto posterior.

Com tudo, se Capitão Phillips compõe uma primeira metade repleta de diversos grandes momentos, sua metade final apresenta-se esquemática e capenga, tropeçando em pequenos discursos artificiais: “Na Somália não temos outra opção” e principalmente na abordagem simplista da resolução do sequestro – se por um lado os agentes da SEAL e marinha apresentam-se como uma eficaz estrutura de coação e planejamento, o envolto dos quatro somalis e Phillips mostra-se cansativo, até certo ponto entediante, e dramaticamente superficial – como no exagerado instante em que Phillips decide escrever uma carta para família sem julgar que tal atitude poderia colocar tudo a perder.

Sustentado dramaticamente pelas adversidades e improporções criadas pelo eixo Phillips-Muse, graças as grandiosas atuações de Tom Hanks e Barkhad Abdi, Capitão Phillips estabelece-se como um drama eficiente, contornado pela exímia habilidade de Paul Greengrass em fomentar um cenário regular, tendo como a tensão, a chave necessária para essa reunião.

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